life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

78 Rotações

Não que a grana esteja curta. Mas se Miguel demora muito, vai ficar.


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Em Lisboa, Caio, diálogo interno. Para um turista de verdade, o que menos importa é o destino. O lugar é uma mera desculpa para exercer o turismo como estado de espírito. Quem viaja a lazer - e o turismo é ancestralmente associado ao lazer - se coloca em uma posição de superioridade em relação aos moradores do local. Para eles, os turistas, a vida foi tão dócil, tão fácil de levar, que lhes concedeu tempo e dinheiro para conhecer outros espaços, vislumbrar gente com problema, brincar, ainda que por um pequeno período de tempo, de não ter preocupações. Assim, praia ou serra, que importa?

Até me tornar um turista profissional, eu odiava os turistas. Na verdade ainda não gosto deles, mas agora eu os entendo. A vida que nós levamos é, realmente, invejável - por algumas semanas.

Agora é Lisboa. Já foi Madri, Atenas, Buenos Aires, Amsterdã, sei lá, uma penca de lugares. Em todos eles, pensões pequeninas. Dois, três andares no máximo. Onde eu possa dormir e almoçar sem grandes preocupações. Nada de luxo. Um quarto simples e um banheiro honesto, suficiente para fazer a barba e tomar banho com dignidade.

Em geral, as pessoas se perguntam de onde eu tiro grana para esse estilo de vida. Do trabalho, oras! E meu trabalho, atualmente, é esperar Miguel.

Também em Lisboa, antes disso, Miguel, diálogo com outro sujeito, Caio não sabe.

- A gente precisa conversar. É o seguinte. Eu quero parar. É, parar de trabalhar. Quer dizer, parar com isso. Com essa vida. Você entende. Arrumar um emprego direitinho. Menos estresse. Inês já não agüenta mais. Eu sei que eu sou bom nisso, que você vai ter dificuldade até encontrar alguém igual a mim. Eu sou. Não vou te deixar na mão também. Mas não quero mais, entende?

- Não.

(De agora em diante, sempre em) Lisboa (,tá bem?), Caio fala muito sozinho.

Miguel não aparece. Mas tudo bem, meu trabalho é esperá-lo. O Miguel de Atenas demorou quase dois meses. E a comida por lá nem se comparava com essa! Poderia ficar dois anos almoçando aqui se Miguel quisesse. As ruas têm cheiro de ovos fritos. Tudo aqui é feito de ovos, até os doces. Pensar sobre isso me deixa com fome.

Restaurantes para turistas são mais caros do que restaurantes para locais. E os restaurantes para locais cobram mais caro ainda quando notam que somos turistas. Por isso almoço na pensão, até conhecer minimamente o lugar, a ponto de não parecer que estou absolutamente perdido e alheio ao espaço ao meu redor, que é a condição básica do ser turista. No fundo, todo mundo odeia o turista quando não está praticando essa ocupação.

Enquanto isso, Miguel, monólogo com Inês.

- Você vai?

- Não.

- Você vai, não vai?

- Não.

- Eu sei que vai. Não tem como não ir. A gente não tem escolha. Você vai viver disso pra sempre.

- Não vou.

- Promete?

- Claro que prometo.

Depois disso, Caio e Caio.

Não que a grana esteja curta. Mas se Miguel demora muito, vai ficar. Normalmente, meus custos são por conta, eu até embolso algum por ficar em hospedarias relativamente baratas. Mas eu preciso pagar e eles me reembolsam. Fica no preço, de certa forma. Mas se a grana acabar antes... Nunca me aconteceu, nem quando eu era iniciante. A vida era outra. Nem sei como teria sido. Nem sei o que vai ser.

Nos primeiros dias eu sei que os Miguéis não vêm. Então eu posso ficar tranqüilo para passear por aí. Mas quanto mais eles demoram, menos eu tenho liberdade para andar. Tenho que ficar dia após dia em um quarto de pensão, esperando Miguel aparecer. Toda hora encho o saco deles:

- Não passou nenhum Miguel aí me procurando? Me chamo Caio, quarto tal...

Miguel não passou.

Antes do que acontecia enquanto isso, Miguel, monólogo com outro sujeito, Caio não sabe, Inês também não.

- Pelo menos esse último.

