life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Carta Triste a um Homem Morto

Mas não fica assim. O problema é comigo. De resto, tá todo mundo feliz. Todo mundo parece tão feliz! É sério, muito feliz. Eu não vejo ninguém realmente triste, sei lá, há anos.


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Marcelo,

Espero que essa carta te encontre em bom estado. Irônico dizer isso a um homem morto, mas as pessoas teimam comigo que faz sentido. E talvez faça, sei lá. Dane-se. No geral, não ligo mais para as pessoas e concordo com o que dizem para que elas parem de me encher o saco. Mas contigo é diferente. Defuntos e gatos costumam ser mais sensatos do que o ser humano. Se não fizer sentido esse papo post mortem, você me escreve pra contar, que eu juro que mostro às pessoas - mas evite indecências, por favor.

É tempo de novidades. Nunca te chamei de Marcelo, nunca escrevi pra gente morta e (quase) nunca te mostrei nada do que escrevi, muito menos por carta. Sei bem o que ia dizer:

- Uma merda.

E daria outro gole na vodka. Você tem toda razão. Em relação a qualidade duvidosa das letras e também em encher a cara.

Você não acreditaria nas coisas que andam acontecendo. Não quero te dar más notícias, mas é que, usando um termo técnico, é que tá foda.

Não sei te explicar porque, mas em algum momento a coisa desandou. A vida sempre foi essencialmente sem sentido. E não falo da minha ou da sua, quer dizer, também a minha e a sua, mas das pessoas no geral.

Continuo praticando aquele esporte, janelismo, que consiste em ficar boa parte do tempo na janela, observando gente indo e gente vindo. É uma arte. Trata-se de saber para onde olhar. A pressa nas pernas, o vazio nos olhos, as sacolas cheias de compras. Muitos detalhes. E foi isso que desandou, Negão. Há cada vez mais pressa nas pernas, cada vez mais vazio nos olhos, cada vez mais compras na sacola...

- É assim mesmo. As coisas caminham pra frente. O progresso, a tecnologia...

Agora me diz, Negão, é assim mesmo? Isso é caminhar pra frente? Tenho a impressão de que a revolução das máquinas já aconteceu e foi silenciosa. Elas já nos dominaram. Já nos acorrentaram na tomada. Aliás, mais do que isso, tem um troço novo que ainda não existia quando você partiu, o tal do wi-fi. Eles dizem que estamos todos conectados através de uma rede invisível. Um papo doido, nego velho. Estamos todos "conectados", presos nessa rede, através dos nossos aparelhinhos. Sim, a gente paga por isso. Toda a sorte de aparelhos, vários deles eram ficção científica quando você morreu. Cacete, parece que foi outro dia. Vou te poupar de descrevê-los, mas acredite, são como os anteriores, não servem pra rigorosamente nada.

E a vida continua. Cada vez mais rápida. Como um carrossel desgovernado. Nós, as crianças, ainda não percebemos que o brinquedo se quebrou e, por um defeito, gira cada vez mais rápido. Ainda achamos que é intencional; estamos achando isso tudo divertidíssimo. Eventualmente, um ou outro é impulsionado para a margem e acaba sendo lançado para fora do brinquedo, tamanha a velocidade. Acho que tô quase lá.

Escrever uma carta triste a um homem morto não é um bom prognóstico, não é?

Mas não fica assim. O problema é comigo. De resto, tá todo mundo feliz. Todo mundo parece tão feliz! É sério, muito feliz. Eu não vejo ninguém realmente triste, sei lá, há anos. A fome, a miséria, a injustiça, tudo permanece na mesma. O mesmo horror constituinte que você conheceu em vida. Mas isso parou de chocar os outros, saca? Todo dia a gente reza antes de dormir e no final do ano a gente escava roupas velhas no armário e doa para a caridade. E isso parece ser suficiente. Todo mundo te acha um cara legal por isso. Acho até que muita gente o faz porque todo mundo te acha um cara legal por isso.

E aí eu me sinto desajustado. Essa gente com a bandeira da caridade e dois carros na garagem me parece tão babaquinha! (Hipócrita, nojenta...). Aquele papo do Galeano, de caridade ser vertical e solidariedade ser horizontal... Enfim, ninguém mais lê meu xará. Aliás, essa é uma boa notícia! Atualmente é possível passar no vestibular sem ter lido As Veias Abertas da América Latina, mesmo quem presta para Geografia. Acho boa notícia, sim. Você sabe, nunca curti o establishment.

Outra notícia mais ou menos boa: segui teu conselho e criei o blog (e ele de fato me abriu portas). A menos que você se manifeste em oposição, vou postar essa tua carta lá. Você vai ver o sucesso que vai fazer, entre curtidas e compartilhamentos. Mas também vai ver que ninguém jogou os blackberrys fora. Exatamente, frutinha preta! Noutros tempos isso ia render muita sacanagem, não? Mas agora ninguém liga mais pra sacanagem. O cotidiano todo é meio soft porn. A gente vai se anestesiando de tudo.

É um problema até simples. Parece que todo mundo perdeu o tesão na vida. Sabe quando você tá jogando bola há horas e aí a galera resolve parar pra beber água? "Esfria". Depois o povo volta sem vontade e, se você estava no campo, sem pausas, é o único acordado na partida, mas vai broxando com o tempo, se não tem com quem jogar.

O povo esfriou. Relações humanas, puramente humanas, esquece. Agora as relações respiram por aparelhos. Não existem momentos genuinamente bacanas se eles não estiverem devidamente registrados em megapixels, armazenados em bytes, megabytes, gigabytes e até o tal do terabyte. Agora me diz: de quantos megabytes um ser humano precisa pra ser feliz?

Como você pode imaginar, o número de poetas e fotógrafos aumentou. Mas as poesias e as fotografias pioraram sensivelmente. Ainda assim, sou eu quem pareço louco quando digo que a câmera, no processo do fotografar, é o menos importante. Hoje nada que o dinheiro possa pagar pode ser o menos importante.

Lembra do tempo em que, se você gostava de uma música, tinha que comprar um disco, que vinha com outras quinze músicas que você talvez desconhecesse? Nesse percurso, acabava se apaixonando também por uma das outras quinze, ou até mais. Agora já não é assim. Você gosta de uma música, você a consome. E isso resume a nossa crise, Negão. A gente perdeu a capacidade de lidar com o inesperado, com as outras quinze músicas. A rede agrupa os semelhantes e o diferente que aguarde sua vez de entrar na moda.

O papel, o lápis e todas as infinitas possibilidades que eles abarcam, perderam completamente o propósito. Eles humanizam, então não nos serve. Só serve o que é touch. E ecologicamente correto. (Porque agora as pessoas fingem ligar pro meio ambiente. Como se trocar de celular todo ano, por um modelo mais complexo, quando o seu aparelho anterior funcionava perfeitamente, fosse minimamente condizente com isso).

Não que eu ligue para o meio ambiente ou mesmo para as pessoas. Só acho tudo isso muito triste.

O mundo que a gente conheceu se foi. Agora, o universo inteiro cabe na palma da mão e tem teclado qwerty. Uma pena, né?

Espero que por aí as coisas estejam melhores. Se não estiverem, me manda um e-mail. Desculpa as más notícias, mas é o que tem pra hoje. E o amanhã promete...

Abraço, beijo e escova de dentes,

E!

P.S.: Às vezes, só às vezes e bem às vezes, eu quase sinto um pouquinho de saudade.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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