lígia boareto

Tipo assim

Lígia Mendes Boareto

Encontrou seu Caminho fazendo Erasmus em Santiago de Compostela, mas acha que o esqueceu lá. Mestre em Linguística. Doutora na arte de procrastinar.

Facebook também é lugar para literatura

“É preciso entender por que ficar no Facebook é mais interessante do que prestar atenção na aula”.


Em geral, a história é sempre a mesma: alunos que ficam conectados a seus perfis das redes sociais durante a aula, professores que não aprovam esse comportamento, e o conflito está criado. Por acreditar que o cenário não precisa ser de embate, a professora Mariana Redigolo decidiu utilizar o Facebook como instrumento de ensino. Durante uma aula de literatura sobre o livro “Senhora”, de José de Alencar, Mariana sugeriu que os estudantes criassem perfis das personagens na rede social, levando em consideração as características apresentadas no livro.

A ideia prontamente contagiou os 80 alunos do 2º E.M. da Escola Estadual Professor Joaquim Antônio Ladeira, em Louveira, a 75 quilômetros da capital paulista, que criaram perfis de Aurélia e Fernando, protagonistas do romance de Alencar. “Achei muito bacana a ideia de incorporar, na sala de aula, algo que faz parte do nosso dia a dia. Até os alunos que não dão tanta importância para a aula interagiram e participaram desse projeto”, afirma a estudante Jéssica Della Roza.

Mariana já mantinha, desde o ano anterior, um grupo de estudos pelo Facebook, grupo este que, mesmo sem valer nota alguma, era muito acessado pelos discentes. Segundo a professora, o objetivo não era avaliar, e sim envolver o aluno que estivesse ocioso na rede social. “O tempo que os alunos passam no Facebook é muito grande. Uma hora ou outra eles ficarão à toa e, provavelmente, irão acessar o conteúdo de literatura que está lá ‘de bobeira’ no grupo”, observa Mariana.

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A docente ainda completa: “Uma ferramenta que atrai tanto os estudantes merece, no mínimo, um olhar mais demorado por parte dos professores. É preciso entender por que ficar no Facebook é mais interessante do que prestar atenção na aula”.

E a professora não está errada. De acordo com dados relativos ao segundo trimestre de 2014 e divulgados pelo próprio Facebook, 89 milhões de brasileiros – o que corresponde a 8 de cada 10 internautas - acessam o site todos os meses. Desse universo, 59 milhões, dos quais os alunos de Mariana fazem parte, entram diariamente na rede social. Ademais, o tempo de permanência mensal desses usuários, no Facebook, é, em média, de 16,6 horas. Outro dado relevante diz respeito ao aumento de 55% no acesso via dispositivos móveis, que chegou a 68 milhões.

Sobre o uso do celular e do Facebook no ambiente escolar, Jéssica ressalta a possibilidade de fazer, na sala mesmo, pesquisas rápidas, bem como o melhor aproveitamento do tempo da aula. “Se uma parte da matéria é mandada pelo Facebook, o professor não precisa passar grandes textos na lousa e sobra mais tempo para a discussão e resolução dos exercícios”, defende a aluna.

Consoante Soneide da Silva, coordenadora do Ladeira, a direção da escola aprovou o uso dos grupos de estudos no Facebook e decidiu, inclusive, socializar a metodologia para os demais professores. Quando perguntada sobre o uso do celular na sala de aula, a coordenadora cita a lei que proíbe essa prática, mas pondera: “É uma questão de bom senso e de encontrar o uso adequado. Acreditamos que o celular pode servir como um instrumento pedagógico”, declara Soneide.

De fato, o artigo 1º da Lei Estadual nº 12.730/07 proíbe o uso de telefone celular nos estabelecimentos de ensino, durante o horário das aulas. A professora Mariana, entretanto, discorda “O celular e o Facebook são ferramentas incríveis para a educação. Não adianta proibir, tem que educar o aluno para o uso adequado da tecnologia na vida”.

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