life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Sem Graça

- Ela não colocou uma calcinha bege. E isso é mau, Plínio.


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Plínio e Graça são casados há mais tempo do que deveriam. Por isso, julgam atravessar uma crise matrimonial. Mas isso agora. Primeiro, Plínio foi ficando triste, como se nada no mundo o distraísse e as horas esquecessem de passar. Como se tudo tivesse perdido a cor e a razão de ser.

- O que é que você tem, Plínio?

A cada negativa, ele morria um pouco e um pouco mais baixinho. Quase alcançou o silêncio. Até a noite em que, naqueles minutos em que conversavam inteiramente a sós instantes antes de dormir, o elefante sobre seu peito decidiu se levantar.

- É esse casamento. A gente já não se ama.

- Eu te amo.

- Não fala besteira. A gente se amava há vinte anos.

- Mas eu queria te amar.

Graça não tinha mais os olhos em chamas, como na noite em que se conheceram sob a marquise do Roxy. Mas a isso talvez atribua-se mais o avanço na idade do que o retrógrado estado civil. Como se a separação fosse uma patologia, foram à terapia em busca de cura. Com muitas reticências, naturalmente. Convictos de que aquele era um último esforço, sem saber se torciam pelo êxito ou pela derrocada.

- Pode até não resolver, mas piorar é impossível.

Ao contrário do que Plínio pensava, não se saiu indiferente à experiência. Após as duas primeiras consultas, teve certeza de que o doutor - por assim dizer - tentava salvar o casamento seduzindo Graça, que se deixava seduzir, instaurando-lhe ciúmes. De fato, sentiu-se assim. Mas já não tinha o ímpeto de competir pelo amor de Graça. Não competiria pela casa de praia, pelo apartamento, pelo carro, ou por qualquer coisa. Naquele momento, não tinha mais fôlego para competir por um copo d'água. Pôs-se ainda mais meditabundo quando se deu conta de que desperdiçava uma boa grana por semana levando a mulher para ser seduzida por outro - um profissional. Quando contou ao Manduca, quase infartou o amigo, que se pôs a imaginar o quanto aquela soma não lhe proporcionaria em uma casa de prazeres à venda. Confortava, no entanto, a certeza de que ao menos não foi traído, já que todos os encontros da mulher com o acadêmico foram em sua presença.

O doutor era calmo, acima de tudo. Não importa o que acontecesse, mantinha estampada no rosto a expressão serena de quem já viu coisa muito pior. Plínio sabia que se empertigasse o dedo nos óculos do sujeito para lhe cuspir verdades dolorosas, ele iria franzir o cenho antes de responder uma cretinice.

- E desde quando as coisas são assim na sua cabeça?

Ou:

- Deve ter sido difícil conviver com isso o tempo todo. Como você se sente?

Então, acabrunhava-se exponencialmente. Já Graça, em justiça ao vocativo, não economizava mais nos perfumes e voltou a cantar enquanto lavava a louça. Foi quando o recém-adquirido rival pareceu, enfim, notá-lo. Ali, ao lado daquela moça de brincos compridos, que vinha para a consulta. Depois de muitas preposições e referências, concluiu:

- Você, Plínio, está assim porque não se sente mais capaz de trair.

Sujeito de idéias avançadas. Prosseguiu com as gentilezas.

- Sente-se um imprestável. Um inútil que já conquistou o último troféu, a última caça. Aposentou-se. Um inválido. E isso é mau, Plínio.

Abominava, especialmente, quando o doutor concluia assim.

- E isso é mau, Fulano.

Fosse fulano quem fosse. Se queria praticar o bem, pensava, teria procurado aconselhamento na igreja. Mas antes que a náusea pudesse formar-se no seu estômago, o homem despejou-lhe ainda mais saber.

- Por isso eu tenho uma proposta. Uma proposta para vocês dois. Na semana que vem, só quem vai vir se consultar é a Graça. E durante o horário da consulta, Plínio, você precisa se considerar um homem solteiro. E Graça, eu preciso que você liberte o Plínio por essa uma hora. Em meio a eternidade do resto dos seus dias, ele vai ter essa uma hora de liberdade. Dependendo do que ele faça, saberemos dos rumos mais adequados para esse casamento.

Ela torceu o nariz, mas já não conseguia dizer não ao distinto senhor de cabelo prateado. Dali uma semana, Plínio abotoava a camisa, depois do almoço, de frente para o espelho. Discretamente atento ao fundo do quarto, onde Graça vestia-se.

- Ela não colocou uma calcinha bege. E isso é mau, Plínio.

Sorriu para si próprio diante do espelho. A frase planando entre a boca e seu reflexo. Enfiou trezentos reais bem fundo no bolso da calça. Lembrou-se do Manduca.

- Dessa vez serão bem gastos.

Naquela noite, não conversaram antes de dormir. O café só voltou a ter o mesmo gosto dali uma semana, quando os três se reencontraram nas poltronas verdes do sufocante consultório.

- E então, Plínio, como foi?

- Você tinha razão. Eu não sabia que ainda era capaz de trair.

- E então, Graça, como foi?

A pergunta a surpreendeu ajeitando os peitos dentro do vestido jovial. Já fazia algum tempo que não o vestia.

- Eu sempre tive certeza.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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