life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Esse Mundo

- O país à beira de uma guerra civil e você, companheira, suspirando por um amor em Brasília?


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Pra entender o lance da Malu com o Célio você precisa entender que, naquele tempo, era normal escrever carta. Você sabe o que é carta, não sabe? A pessoa escreve o que gostaria de dizer, não fosse a distância. Leva esse papel até os Correios e eles entregam pro sujeito. Ainda existe Correios, não existe?

Malu tinha quinze anos e se esmerava na letra, porque uma carta tem significados pra além do que está escrito. Sua geração nunca vai entender isso. Se Freud conversasse com Fliess pelo telefone, como vocês, sequer haveria Psicanálise. Malu fazia desenhos nos cantos das folhas, depois de transcrever um verso fresquinho do Paul McCartney. Não existia Internet. Transcrever versos ainda era uma puta prova de amor - e o mais importante: cultura.

Ela se trancava no banheiro e suspirava por aquela letra tão miúda que mal se podia ler. Beijava o papel em segredo. Não queria parecer uma idiota. Ou pior: uma alienada, como sua prima.

- O país à beira de uma guerra civil e você, companheira, suspirando por um amor em Brasília?

Conseguia ouvir, dentro de sua jovem cabecinha. De Brasília eram quatro ou cinco dias para uma carta chegar. Com sorte. Por isso, tão logo Célio leu:

"She is leaving home after living alone for so many years,

Malu".

Deitou a bic no caderno para escrever sua resposta. Ganhou de aniversário adiantado Uma Temporada no Inferno e não economizava Rimbaud nas respostas. E Malu, coitada, mal percebia. Célio já contava vinte anos. Os dois últimos, na clandestinidade. Largou escola e trabalho. Agora, fazia um bico de motorista na padaria de um amigo do tio. A família esperava que sossegasse. Não teria tanta sorte se os militares pusessem as mãos nele de novo.

Pra entender o lance da Malu com o Célio é preciso entender que, naquele tempo, era tudo muito claro. Ou você estava com a gente, ou não estava. E só de olhar pra você a gente já sabia.

Com a proximidade dos vinte e um anos, as cartas foram adquirindo tons mais pastéis. A palavra saudade repetindo-se com mais freqüência. Malu resolveu ir.

- É corpus christ. Queria passar o feriado com a tia Belinha, em Brasília.

- Sua tia é uma velha. Que vai fazer lá?

- Tomar um sorvete, na lanchonete, andar com a gente, baby, baby....

Malu era assim, doidinha - naquele tempo. Saiu flutuando pela casa e nunca terminou de responder ao seu Orlando. Meteu-se no inseparável casaco verde, de onde só foi sair na década de oitenta. Colocou Elis e Caetano na mala cuidadosamente, de forma que os discos não amassassem, mesmo com o peso dos volumes de Gabo e do Dostô por cima. Preparou sua última missiva antes do embarque.

Pra entender o lance da Malu com o Célio é preciso entender que naquela época as pessoas iam. Basta chegar na rodoviária e comprar uma passagem. Não existia essa punhetação perpétua de 'desliga você'. Por isso, Célio ficou bem mais feliz do que surpreso. Foi buscá-la na rodoviária com a Belina azul da padaria. Até hoje, já passando dos sessenta, Malu sentiria o útero em chamas ao se deparar com ocasionais Belinas azuis - se ainda tivesse útero.

- Eu te trouxe uma carta.

Pulou no pescoço dele, mostrando o envelope. Célio não quis ler na frente dela. Sentiu-se envergonhado. É estranho, um homem com vergonha de ler na frente de uma garotinha, mas extremamente à vontade na sua companhia para fumar maconha nu dentro de uma Belina azul com enormes letras grafadas na lataria: "Panificação Gomes Carneiro".

Pra entender o lance da Malu com o Célio você precisa entender que, naquele tempo, ninguém tinha habilitação, não se usava cinto de segurança, todo mundo dirigia bêbado, e ainda assim o trânsito era mais seguro do que hoje.

