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Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Época da Vida

Então os planos mudaram. Cancelou-se as crianças, a assistência humanitária, quatro qualidades de queijo na geladeira, o sofá verde-bandeira de camurça e as gravatas de seda.


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Peter estava de calça jeans e blusão branco de botão. Mas era domingo. Não interessa bem porque ele se vestia assim se era domingo. Acontece que há uma época da vida em que é domingo e por alguma razão nos vestimos assim. E é sobre essa época da vida que se trata. Peter estava nessa época da vida.

Na sala havia um tapete, Irina em uma poltrona e um livro a um canto. O livro, diga-se, não tinha pretensão de ser lido. A luz amarela do abajour misturava-se com o dia cinza na capital homocromática. Não havia filhos e o dinheiro que entrava era maior do que aquele que saía.

Fazer sexo, naquele instante, não era a primeira opção. Então, Peter entendeu seu momento: o crepúsculo de uma juventude. Levantou-se e foi ver a câmera.

Já havia quase dez anos a máquina não se movia. Altiva, de cima do tripé, atenta à janela, mas a uma distância segura para que não se afetasse por ventos ou chuva. Quase dez anos antes, Peter havia pensado em tudo. Nada no mundo poderia perturbar a calma do equipamento. Não havia terremoto, maremoto, vulcão ou furacão. De início, sabia exatamente aonde queria chegar: um ano. Mas era um objetivo demasiadamente fácil e estava cansado de objetivos fáceis. Estava cercado deles havia muito.

- Dois anos? Dez? Talvez consiga por cinqüenta anos?

Não soube se responder. Decidiu que, no momento adequado, reconheceria a hora de encerrar aquela etapa da sua Experiência. Mas ainda era muito cedo, apesar do recente adeus à juventude e Peter sabia disso.

Irina talvez não. Ninguém sabe o que se passa por dentro de uma mulher. Um mecanismo cuja lógica escapa a Aristóteles e não temos competência para opinar. Irina tropeçou, talvez. Peter havia acabado de sentar-se.

A câmera, que já há quase dez anos disparava contra o mesmo pedaço de janela, moveu-se. Estalou e caiu. Irina olhou para os próprios sapatos. Não sabia se com reprovação ou ternura. Peter ouviu o barulho e, imediatamente, soube o que estava acontecendo. Ao longo da vida, aprendeu a se assustar com todos os barulhos que vinham da cozinha, porque associava todos eles à queda da máquina fotográfica. O susto, no entanto, era apenas um exercício para manter a importância da Experiência. A cada pseudo-susto ele sabia, camadas abaixo do consciente, que sua câmera não havia caído e continuava disparando contra o lugar certo, conforme a fita crepe demarcava no chão.

A Experiência Fotográfica, era como ele a chamava. Gostava do efeito sonoro quando ouvia os outros repetindo: A Experiência Fotográfica de Osvaldo Peter. Mais do que o movimento do sol, a distribuição das chuvas ao longo dos meses, o crescimento das plantas, Peter seria capaz de enxergar, através de uma ótica inversa, um retrato de sua vida enquanto o planeta rodava de tal maneira.

Não naquele momento. Aquele barulho era exatamente o que imaginava que sua câmera faria quando caísse. Por isso, quando entrou na cozinha, perdeu a fala. Havia se preparado para momentos que nunca chegariam. Havia se preparado para se preparar para momentos que nunca chegariam.

Olhou para Irina. Ela olhava para os sapatos e Peter não entendeu se com reprovação ou ternura. Então os planos mudaram. Cancelou-se as crianças, a assistência humanitária, quatro qualidades de queijo na geladeira, o sofá verde-bandeira de camurça e as gravatas de seda. Irina ainda não estava naquela época da vida. Na época em que estava Peter, não se tropeça - diante daquele pedaço de janela.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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