life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Marretadas de Amor

Acompanhei a recuperação pela tv. Vi quando abriu os olhos, no hospital, semanas depois. Toda arrebentada. A cara ainda parecia uma melancia atropelada.


shining_axe.jpg Lembro como se tivesse acontecido ontem de manhã: chegando em casa, cansado do trabalho, um calor de Judas e eu vejo Lidiane na cama com outro. Vejo não, escuto. É barra, ainda na sala, reconhecer os gemidos da própria mulher, no quarto, com outro. Também é barra reconhecer os gemidos do outro. Arriei a bolsa perto da porta e voltei para a rua. Dali duas esquinas havia uma loja de material de construção. No caminho, além de pensar em Lidiane na cama com outro, pensava na escolha que teria de fazer:

- Machado ou marreta?

Acho que se qualquer vizinho tivesse me visto voltando para casa com a marreta nas costas, com aquele ar de transtornado, teria me impedido de fazer uma besteira, como eles chamam. Ninguém me viu, mas todos souberam. Puxei onze anos de cadeia. Cumpri sete e vão me soltar.

Até que passou rápido. Não houve um dia em que eu não lembrasse daquilo como se tivesse acontecido ontem de manhã e que não tivesse lamentado por ter escolhido a marreta - Lidiane sobreviveu.

Acompanhei a recuperação pela tv. Assisti no programa da Fátima Bernardes quando abriu os olhos, no hospital, semanas depois. Toda arrebentada. A cara ainda parecia uma melancia atropelada. O lado esquerdo foi parar do lado direito e o lado direito não existia mais. Meses depois já conseguia balbuciar palavras curtas e se alimentar sem a sonda. Eu ainda nem tinha sido julgado.

A Justiça tem isso de bom. Demora tanto que, quando sai a pena, já cumprimos quase metade dela. Sem exagero algum. A prisão é um inferno, mas um inferno pacato na maioria do tempo. Em especial aos sábados. A não ser para quem era estuprador do lado de fora. Nesse caso a vida não é exatamente pacata em dia algum. Mas eu, que martelei a cabeça da minha mulher porque a peguei na cama com outro, era quase bem tratado. Chamavam-me Thor.

Demorei a perceber qual era a dos homens na audiência de condicional. Desde o início eu dizia que estava arrependido, mas que a martelaria de novo se ela me traísse de novo. (Não corria esse risco, terminamos ali, quando bati o martelo. Não ia querer uma mulher adúltera e com cara de melancia atropelada e ela não ia querer um presidiário, embora não estivesse mais em condições de escolher). Na última audiência disse a verdade:

- Arrependido não estou. Sinceramente. Mas jamais faria isso de novo, ainda que fosse preciso.

Então eles me soltaram. Antes tem de ver psicólogo e assistente social algumas vezes. É bem pior do que ficar preso. Mas paciência. No fim, o assistente social te dá um envelope com uma merreca que mal dá para a passagem e o lanche. Então ele diz:

- Boa sorte.

E te libera. Lidiane, com a ajuda de algumas próteses e adaptações de espaço, já havia voltado a trabalhar. Vi a matéria no programa da Ana Maria Braga.

A primeira coisa que fiz foi apanhar um ônibus para Copacabana. Queria ver o mar e uma mulher de biquíni, coisas que não via há anos, antes mesmo de ser preso. Na cadeia não havia mulher, apenas Socorro. Mês sim, mês não, ela virava a noite com a gente. Era caro e triste. Seu nome era Kátia, mas a gente chamava de Socorro, porque ela começava a berrar por socorro depois de umas três horas. O combinado era um de cada vez e por cinco minutos. Mas era difícil fazer cumprir. A mulher ficava lá, deitada nua, gritando socorro e dizendo que nunca mais voltava. Mas dali dois meses estava lá de novo. Era prima de um detento, que recebia uma comissão. Vi Socorro duas vezes em sete anos, mas a escutei uma infinidade de noites.

Em Copacabana havia umas mulheres com cara de socorro, que definitivamente não era o que eu queria ver. Mas também havia brisa do mar. Sentei na orla e pedi uma água de coco. Enquanto bebia, vi uma barata saindo do quiosque. Na cadeia, um doutor que matou a amante chamava as baratas de kafka, que é mesmo um nome bom. Peguei a mania com ele. Reparava muito nas kafkas. Elas poderiam estar onde quisessem, eram livres, mas estavam ali conosco, porque um pouco de comida lhes bastava. Acho que um pouco de comida também nos basta, na maioria dos casos.

- Kafka!

Eu disse. Mas ela não olhou para mim, como costumavam fazer as baratas da prisão. A brisa do mar perdia a graça. Não pude ir a lugar algum por tanto tempo e agora podia, mas não tinha aonde ir. Resolvi caminhar.

Há muita gente bacana em Copacabana, mas também tem muitas Socorro, alguns gringos pobres e umas bichas decadentes. Parei diante de uma vitrine sem acreditar no que meus olhos me mostravam. Esfreguei as vistas e me aproximei do vidro. Toda tortinha, dentro do salão, Lidiane cortava o cabelo de uma bicha dessas que parecia a Priscila da TV Colosso. Não podia ser, mas era. Não existem duas cabeleireiras tortinhas assim no mundo. Depois de me certificar de que era ela, apressei o passo sem olhar para trás. Não podia me permitir nem um segundo de dúvida. Havia uma loja besta de material de construção depois da esquina:

- Preciso de um machado. Marreta não serve.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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