life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Livro dos Horrores

Acordado, não quero, mas consigo parecer normal. E eles?


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1. Tinha medo de dormir. Não do escuro, da solidão ou de ladrão. Medo de dormir, afinal. De fechar os olhos e se entregar ao desconhecido, que se materializaria diante de suas retinas mortas. Temia não se dar conta de que era um sonho. Medo de não conseguir acordar em tempo e morrer no fim.

Por isso o caderno não deixava a cabeceira. Duzentas folhas grandes e sem pauta, encapadas por um papel marmorizado em tons de azul. Desde que decidiu anotar os próprios pesadelos, diminuíram bastante. Na verdade continuavam lá, toda noite, fazendo com que ele acordasse suando, com o coração acelerado e a respiração ofegante de quem luta para se manter vivo. Mas não se lembrava deles quando encostava o lápis no papel. Ou, vez por outra, lembrava-se e seus relatos beiravam os horrores da guerra. Onde nunca esteve - acordado.

O marmorizado na capa remetia à nuvens brancas em um céu azul. Gostava de olhar para cima nos dias de sol. Entretanto, sentia que a cada sonho estava algumas páginas mais longe de lá. Por isso, não deixava que ninguém folheasse o caderno. Não queria privar as pessoas do sol.

Não quis escrever isso em lugar nenhum, mas batizou o caderno como Livro dos Horrores.

2. Assim que abriu os olhos não soube dizer onde estava. O doutor Frederico era um homem com quase um metro e noventa de altura, muito magro e com pelos generosamente distribuídos pelo corpo inteiro, especialmente na barba vasta. Naquele momento, estava nu. Havia quem o preferisse assim. No entanto, sentia-se mais à vontade vestindo uma de suas camisas de linho branco. Com os pelos do peito tentando alçar vôo, para deleite das enfermeiras e pacientes do Instituto Psiquiátrico da Universidade do Brasil. O doutor tinha, em verdade, uma legião de fãs, dentre histéricas e psicóticas.

Eram quase oito horas da manhã, de acordo com o relógio. Tirou o telefone do gancho e discou o número nove intuitivamente. É assim em qualquer motel.

- Café da manhã, por favor.

A recepcionista estava mal-humorada.

- Qual quarto?

- Não sei.

Ela suspirou. O doutor levantou-se e cambaleou até a porta, nu e com o gancho do aparelho, do outro lado de um fio comprido, nas mãos. Na chave pendurada lia-se: 211.

- Duzentos e onze.

Ela bateu o telefone. Entrou no chuveiro torcendo para que não estivesse longe da Urca. Precisava estar com o jaleco impecavelmente branco na sala de cirurgia em uma hora. O bip já o perturbava. Precisaria dizer que não atendeu porque estava dentro do túnel, ou prestando a última visita a um homem à beira da morte. De fato, a mulher roncando na cama não parecia muito viva. Precisou olhar bem para reconhecer: sim, era de sua equipe.

Abriu a valise e aplicou-se dolantina. A primeira dose do dia. Restavam-lhe dezenove antes dos próximos sonhos. Após o café da manhã, descobriria com desprazer que estava em Bonsucesso. E que não sabe aonde estacionou o carro.

3. Naquela noite, como em todas as outras, Antônio teve um sonho ruim. Bebeu água e secou a testa. Fosse consultado, se posicionaria contrário à cirurgia, mesmo sendo o doutor tão bem recomendado. Colecionava casos de sucesso, onde a doença fora extirpada da mente do paciente sob a batuta do seu bisturi. Não importava que outras faculdades mentais fossem comprometidas. Não se pode negar que o paciente pararia de sofrer. Como também não se pode negar que mesmo a morte, último estágio da maioria das aflições, compartilha das mesmas propriedades.

Não sentiu vontade, no entanto, de anotar o pesadelo daquela noite. Não haveria novo capítulo em seu Livro dos Horrores. Passaria a utilizá-lo como diário. Não via mais propósito naquilo. Agora queria lembrar-se. Teria sido seu último pesadelo.

4. Soraya arrancava os cabelos da sobrancelha meticulosamente, um a um, para comê-los. Primeiro, sentia o pêlo dentro da boca. Conduzia-o com os dentes de um lado a outro. Mordia a raiz, destacando-a do restante. Então, engolia ambas as partes e preparava-se para arrancar outro. Não sem antes olhar para frente e ter certeza de que o trânsito não fluiu.

Estava em tratamento, agora que suas sobrancelhas não conseguiam se recompor tão rapidamente quanto ela as devastava. Tudo indicava uma melhora. Agora, em vez de comer os fios da sobrancelha, maquiava-se. Abria um estojo sobre o banco do carona e, batom após batom, imprimia todas as cores em sua boca, apertando um lábio contra o outro e fazendo um bico que admirava através do retrovisor.

Já havia batido o carro oito vezes por conta disso, mas naquela tarde chegou ilesa a Bonsucesso. Ainda que atrasada. Por conta disso, o doutor Frederico amarraria suas mãos por debaixo da cadeira, amordaçaria sua boca com uma ball gag e lhe daria uma surra de cinta, em princípio. Em sua transdisciplinaridade perversa, ele era o chefe e único membro do corpo de saúde a quem permitia atrasos. Mesmo no motel.

Entre uma e outra palmada, Soraya tentava gritar qualquer coisa. A baba lhe escorria pelos cantos da boca, formando uma poça debaixo de si. Em determinado momento, os gritos aumentaram consideravelmente. Um impulso fez com que Frederico removesse a mordaça. Pensou ter exagerado. Ela dizia, aos berros:

- 14 Bis! Aumenta! Aumenta!

O doutor recolocou a ball gag e aumentou o volume do som no console ao lado da cama. No dia seguinte, Soraya também se atrasaria para o encontro pré-cirurgico com Antônio. Ela é sua psicóloga.

5. O horror reside, unicamente, no que está escrito. Se eu não contasse, ninguém saberia. O mundo seria um lugar melhor? Eu seria mais feliz? Quantos, me pergunto, optam por não escrever? Quantos apenas sonham? Mas o horror se restringe ao mundo dos sonhos. Acordado, não quero, mas consigo parecer normal. E eles?

6. - Como vai, Antônio? A doutora teve um imprevisto, mas está a caminho.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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