life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

O Manifesto

Há outros atravessamentos, mas me detive no que não pode calar agora. Esse é um momento propício. Quem se sentir à vontade, critique, compartilhe, me corrija... Quem sabe assim não vamos para as ruas mais sintonizados? Quem sabe assim, além de ir para as ruas, não cheguemos a algum lugar?


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Esse texto reúne impressões sobre os dias passados e os que virão. São impressões pessoais, mas não são certezas. Ao contrário, é um texto em construção. A contribuição de qualquer um - ainda que contrária - é muito bem-vinda.

Breve Histórico Mas breve mesmo. O último aumento das passagens deu início a uma série de manifestações populares. Em São Paulo, capitaneadas pelo MPL (Movimento Passe Livre), que luta já há muitos anos pela tarifa zero. Em outras cidades, capitaneadas por ninguém. Movimentos espontâneos, oriundos da internet. A maior parte dos manifestantes, nesse primeiro momento, era composta por jovens de alguma forma ligados às questões sociais. Não sou eu quem está dizendo. As manifestações, pelo menos aqui no Rio, foram articuladas presencialmente em plenárias organizadas também pelos centros acadêmicos das universidades. O IFCS - Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ - se colocou no centro da coisa tanto no plano das idéias quanto no plano físico, servindo de local para as plenárias e para as concentrações dos movimentos antes de ganharem as ruas.

Recepção Nesse primeiro momento, éramos poucos. A maior parte da população condenou os protestos. Fomos taxados de baderneiros, vândalos, mimados, rebeldes sem causa. Tudo bem. Embora estivéssemos lutando por todo o povo, não receber o apoio de todos faz parte, dentro do contexto de uma democracia. A imprensa, nesse momento, também repudiou a causa. Condenou os atos e cobrou energia por parte do Estado, que deveria ser demonstrada através da repressão policial.

Reviravolta A grande virada, na minha concepção, se deu quando essa imprensa, que tanto incentivou a truculência policial, levou um pouquinho de truculência policial na cabeça também. Durante o protesto, especialmente em São Paulo, muitos repórteres se feriram por conta do despreparo do Estado para lidar com as crises. O que se viu, no dia seguinte, foram manchetes de apoio ao protesto e repúdio à ação policial. Com a imprensa de massa apoiando, além da mobilização através do Facebook e do Twitter, conseguimos um grande, um enorme, contingente de pessoas nas manifestações.

17 de Junho Esse foi o dia. Em algum momento, queria elaborar um texto apenas sobre as coisas que aconteceram nesse dia histórico, mas ainda não é a hora. Em várias cidades, milhões de pessoas - sim, não se deixem enganar, éramos milhões e não milhares - ganharam as ruas. Os governantes sentiram-se realmente pressionados. O protesto não era apenas dos jovens, era do povo brasileiro como um todo. Apesar de alguns episódios violentos, muita gente estava lá em clima de indignação, mas sem disposição para o quebra-quebra. A imprensa, que vinha sendo rechaçada e, portanto, também temia, passou a nos incentivar. Aliás, vários governantes oportunistas também fizeram isso. Perdi a conta de quantos sujeitos de paletó não foram para a tv dizer com o português empolado: "as manifestações são legítimas, bereré bereré". Ora, é claro que são legítimas. Há milhões de pessoas protestando, quem é o idiota que vai ilegitimar essa multidão? O povo não precisa da legitimidade corrupta dessa gente podre que nos governa. Fomos dormir assim, meio esperançosos.

As tarifas Baixaram. As cidades, uma de cada vez, foram cedendo.

No entanto Enquanto dormíamos e sonhávamos com alguma igualdade para o futuro, aqueles que realmente se incomodavam com o protesto descobriam uma maneira muito eficiente de se livrar dele. Aqui, vou fazer um parêntese um pouco (mais) chato. Estejam livres para pulá-lo - bem como a qualquer outro.

Parênteses um pouco chato O capital é perverso por natureza. (Se há natureza no capital). Quando se depara com ameaças verdadeiramente perigosas para si, não perde tempo tentando combatê-las. Quem faz isso é a PM. O capital, maquiavelicamente, se apropria delas. Um exemplo: sem discutir méritos, o Che Guevara, em algum momento, representou uma ameaça ao capital. Não o homem, mas o símbolo. E o que o capital fez? Proibiu o símbolo? Não, estampou a cara do sujeito em milhões de camisetas e as comercializa por R$ 29,90 no Visa e no Master. O símbolo tornou-se rídiculo. Existe até bandeira do Flamengo com a cara do Che Guevara. Coisa absolutamente patética e, acima de tudo, inofensiva.

