life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Úrsula

A idéia surgiu meio que por acaso. Era a primeira vez que faxinava e arrumava a casa desde que Fernanda me deixou. Joguei toneladas de lembranças com a validade vencida no lixo e tinha em uma das mãos o saco com esses restos de amor. Na outra, a câmera. Compramos juntos, com poucos meses de casados.


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Não sei ao certo como a coisa acontece. Sei que tem acontecido, tem o quê? Vinte anos? Eu deveria ter numerado e datado as fitas. Lembro que passei as primeiras semanas, talvez meses, colecionando fracassos e respostas negativas, não importava que abordagem escolhesse. Talvez tanta ansiedade estivesse atrapalhando. Era muito chato voltar para casa - sozinho - e desativar a instalação no armário. Confesso que pensei em desistir. Na verdade, foi quase. Por algumas semanas, sim, foram semanas, saí de casa pensando:

- Se não for hoje, não será nunca mais. Vou desistir.

A idéia surgiu meio que por acaso. Era a primeira vez que faxinava e arrumava a casa desde que Fernanda me deixou. Joguei toneladas de lembranças com a validade vencida no lixo e tinha em uma das mãos o saco com esses restos de amor. Na outra, a câmera. Compramos juntos, com poucos meses de casados.

- Para filmar os pimpolhos.

Dizíamos. Faltavam crianças para preencher nossas vidas. Os filhos, que nunca tivemos, seriam o ápice. Eles representavam a certeza de que já havíamos trabalhado o suficiente para nós mesmos. Tínhamos empregos seguros, compramos casa, carro e chocolates. Não havia mais para onde progredir, então era hora de colocar outros cidadãos no mundo, para que pudéssemos gastar com eles os proventos dos nossos sólidos vínculos empregatícios.

Então, Fernanda me deixou. Não sei até hoje porque decidi não jogar a câmera fora. Em vez disso, ela foi para uma das prateleiras do armário que nos envolvia a cama. Um conjunto madeirado vagabundo e horroroso que adquirimos em dez parcelas. Até onde nos amamos? Sexta, sétima parcela? A porta do módulo que fica de quina nunca fechou direito, desde a primeira.

Dia desses, pós-parcelas, pós-Fernanda, pós-tudo, ruminava a depressão, deitado à esquerda, como se a presença espectral da minha ex-mulher ainda ocupasse o outro lado do lençol. Reparei que da cama via-se a câmera. O oposto, logicamente, deveria ser verdadeiro.

Então, houve Cássia. Ou Joana. Ou Rita. Ou Jurema. Sei lá. Uma mulher algo embriagada que gostou da minha conversinha mole. Ou queria vingar-se do marido, ou estava entediada. Não me importa. Já não amava as mulheres. Esperava delas o mesmo prazer que uma colher de brigadeiro ou um filme inédito me traz. Brinquedos.

Peguei Cássia Joana Rita Jurema pelas mãos e disse:

- Porque não vamos para um lugar mais tranquilo?

Estava gelada. Respondeu com um sorriso frouxo que lhe escorreu dos lábios. Conduzi a dama até o carro. Olhava para suas unhas não pintadas fixamente. Queria decorar aqueles dedos. A tinta que não os recobria me proporcionava a doce certeza de que Cássia Joana Rita Jurema era um ser humano real. Tinha um número de identidade, pagava impostos, enfrentava fila no DETRAN, precisava ligar para a operadora de tv à cabo quando o sinal saía do ar. Isso era o que me atraia nela e em todas as outras. Aquelas mulheres que se entregavam despudorada e repetidamente na tela da minha televisão, acima de tudo, existiam. Eram professoras que dariam aula no dia seguinte, empresárias de terninho, desempregadas, contadoras, advogadas, psicólogas atrasadas para a próxima consulta, com o cigarro em uma das mãos e ajeitando a calcinha com a outra. Gente que passa por nós pela rua e almoça do nosso lado no quilo.

Então houve Úrsula. Já bem depois de Cássia Joana Rita Jurema, porque eu estava bastante experiente. Dominava as posições que mais favoreciam a geração das imagens que me preencheriam as retinas ao longo da semana. Úrsula segurava-se forte com as duas mãos nos meus peitos enquanto se mexia freneticamente por cima de mim. Segurei seu pescoço com a mão direita. Sem cessar os movimentos ela olhou para a esquerda e fitou o vão da porta mal fechada. Muitas já haviam feito isso. Como se estivessem olhando para a câmera, sem saber que havia ali uma câmera. Momentos interessantes. De repente, Úrsula pulou, desvencilhando-se de mim. Era magra e alta, ficava mais alta ainda por cima do salto. Suas pulseiras faziam barulho quando se mexia. Mal ouvia-se sua voz:

- Que porra é essa!?

Abriu a porta do armário com violência. Não parecia tão sóbria vinte e cinco minutos antes.

Houve muitas. As gavetas do armário estão repletas de fitas com nomes de mulher (e com seriados e apresentações do Clapton). Já as organizei de todas as maneiras possíveis - é o que faço quando assisti-las me enfadonha. Às vezes escolho pelo nome, às vezes escolho aleatoriamente. Às vezes vou propositalmente à gaveta das morenas ou à fileira das asiáticas, que fica na última gaveta: a gaveta das favoritas. Já encontrei com mais de uma na rua. Via de regra, finjo que não conheço e elas não se esforçam para se fazer reconhecer. Não posso me arriscar a arrumar uma namorada, porque ela descobriria minha coleção secreta. Certamente, me obrigaria a dar fim às minhas meninas. Às vezes me pego conjecturando se alguma daquelas mulheres, criaturas reais, já está morta.

Claro, alguma além de Úrsula.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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