Conversaram muito. Apesar do verniz, Célio era um bocado ignorante e bobo - de um jeito divertido. Falaram muito sobre a questão da Alemanha e a derrota do Brasil na Copa do Mundo. Falaram demais, mas feriados acabam. No último dia, foram assistir A Noite Americana no Cine Brasília. A pior sessão de cinema da vida de ambos. Não sabiam se beijavam, choravam ou assistiam. Mas ao menos o filme facilitou a continuidade do processo, na rodoviária.

- Agora sou eu quem vai te visitar.

- Deixa de ser tonto. Sem chance. Nas férias de fim de ano eu volto. Aí a gente foge pro Uruguai e casa.

- Casa e foge pro Uruguai.

Despediram-se com um último beijo. Beijo, naquele tempo, era outra coisa.

Ainda no ônibus, Malu começou a escrever uma carta. Enquanto isso, Célio saía com outras meninas para tentar esquecer. Mas a verdade é que desde A Noite Americana, os dias perderam a cor.

- Cidade de merda.

Disse para Carlinhos. Daí em diante, a crise de saudade só piorou. Especialmente quando Malu parou de responder as cartas.

- O Furacão-Malu.

Segundo Carlinhos. Passaram-se dois meses sem sequer uma letra. Célio experimentou todas as angústias que seu bronco coração socialista conhecia - da preocupação ao desprezo.

Pra entender o lance da Malu com o Célio você precisa entender que, naquele tempo, qualquer filminho do Kurosawa colocava trezentas pessoas às três da tarde na fila, de pé, à porta de um cinema no Méier.

Até que, não mais que de repente, a Belina da Panificação Gomes Carneiro tinha o Lago Paranoá às suas costas e seu nariz apontava para Ipanema. O beck era dividido por três: Célio levava Carlinhos e Soraya para se revezarem na direção. Nas cartas, a tal visita de retribuição nunca foi levada à sério

- Célio não faria isso.

Até que a campainha do apartamento tocou.

Nada.

Soraya tinha uma carta nas mãos, para que não houvesse possibilidade de errar o endereço. Campainha de novo.

- Será que é porque são sete horas da manhã?

Então, seu Orlando abriu a porta e se deparou com uma mulher esbelta, de saia comprida e flores nos longos cabelos amarelos. Soraya não se deixou intimidar pelos bigodes e a cara feia:

- A Malu está?

A porta se fechou. Já estava de costas para descer as escadas, quando ela se abriu novamente.

- Quem é você?

- Você deve ser a Malu. Eu sou a Soraya. O Célio tá aqui embaixo.

Apesar do que diziam as cartas, ela nunca sequer considerou aquela possibilidade. Era ela a maluca da relação.

- Oi?

- Ele disse que vinha te visitar.

- Por que não subiu?

- Tá doidão. Achei melhor você descer.

Malu estava preocupada. Não lembrava em nada a menina das cartas - pelo contrário. Tinha enormes olhos de Maria de Lourdes quando encostou a porta atrás de si:

- Não posso encontrar com ele agora. Ele nem deveria ter vindo. Eu tô indo pra escola.

- O que é que a gente faz?

- Eu não sei. Vão embora. Por favor.

- Tá maluca, garota? A gente dirigiu de Brasília até aqui.

A primeira lágrima desceu. Fitava o chão.

- Como é seu nome?

- Soraya.

Malu tomou a mão de Soraya e a colocou sobre sua barriga, comprimida pela saia de cintura alta. Olhou no mais profundo de seus olhos:

- Por favor, Soraya. Por favor. Vão embora.

Pra entender o lance da Malu com o Célio você precisa entender que, naquele tempo, a lua ainda era novidade.

Soraya entendeu imediatamente.

- Se é isso o que você quer...

Desceu as escadas, definitivamente.

Malu se atrasou para a escola. Não quis correr o risco de encontrar Célio no caminho. Passou aquele dia e os anos seguintes a se perguntar o que Soraya teria dito para ele. Ninguém jamais soube. Célio não dirigia bem quando ficava nervoso. Embora tivessem tomado o caminho de volta naquela mesmíssima manhã, a Belina da Panificação Gomes Carneiro jamais chegou a Brasília. Bem como a criança, dentro daquela criança, jamais conheceu esse mundo.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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