Fim do parêntese um pouco chato O capital se apropriou das manifestações. Perceberam que a maneira eficiente para se livrar delas era o esvaziamento de sentido, o esgotamento. A imprensa, então, passou a vender a idéia de que a população está indignada e com razões! Mas que perde a razão quando parte para o uso da violência. Que deve-se protestar em paz! Camisas brancas e tinta no rosto, cantando o hino pacificamente! Inofensivamente! Os governantes permanecem nos púlpitos: "a manifestação é legítima", e o povo fica lá, apatetado, gritando que é brasileiro com muito orgulho, sem tocar em nada, enquanto nada muda. Descontentes e vazios, vítimas de um sistema, protestando contra a corrupção - coisa que ninguém é a favor - e pela paz, outra obviedade. Assim é fácil arrastar multidões, mas mantê-las pacíficas e ordeiras, tão inúteis quanto os desenhos do Che na bandeira do Mengo.

O Vandalismo O maior patrimônio de um país é o povo. Por esse patrimônio, há muito, o governo não zela, se é que um dia zelou. Claro que repudio qualquer ação que coloque em risco a vida humana, seja ela qual for. Atentar contra a vida do governante está errado. Contra a vida do PM também é errado. Até contra a vida do Feliciano. Seja lá que existência for, deve ser preservada acima de tudo. Saquear lojas é errado também, bem como atear fogo no carro do operador de áudio e quebrar as ruas da cidade. Mas a coisa pára por aí! Vandalismo mesmo é o que fizeram com a educação pública, com a saúde e com a moradia. Vandalismo é o que você vê quando entra em um hopital público. Sério! Você que está achando absurda a "depredação do nosso patrimônio" já precisou dos serviços de um hospital público? Você sabe como é acordar às três da manhã para estar às oito no centro da cidade? Já entrou no banheiro de uma escola do estado? Isso sim é vandalismo. Tomar a ALERJ não. O congresso, o Itamaraty, símbolos políticos, não. Isso são atos políticos e necessários. Reintegram ao povo o lugar que lhes é de direito. Esse discurso de que esses lugares são "a casa do povo" é um papo mentiroso! O Congresso, a Câmara, as Prefeituras, as Assembléias Legislativas, são casas dos inimigos do povo! De gente que governa contra o povo, porque investir em estádio, quando não se tem hospital, Ronaldo, é investir contra o povo. Claro que a melhor maneira de demonstrar insatisfação em relação aos deputados não é tacando fogo na ALERJ, é não reelegendo ninguém nas próximas eleições. No entanto, o resultado das urnas é diretamente influenciado pelo sucateamento do sistema educacional público, promovido por esses mesmos congressistas. Então a manifestação off-babaquice (entenda-se: sem os narizes de palhaço, sem o discurso vazio da paz e da anti-corrupção) também é legítima e muito importante. Ou na Turquia, no Irã, na França e ao redor do mundo o que se viu foi o povo cantando perfilado, comemorando como se tivesse ganhado Copa do Mundo? Isso é o que o governo gostaria.

A PM Não é o inimigo. O Estado é a instituição que detém a violência, a violência legítima. Só o Estado tem o direito legal de ser violento. E a PM é o instrumento através do qual isso se manifesta. Mas a PM também é o PM: o soldado mal-remunerado, mal-preparado, mal-instruído, que assume seu papel em uma engrenagem. Ele é vítima, tanto quanto eu ou você. Talvez ainda mais, porque não se dá conta disso. Não se iludam: quando há enfrentamento entre o povo e a PM, o enfrentamento é entre o povo e o povo! E isso é muito triste. Antes dos protestos, os grupos articuladores distribuem panfletos nas concentrações, orientando os manifestantes sobre a maneira de agir. Coisas como andar sempre em grupo e recolher do chão os projéteis atirados contra si, porque podem ser judicialmente úteis. Sugiro que os manifestantes distribuam panfletos semelhantes aos policiais também concentrados antes desses mesmos eventos. Panfletos que os informem a respeito da gravidade do que estão prestes a fazer contra si próprios quando abrem fogo contra o povo. É lógico que não vai ser efetivo no sentido de acabar com os enfrentamentos. Mas um policial que se conscientize - e ao longo das manifestações houve vários! - é um a mais que estará gritando em nosso favor.

