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Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Mônaco 82

A Ferrari jamais verá a luz da vitória do outro lado do túnel. Nem os franceses na arquibancada, cujos olhos já esperavam ver o pontinho vermelho saindo pelo outro lado. Quem vem atrás? Não vem ninguém?


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Alan Prost na liderança, faltam duas voltas para o fim. Aquele clima de já ganhou, de corrida decidida, de vamos colocar a mesa para o almoço de domingo. Até que umas gotinhas começam a descer dos céus chiques do principado. Prost bate. De frente, um estrago do cacete, e está fora da corrida. Larguem as travessas! Parem de passar na frente da tv!

O segundo colocado é Ricardo Patrese. Italiano cagão, puta merda! Não perde mais. Uma volta e meia para o fim. Ano de estréia dele na Brabham e já vai vencer em Mônaco! A equipe está eufórica. Os mecânicos correm para a pista. Patrese bate. Mas o que? Como assim? Que é isso? É a chuva. Que boca do Galvão, hein! Mas estamos em 1982! Século XX! Tudo aquilo de mais moderno que o ser humano já inventou está nesses carros. Como podem ser tão suscetíveis à chuva? Foda-se.

Quem lidera agora, quem diria, é o Pironi. Fala-se "Pirroní". Ele é francês como o Prost, e como os fiscais de prova, que vibram descaradamente à beira do guard rail sinalizando a volta final. A arquibancada também é francesa. Homens estranhos se abraçam debaixo d'água. Molhados de suor e chuva, se beijam em uma viadagem bastante européia. Pironi, de dentro do veículo, sinaliza para o diretor de prova que a corrida precisa ser interrompida - é muita chuva. Retardatários atrapalham. As janelas de Mônaco presenciam paradoxos em carreata. Os carros mais velozes do mundo, em fila indiana, formam uma massa compacta de metal que avança lentamente. Movidos pela gasolina, freados pelo medo da morte - que espreita à cada curva. Mas pára de falar em morte. Aí vem ele, Didier Pirroni! a Ferrari vem para a vitória! Entra no túnel! Devagarzinho pra não errar, devagarzinho pra não bater. Devagarzinho! Devagar! Devagar demais! O que está acontecendo? Ele está parando! Ele está parando! Parou. Acabou a gasolina!

Cacete! Quem vem atrás? Letrinhas em japonês na tela. A Ferrari jamais verá a luz da vitória do outro lado do túnel. Nem os franceses na arquibancada, cujos olhos já esperavam ver o pontinho vermelho saindo pelo outro lado. Quem vem atrás? Não vem ninguém? Ah, lá vem o De Cesaris! É o líder, na última volta. Ele nem sabe. Entra no túnel, desvia da Ferrari. É o novo líder! Vem para ganhar. Mas parou também! ELE PAROU TAMBÉM! É palhaçada? Como é que também ficou sem gasolina? Peraí, o almoço pode esperar. Quem que é líder agora, Jesus?

Derek Daly, há alguns metros da linha de chegada. Isso se não parar, não é? Não, parar não. Ele bateu mesmo. Os deuses do automobilismo estão surtados nesse domingo. Todos de pé. Ninguém mais sabe quem é o líder. O diretor de prova, com a bandeira quadriculada na mão, não sabe que carro esperar depois da rascasse. Alan Prost está descalço, na beirada da pista, assistindo a tudo meio atônito, como nós.

A Brabham monocromática de Patrese, pela segunda vez, vem para a bandeirada. Os mecânicos nem se deram conta de que a equipe voltou à liderança. O próprio Patrese demorou a perceber. No fim, todos os sobreviventes comemoraram. Italiano cagão, puta merda. Pior que o almoço hoje é macarronada.

Update: atendendo a sugestões, últimos laps dessa corrida


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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