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Contos, crônicas, contos, contos....

Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio

Seleção Brasileira 2014: uma análise político-esportiva

Porque inimigo? Que é que os chilenos nos fizeram? Produzem um vinho muito melhor que o nosso. Isso é pecado? Vamos vaiá-los por isso?


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Taticamente, o Brasil é tão fraco dentro das quatro linhas quanto fora delas. Felipão montou o time com o Fred isolado lá na frente - que realmente é onde ele sabe jogar - mas não escalou ninguém com neurônios, um meia inteligente, um camisa dez que dedique sua habilidade a fazer a bola chegar açucarada às sisudas chuteiras pretas do centroavante tricolor. E daí nasce a comparação. Transformamos miseráveis em pobres e chamamos isso de riqueza. Isso é Brasil. Como já dizia o poeta, Brasil não é um país para iniciantes...

Sendo assim, não adianta reclamar do Fred. Se a bola não chegar até ele, o homem-gol de bigode e cachinhos não corre até ela - esse não é o seu ofício. E eu posso garantir: a bola não vai chegar até ele. Mas os problemas não param por aí. A besta do treinador, quando está insatisfeito, tira o Fred e coloca o Jô. E aí eu pergunto: se na sua casa até tem caixa-d'água, tem torneira, mas não tem tubulação; adianta trocar a torneira, esperando que vá sair água?

Da torneira para trás, também pouca coisa funciona. A zaga - quando não comete erros primitivos, como no gol do empate chileno na última contenda - até que está bem postada. Mas nossos volantes, os laterais (especialmente eles) e meio-campistas, quando estão com a bola, sequer sabem para onde ir. É um deus-nos-acuda. Uma pelada de luxo, subsidiada por uma certa elite, que vendeu o almoço para estar naquela arquibancada, e que por isso agora inveja os tapetes que são os gramados padrão-Fifa; parecem tão apetitosos!

Quando o escrete canarinho vem a campo, o estádio vem abaixo e o fascistinha que habita em nós se põe de pé para vaiar o hino do inimigo - como aconteceu no último Brasil e Chile. Porque inimigo? Que é que os chilenos nos fizeram? Produzem um vinho muito melhor que o nosso. Isso é pecado? Vamos vaiá-los por isso? Segundo o finado Millôr Fernandes, o patriotismo é o último refúgio do canalha; a não ser no Brasil. Aqui é o primeiro. E os canalhas, de pé, entoam nosso hino. (Também entoam hinos estrangeiros, em outras pátrias. Toda pátria tem seus canalhas). À capela, prosseguimos até o fim da letra, mesmo depois de encerrada a versão instrumental do protocolo Fifa. Assim, deixamos os caras com medo. O problema é que deixamos todos os caras com medo. Inclusive os nossos. A seleção está borrando os uniformes de medo. Quando perfilados no gramado, hino ao fundo e o coro de canalhas, repare bem na carinha do Thiago Silva. Repare na carinha do Oscar. É medo puro. Estão sentindo o peso da responsabilidade de jogar uma Copa em casa. Uma copa tão atravessada de política, de manifestações e de paraplégicos do Caldeirão do Huck visitando o vestiário.

Seguimos assim, uma nação e uma seleção aguerrida, mas nada além disso. Sem qualquer outro mérito. Um time que, até o momento, só conseguiu marcar seus gols através dos lampejos individuais do Neymar, dos pênaltis que o Fred cava, dos gols-contra que fazem nossos adversários - mas que o David Luiz comemora como se fossem dele.

Só que a imprensa não está assistindo aos mesmos jogos que eu. Eles enaltecem a seleção, o menino Neymar, o Fred matador, o garoto Oscar, o guerreiro Thiago Silva, o abominável Paulinho, como se estivéssemos no mesmo nível de Holanda, Alemanha, ou qualquer outra seleção que tenha um esquema tático minimamente organizado. E vão além! Clamam pelo apoio popular, como se no futebol também pudessem manipular a opinião do povo, como fazem na política. Tacham o meu pensamento de "Complexo de Vira-lata", que é uma expressão da moda; uma releitura medonha de Nelson Rodrigues, feita por gente que provavelmente nunca leu Nelson Rodrigues.

Esqueçam os estádios faraônicos, as estradas de acesso tão lindas quanto superfaturadas, os novos terminais nos aeroportos, os feriados e as televisões em promoção. O fato é que, levando em conta exclusivamente o que temos apresentado em termos de futebol - de futebol mesmo, bola rolando - nesse momento da Copa do Mundo somos um elefante em cima de uma árvore. Mas não quero dizer com isso que vamos perder a Copa. Ganhamos em 1994 com um esquema de jogo igualmente bisonho e improvável. Levando em conta as classificações de Costa Rica, Grécia e Argélia, que comprovam que a zebra está solta, levando em conta que o Brasil é o pais das contradições... É até provável que esse nosso futebol-arte abstrata consiga arrumar qualquer coisa.


Eduardo Ferreira Moura

Eduardo Ferreira Moura é carioca. Tipicamente, escreve contos e crônicas, mas tenta não parar por aí. Mais sobre o autor em: http://lifeonmarx.blogspot.com/search/label/bio.
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