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Sobre sons, versos, silêncios e reveses.

Arthur Ribeiro

Espaço dedicado a literatura, música e filosofia. Escrevo aos domingos.

O TESÃO SALVARÁ O MUNDO

"Quero da vida as claras superfícies onde terminam e começam meus amores. Eu te sinto na pele, não no coração. Quero do amor as tenras superfícies onde a vida é lírica porque telúrica, onde sou épico porque ébrio e lúbrico. Quero genitais todas as nossas superfícies."


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Psiquiatra, dramaturgo, poeta, anarquista e, sobretudo, somaterapeuta; um militante do prazer que sonhava com a liberdade. Essas são algumas das múltiplas facetas do paulista Joaquim Roberto Corrêa Freire.

Roberto Freire foi, sem dúvida, uma das mentes mais criativas que já passaram pelas terras tupiniquins, não só pela postura crítica frente ao autoritarismo burguês, mas pela poesia a serviço do amor livre, pela expressão libertária e despreocupada com olhares de arrogantes juízes, por uma produção artística e científica de alto valor.

Com mais de 30 livros publicados, Freire deixou imensas contribuições; a mais famosa delas foi a Somaterapia, onde a partir das pesquisas de W. Reich desenvolveu uma terapia corporal aliada a Capoeira Angola e o pensamento anarquista. Com a Soma, Freire tentava auxiliar na busca pela autonomia dos indivíduos a partir da emancipação nos planos emocionais e sociais, adotando a postura libertária de enfrentamento aos padrões hierarquizados estabelecidos.

O olhar apaixonadamente utópico freiriano fica evidente em livros como "Sem Tesão Não Há Solução", “Coiote” e "Ame e dê Vexame", onde podemos vislumbrar a maneira singular com que o poeta enxergava o mundo.

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“... Tesão sem passado, apenas contemporâneo e vertical, ele é produto semântico e romântico dos que sentem desejo pelo desejo, alegria pela alegria e beleza pela beleza. Mas pode ser ainda tesão de quem sente desejo pela alegria, beleza pelo desejo e alegria pela beleza. Sem tesão não há solução”

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É muito provável que Freire esteja certo. A paixão pela vida, o tesão pelas relações, por exercícios diários nos mais variados campos, o desejo, a pele, é o que vai de encontro a morte. É o que reenergiza depois de um desacerto, é a reconstrução.

Dia 23 de maio de 2014 completaram seis anos da morte física de Freire. Porém, o legado libertário, a ótica romântica e revolucionária passeará por um longo tempo até enveredarem por entre os corações e se encontrarem com a chama da inquietude que reside na alma de cada um.

De Cléo e Daniel ao Eu é um Outro – à la Rimbaud, Freire demonstra uma maravilhosa interpretação do que é e pode ser a vida e nos mostra formas libertárias de nos relacionarmos, de amar de amor, de viver o prazer. Prazer esse que não resulta apenas da relação sexual, mas da forma de se conectar com o outro e com o mundo. É isso que faz de Freire, assim como Rimbaud, um visionário, ambos apaixonados pelas possibilidades. Ambos são outros.

"É o amor, não a vida, o contrário da morte."

Imagens: www.somaterapia.com.br


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