lígia boareto

Tipo assim

Lígia Mendes Boareto

Encontrou seu Caminho fazendo Erasmus em Santiago de Compostela, mas acha que o esqueceu lá. Mestre em Linguística. Doutora na arte de procrastinar.

processar Emília, uma boneca de pano

Porque o Brasil está ficando (cada vez mais) politicamente corret... chato!


Publiquei o texto abaixo em setembro de 2012, na Folha. Mas resolvi colocá-lo aqui no blog depois de saber que o Conar determinou que a propaganda com o Compadre Washington é desrespeitosa, pois contém a palavra "ordinária".

"Esse debate sobre a obra de Monteiro Lobato, mais precisamente sobre o livro "Caçadas de Pedrinho", é extremamente proveitoso e relevante. Estamos falando de um livro em que a figura de estilo predominante é a prosopopeia. O que esses grupos antirracismo querem? Processar a Emília, uma boneca de pano?

Eu acho que é por aí mesmo! Essa atitude fortalece a credibilidade e a autenticidade da causa. Agora, todas essas "entidades das minorias" vão ser mais respeitas e vistas com bons olhos frente à sociedade. Além disso, a discussão abre caminho para que outros prejudicados, humilhados, enfim, para que outras minorias também clamem por justiça.

O Vigilantes do Peso, por exemplo, deve alegar que o Marquês de Rabicó, um porco retratado como gordo, guloso e interesseiro, prejudica a imagem dos gordinhos, ou melhor, daqueles que estão acima do peso. E Lúcia, coitada, que sofre "bullying" por causa do nariz arrebitado, tem de processar o engraçadinho que deu a ela o apelido de Narizinho.

O livro "A hora da Estrela", de Clarice Lispector, deve ser banido das escolas imediatamente, e Rodrigo S.M. deve pedir desculpas formais à Macabéa. Outro exemplar que necessita ser recolhido das bibliotecas é “Macunaíma”, de Mário de Andrade. Esta obra é péssima influência para crianças e adolescentes.

Os grupos de defesa dos animais devem aproveitar a oportunidade e processar Esopo. Onde já seu viu associar a imagem das raposas à traição, ou a imagem das cigarras à preguiça? Que brincadeira de mau gosto!

Hans Christian Andersen precisa ser severamente punido pelo "bullying" contra o "Patinho Feio". Em decorrência da onda do politicamente correto, sugiro que o nome desse conto passe a ser "O Patinho desprovido de beleza exterior". Charles Perrault e os Irmãos Grimm também não podem ficar de fora da lista. Afinal, em "Chapeuzinho Vermelho" há um caso gravíssimo de pedofilia.

Walt Disney, então, nem se fala. Ele é o maior disseminador dessas histórias horrendas. E não satisfeito criou um pato com problemas de fala. Cadê o direto dos gagos, dos fanhos, dos que tem ofonia?

Tem ainda outro escritor brasileiro dando mau exemplo por aí: Maurício de Souza. A Mônica, seu Maurício, não é dentuça. Ela tem dentes proeminentes e fechamento insuficiente dos lábios. Respeita-a!

No fundo, o certo é fazer uma fogueira e queimar todos esses livros! Pena que o segundo livro da "Poética" de Aristóteles, a "Comédia", tenha desaparecido, porque nós poderíamos colocá-lo nessa fogueira inquisitória também. Aliás, o Brasil deveria aproveitar a baderna em que o Egito se encontra, resgatar os livros que sobraram da Biblioteca de Alexandria e incorporá-los à chama santa.

De tempos em tempos, a sociedade precisa de medidas repressivas. Estou muito orgulhosa de o meu país ser o próximo a fazer uma faxina literária. Devemos lembrar que a faxina gramatical já começou. Exemplares de Mattoso Câmara Jr. foram queimados e alguns substantivos uniformes comuns de dois gêneros se tornaram bi... biformes.

Realmente, da orgulho de ser brasileiro!"


Lígia Mendes Boareto

Encontrou seu Caminho fazendo Erasmus em Santiago de Compostela, mas acha que o esqueceu lá. Mestre em Linguística. Doutora na arte de procrastinar..
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