lígia boareto

Tipo assim

Lígia Mendes Boareto

Encontrou seu Caminho fazendo Erasmus em Santiago de Compostela, mas acha que o esqueceu lá. Mestre em Linguística. Doutora na arte de procrastinar.

Bartleby e o Operário em Construção

Estamos acostumados a gritar e "ir pra rua", mas, em um mundo cada vez mais explosivo, a resistência passiva pode ser uma saída e tanto. Bartleby, de Herman Melville, e O Operário em Construção, de Vinícius de Moraes, indicam o caminho, ou não...


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O princípio da negatividade e da insubordinação são impulsos presentes em cada um de nós. Algumas pessoas desenvolvem comportamentos totalmente agressivos frente à força da recusa, da tendência à obediência. Outras conservam durante muito tempo - às vezes a vida toda - certa resistência passiva.

Um clássico e plausível exemplo que evidencia essa partícula de resistência e negação é o Operário em Construção, de Vinícius de Moraes. Operário comum, desses pequenos grandes homens, sem aparente poder de transformação ou qualquer particularidade desafiadora sob o antissistema, parte de uma situação de completa alienação:

"Ele subia com as casas

Que lhe brotavam da mão

Mas tudo desconhecia

De sua grande missão"

E vai, ao longo do poema, atentando para a importância que tem:

"Ah, homens de pensamento

Não sabereis nunca o quanto

Aquele humilde operário

Soube naquele momento!"

Após esse processo, outra face é revelada, a da resistência, e ele passa a influenciar todos ao redor:

"E um fato novo se viu

Que a todos admirava:

O que o operário dizia

Outro operário escutava"

Dessa forma, o laborioso cria sua plataforma, seu passaporte para o mundo. É importante observarmos que a primeira etapa do período de transformação é, justamente, um “não”. Tudo começa com a quebra da relutância aos próprios desejos, com o rompimento de velhos paradigmas, com um grande e ruidoso silêncio no coração. E o Operário em Construção torna-se, por fim, o Operário Construído.

"E foi assim que o operário

Do edifício em construção

Que sempre dizia sim

Começou a dizer não

E aprendeu a notar coisas

A que não dava atenção

[...]

E o operário disse: não!

E o operário fez-se forte

Na sua resolução"

Aparentemente sem ligação alguma, há em Bartleby, o escrivão; personagem melancólico “levemente arrumado, lamentavelmente respeitável”, de Herman Melville, a mínima e escandalosa negatividade, também presente em O Operário em Construção. Completando a forma literária marcante e radical da narrativa, Bartleby sonega, em quase sua totalidade, o desempenho verbal e sua fala se resume basicamente em “Acho melhor não” (i would prefer not to).

A repetição exacerbada dessa frase-bomba, aliada à personalidade insólita desse homem de olhar vazio e modos regrados, marca o desenrolar dos acontecimentos e nos coloca diante de uma situação inelutável. A recusa de Bartleby se torna fatal e definitiva, pois “nada irrita mais uma pessoa honesta do que a resistência passiva”. Ao longo do livro, os outros personagens – e acredite, nós, os leitores – são contagiados pela imobilidade desse jovem inerte e se apropriam da célebre frase carregada de literariedade.

O princípio da recusa é evidente no escrivão por não obedecer às ordens. Mas também é encontrado no chefe, por aceitar o comportamento passivo-agressivo do funcionário, e se recusar, subconscientemente, involuntariamente, a tomar atitude alguma diante da situação. E é claro, em nós, por não conseguirmos interromper a leitura.

De acordo com Jorge Luís Borges, “Bartleby define um gênero que por volta de 1919 foi reinventado e aprofundado por Franz Kafka: o das fantasias da conduta e do sentimento”. E Modesto Carone completa, “Melville foi um escritor de primeira e Bartleby é uma de suas mais densas e fascinantes obras-primas”.

Sem dúvida, esse é um daqueles livros que você lê e faz todos ao redor ler também. A perplexidade diante da movimentação estática e epidêmica de Bartleby é, por vezes, inefável. Descrevê-la? Acho melhor não...


Lígia Mendes Boareto

Encontrou seu Caminho fazendo Erasmus em Santiago de Compostela, mas acha que o esqueceu lá. Mestre em Linguística. Doutora na arte de procrastinar..
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