life on marx

Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Amor Cru

Como as baratas, preferia gorduras e açúcares. Mas, também como as baratas, comia absolutamente qualquer outra coisa na ausência de suas predileções.


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1.

As bandeirinhas e bolas de encher anunciavam que naquele expediente muito pouco se trabalharia. Não era um dia qualquer. Maria Claudia retornava do INSS e, para muitos, era a primeira ocasião de vê-la após a cirurgia. Alguns outros, mais pela força dos boatos do que por solidariedade, foram visitá-la ainda no hospital. Mas esses sabiam tanto quanto os demais, já que, ainda no leito, sequer via-se seu braço, completamente coberto pela alvura incômoda do gesso recém-instalado. Por essa época, os comentários se agravaram:

- Comeu a mão dela inteira. Dedinho por dedinho.

Pode se supor, portanto, o alvoroço do departamento naquela tarde. Maria Claudia chegaria depois do almoço, talvez para evitar o constrangimento de comer em público. A coordenadoria permitiu a regalia do horário facilitado naquele primeiro dia e, também para demonstrar o quanto a empresa a apoiava - tudo que menos precisavam em meio à crise financeira era mais um processo -, garantiu que seria uma tarde de aclimatação. Ela apenas seria inteirada a respeito dos procedimentos e do fluxo do trabalho, para que se reintegrasse pouco a pouco, conforme recuperasse a confiança.

Os gritos e palmas a surpreenderam quando entrou na sala. Antes de perceber que tratava-se de uma comemoração pela sua volta, achou que celebravam apenas pelo fato de que ela ainda conseguia abrir uma porta. Mais triste foi o momento seguinte, quando flagrou a todos, um por um, dirigindo o olhar diretamente para seu antebraço direito, e a nova decepção que suas faixas causavam.

Não havia bolo. Ordem do RH. Nem pão a metro nem nada que precisasse ser cortado ou fatiado. Ao dar a instrução, que se espalhou pelas escrivaninhas mais rápida que o ar, Cida ainda completou:

- Em casa de enforcado não se fala em corda.

Apenas coxinha, bolinha de queijo, quibe, brigadeiro, pipoca e latinhas de coca-cola. Cada um contribuiu com o quitute que pôde. A única instrução era:

- Tem que dar pra pegar com uma mão só.

2.

Depois do amor, o amor. Levantou-se e foi para a cozinha como um autômato. O chão frio sob seus pés sequer fazia-se notar. Seu corpo estava concentrado unicamente em produzir as enzimas perfeitamente adequadas para degustar da melhor maneira possível aquele naco de baquete com queijo cheddar e salaminho. Com os sanduíches já preparados, encheu um balde de refrigerante, que estalava conforme chocava-se com o gelo, e voltou para a cama. Maria Claudia pelada compunha o fundo perfeito para aquela bandeja de sanduíches como figura. E isso ela não tolerava.

- Fiz um pra você.

Ele disse. Em seu mundo, essas palavras tinham um significado imenso. Repartir comida seria a maior prova de amor que um ser humano é capaz.

- Obrigada.

Depois de dez minutos.

- Você não vai comer o seu?

- Não estou com fome.

- Se importa se eu o comer?

- Não. Sim.

Diante da mudança brusca, congelou seus braços no ar, que seguravam nas mãos o pão já dentro de sua boca tão imóvel quanto escancarada. Maria Claudia prosseguiu:

- Um dia você vai me amar como ama comida?

Sorriu. Concluiu a mordida, arrematou com um belo gole espumante e semi-congelado. Só então respondeu:

- Boba. Eu já amo.

3.

Tudo ao alcance das mãos tem marcas de copo. Não raro, pratos vazios e embalagens de quitutes disputam o pouco espaço disponível entre os objetos que dormem à cabeceira. A comida lhe é um fetiche tão caro, que até o gato, uma garbosa bola de pêlo branco achatada nos pólos, chama-se Cocada.

Maria Claudia o surpreende, entre uma e outra colherada de Danette - sobremesa do lanche da tarde.

- Assim você não vai ter fome de noite.

Antes de responder, ele precisa dar conta daquela colherada. A pasta de chocolate agoniza por toda a extensão dos seus lábios, que experimentam ao máximo sua textura, friccionando-se um contra o outro, para só então permitir que ela morra no interior da boca.

- Não se preocupe, eu vou.

- Hoje eu quero experimentar uma receita nova.

Seus olhos brilharam. Antes de qualquer coisa, sabia que iria gostar. Tinha pleno conhecimento de que, no fundo, era como uma barata. Como as baratas, preferia gorduras e açúcares. Mas, também como as baratas, comia absolutamente qualquer outra coisa na ausência de suas predileções. Por isso, ignorava quando um espécime mais ousado não alcançava a tempo a escuridão debaixo do armário, quando ele acendia a luz da cozinha, às três da manhã, apenas para saborear uma bola de sorvete direto do pote. Na verdade, o que salvava a vida das baratas com as quais via-se obrigado a conviver nas madrugadas era a cumplicidade que enxergava nelas - vítimas de seus apetites.

- E tem mais. Quero que você me assista cozinhando.

4.

- Me ajuda a cortar as iscas de frango?

- Mas...

- É que eu tô com as mãos sujas de limão.

Cedeu-lhe a faca de cerâmica, prevendo o desastre. De cada duzentos críticos de cinema, um ou dois são capazes de dirigir um filme. Ele não era um deles. Seus movimentos desengonçados faziam com que jamais uma das tiras de frango fosse igual a outra. Maria Claudia o abraçou por trás e, com suas pequeninas mãos habilidosas, guiava os movimentos exagerados das mãozorras repletas de calos, cuja habilidade no uso da faca dependia diretamente também do uso do garfo.

O fio da lâmina flertava perigosamente com a carne quando as postas de frango aproximavam-se do fim.

- Precisamos de ovo. E farinha de rosca.

- Vamos fazer empanados?

- Você vai.

- Porque você tá fazendo tanta questão de me ensinar essa receita?

5.

- Maria Claudia, sei que isso é desagradável, mas preciso que você entenda que essa, e as demais perguntas que vou fazer, são absolutamente necessárias para que possamos articular a melhor maneira de te reintegrar ao trabalho.

- Sim.

- E que também não estamos te apressando para voltar. Você tem toda a liberdade de regressar no seu ritmo.

- Sim.

- E que...

- Pode perguntar.

- Você está conseguindo digitar?

- Só com a esquerda.

- Mas você era destra, não era?

-

- Quer dizer, é destra, não é?

- Acho que sim.

- Você sente dores?

- Não. Mas estou tomando remédios ainda.

- Os médicos te deram alguma previsão de melhora? Disseram quando você tira o gesso?

Silêncio incômodo.

- Não.

6.

Quando ele chegou em casa, estranhou a escuridão.

- Maria Claudia?

O silêncio respondeu. Em meio a ele, um ruído que vinha da cozinha. No corredor, reconheceu o barulho de gás que o fogão faz quando tem uma boca acesa. A luz da chama azulada iluminava o rosto de Maria Claudia, que lhe sorriu enquanto pousava a escumadeira na frigideira profunda. Usava apenas um avental e mais nada.

- O que é isso, meu amor?

Disse, enquanto a envolvia em seus braços, experimentando sua barba na nuca da mulher que amava e, com o jeans da calça, saboreando sua nudez. O prato, o papel toalha sobre o prato e a faca de cerâmica, testemunharam quando a mulher lhe disse, em tom confessional, em meio ao ruído do óleo que começava a ferver:

- Hoje eu quero que você me coma.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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