- Não vai dar.

- Não tenho quem faça isso agora.

- Desculpa, não vai rolar.

- Desculpa? Miguel, você vai mesmo me deixar na mão?

- Olha, eu prometi pra Inês.

- Dane-se, Miguel. Não quero saber. A gente não tem um contrato, pra você simplesmente descumprir. Você sabe o que vai acontecer se você pular fora mesmo, não sabe?

- Eu sei...

- Pelo menos esse último, Miguel...

Depois do que acontecia enquanto isso, Caio.

Costumo me disfarçar de escritor. Eles são menos odiados do que os turistas. Uso sandálias de couro, roupa de linho e Chapéu Panamá. Assim não preciso fingir que estou minimamente integrado à rotina da cidade. Pelo contrário. Fico assuntando, ressaltando as diferenças, colhendo material para o meu livro. Eles acreditam e adoram. O ego agradece a oportunidade de ser eternamente lembrado através de um romance que vai entrar para a história. Um bom romance. Um dos melhores dentre os que nunca foram escritos. Modéstia à parte.

Nada modesto, eu sei. É que Miguel não aparece. Começo a ficar nervoso. Eles já me atendem com:

- Não, nenhum Miguel esteve aqui.

Já sei tudo o que há para saber dos habitantes de Lisboa. Se eu fosse realmente escritor, já teria material suficiente para meu romance. Acho que vou tentar. Mas primeiro eu preciso dar uma volta. Pegar um ar, arejar os pensamentos. Ou isso, ou vou enlouquecer.

Rigorosamente ao mesmo tempo, Miguel, no orelhão com Inês.

- Está lá?

- Inês?

- Miguel! Onde estás?

- Não posso te falar agora. No orelhão. Eu vou ter que ir. Mas esse é o último, eu te prometo.

- Eu sabia, Miguel! Eu sabia! Não acredito nas suas promessas. Se for, nunca mais encosta em mim. Não posso acreditar no seu amor.

- Eu preciso ir. Não tem ninguém pra ir no meu lugar. O menino tá correndo risco de vida enquanto eu não aparecer.

- Azar, Miguel! Azar! A escolha é tua.

Bateu o telefone.

No balcão da pensão, instantes depois, Polícia, em diálogo com a dona.

- Está cá um gajo, Caio?

Mostrou a fotografia.

- Está sim. Mas está fora.

- Pois. Mostra-me o quarto dele, anda.

A portuguesa tenta encrespar os bigodes, mas derrete ao ver o distintivo. Sempre sonhou que Joaquim ingressasse também.

- Aquele imprestável!

Na rua, em seguida, Caio.

Julio Cesar também se chamava Caio. Caio Julio Cesar. Nunca tive trabalho em Roma. O pensamento vai longe quando a gente está esperando. Por mais que eu ande de um lado para o outro, no fundo estou só esperando e tentando me esquecer disso. O Miguel de Madri chamava-se Juan. Demorou tanto tempo que cheguei a comprar um disco. Sei lá qual era, escolhi pela capa. Era horrorosa, uma mulher terrível de feia, com um nariz gigantesco e peitos fartos. Muito fartos. Encobertos por um vestido de um amarelo mais feio que a hepatite. Não sei por que escolhi o disco. Fiquei tocado pela vitrola que havia no quarto. Tocado pela vitrola... Nunca vi quarto de hotel com vitrola. Em geral, tem só televisão. Enquanto esperava Miguel, ouvia a senhora dos peitos cantando. Havia uma chave que mudava a velocidade da rotação. Gostava de aumentar para 78. Parecia que o tempo andava mais rápido. Não há vitrola no meu quarto em Portugal.

Polícia na frente do hotel? Ai, Deus! Estão descendo com as minhas coisas! Eles encontraram! Putz! Acho que me viram!

Caio sai correndo. A Polícia corre atrás dele. Não se sabe que destinos encontrarão - é o menos importante para os turistas de verdade. Vinte e três segundos depois Miguel vira a esquina e entra no hotel. A dona está desesperada. Ouvem-se dois tiros. Ambos encolhem os pescoços assustados.

- Não tem quarto vago, meu filho! Não tem!

- Não quero me hospedar, dona. Sou Miguel, procuro Caio.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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