Apartidarismo Voto no PSOL desde a sua fundação. Então, é claro que eu adoraria que o PSOL estivesse à frente disso tudo - não está. Nem o PSTU, nem o PT, nem o PSDB - pffffff! - nem partido algum. Nada disso justifica que dezesseis manifestantes estejam hospitalizados porque levaram para as ruas as bandeiras que defendem, sejam elas quais forem. Isso não quer dizer que apoio o partidarismo como hoje ele se coloca. Mas propôr um apartidarismo, além de impossível, é insensato. Vocês lembram daquele tempo em que não havia liberdade partidária, não lembram? Pois é. Nenhum partido nos representa porque eles estão estruturados de forma nojenta. Que tal substituir o apartidarismo, enquanto bandeira, por uma reforma política? Se os partidos não nos representam - e ok, não nos representam -, mudemos a maneira como os partidos são pensados, os votos proporcionais, o financiamento das campanhas, as alianças permitidas em nome de tempo de tv... E por aí vai. É claro que, se há milhões de pessoas nas ruas, jamais conseguiremos um consenso de idéias. Surgirão muitas vozes e um movimento que se pressupõe sem dono tem de aceitar todas. Mesmo os gritos mais absurdos aos nossos ouvidos. O nome disso é democracia. É um saco, mas é democracia, oras. O tempo - e a ação polícial estúpida - vai se encarregar de tirar das ruas aqueles que, de fato, não têm uma causa para protestar.

O Futuro Aconteceu hoje, dentro de um ônibus da linha 457 em que eu estava. Um senhor de idade, visivelmente bêbado, usando muletas, entrou no ônibus e começou a procurar o dinheiro para a passagem ainda de pé, antes da roleta. O ônibus começou a se movimentar e ele quase caiu. A cobradora, então, perguntou: - Dinheiro ou cartão? - Dinheiro. Ele disse. Ela o deixou passar da roleta para sentar-se e procurar a grana. Foi o que ele fez pelos dez minutos seguintes. Então, fechou a bolsinha, levantou-se e desceu na cara dura, sem pagar. A cobradora, então, começou a reclamar da vida, porque foi fazer uma gentileza e levou um calote. Eram quase trinta pessoas no ônibus e, se cada uma contribuísse com dez centavos, pagaríamos o prejuízo da moça. Mas antes mesmo que eu pudesse propôr isso, duas pessoas se apresentaram para dividir o prejuízo com ela - menos de um real para cada uma. Posso estar sendo muito romântico, mas associo esse tipo de comportamento aos protestos que vêm acontecendo. Esse tipo de comportamento não vai mudar por conta de uma imprensa vendida ou de balas de borracha. Esse tipo de comportamento é o que tiramos de melhor dessas manifestações, seja lá que rumo elas tomem. Não deixemos isso se perder. Hoje a FIFA fala em suspensão da Copa das Confederações e alteração do local da Copa do Mundo e isso é uma coisa realmente muito grande do ponto de vista histórico, especialmente se levarmos em conta nosso desinteresse político recente. Isso não pode se perder.

E agora? E agora conseguimos voz. É importante falar. As passagens, ao menos no Rio, abaixaram de preço, mas o caso ainda não está resolvido. O prefeito quer tirar a grana da saúde para financiar isso. Um bom motivador de protestos é isso: reduzir o lucro das empresas de ônibus, em vez de achincalhar a saúde do povo. Outro motivo fortíssimo é o tal do apartidarismo. Não, não lutemos pelo apartidarismo, lutemos por uma reforma política que contemple uma reforma partidária, para que, em um futuro não muito distante, os partidos nos representem. Não é para isso que estão lá?

Há outros atravessamentos, mas me detive no que não pode calar agora. Esse é um momento propício. Quem se sentir à vontade, critique, compartilhe, me corrija... Quem sabe assim não vamos para as ruas mais sintonizados? Quem sabe assim, além de ir para as ruas, não cheguemos a algum lugar?


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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