literarquiteturas

percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

Primeiras questões: ferramentas

Na construção do método, três procedimentos analíticos: desde o legado filosófico de Gaston Bachelard, a noção de “topoanálise”; desde os escritos críticos de Júlio Cortázar, a “teoria do túnel”; desde a abordagem de Elizabeth Grosz, a concepção de obra como um “ladrão que rouba idéias”.


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Incerteza e agitação constantes;

todas as relações fixas e congeladas são suprimidas

. Karl Marx, Manifesto comunista

Nas três primeiras crônicas que formam parte deste ensaio introdutório à abordagem que penso dar às literarquiteturas, busquei situar algumas primeiras questões que apontam, respectivamente, para três dos campos imediatos de interesse: a literatura, a arquitetura e as artes visuais. Como para ampliar este pano de fundo de natureza teórica, quero agora trazer para o debate três distintos procedimentos analíticos que, metodologicamente complementares, estarão guiando, de forma mais ou menos visível conforme o caso, as análises futuras, sobre espaços e escritos.

A opção por estas diferentes abordagens tem, evidentemente, um viés de natureza pessoal, como parte das escolhas bem pensadas que se vai fazendo vida a fora. Não se trata, entretanto, de nenhuma forma de fechamento em torno de uma orientação dogmática. Ao contrário, a dinâmica de escrever pede (na verdade, exige) constantes novas aberturas, novas construções. E novas incorporações!

Mas, para se iniciar um novo projeto – projeto que se pretende de largo fôlego −, é preciso certo conforto, certa familiaridade com os interlocutores com os quais se propõe conversar. Gaston Bachelard, o filósofo, e Julio Cortázar, o escritor, freqüentam, desde muito, a sala branca desta casa algures, e intervieram muitas vezes, em momentos cruciais em que era preciso adotar um ou outro caminho para um texto qualquer que se mostrasse arredio às idéias do autor.

Elizabeth Grosz, de outro modo, é a mais “jovem” visitante desta sala. Mas sua abordagem filosófica, transitando entre o pensamento de Platão, Bergson, Deleuze e Derrida… apenas para afirmar a luz própria de suas idéias, é, aqui, no meu modo de ver, uma motivação a outros descaminhos.

Assim, trazido da filosofia de Bachelard, o conceito de topoanálise insinua uma direção a seguir, estabelecendo possibilidades de convergência entre arquitetura, a literatura e as artes visuais, quando aponta o lugar ontológico da casa, nas vivências e nas memórias do sujeito.

E o filósofo o faz com tal precisão conceitual que, se bem interpreto, constrói uma espécie de porto ou portal, onde é possível ancorar ou dar passagem a pontos de vista buscados em outros campos disciplinares, e em outras paisagens epistêmicas.

De outra parte, a teoria do túnel surge em um texto do jovem Cortázar − então dedicado ao ensino da literatura francesa mas debruçado sobre o tema da “novela moderna”− cujas implicações teóricas, alinhavadas como princípio de método, acompanharão o autor até a maturidade de sua trajetória literária.

Finalmente, a concepção de Grosz, de inspiração deleuzeana, quanto à categoria de espaços entre espaços – in-between na expressão original −, funciona, aqui, como uma provocação, ou um alerta, quanto às possibilidades de intercambiar suportes e mídias através das quais a obra de arte comunica suas intenções, tanto quanto à questão da autoria das idéias na fabricação do pensamento.

Individualizados, cada um destes distintos constructos será objeto de uma breve crônica que busca dar-lhes alguma profundidade. Juntas, entretanto, as perspectivas abertas pelos ensinamentos de Bachelard, Cortázar e Grosz, prestam-se, se bem as compreendo, a um mundo de – presentes e futuras − insinuações. E insinuar, em meu modo de ler, é um dos verbos mais provocativos (senão um dos mais "perigosos") da língua portuguesa, porquanto significa:

[Do latim insinuare.] Introduzir, fazer penetrar, no ânimo, no coração; persuadir. 2. Dar a entender de modo sutil ou indireto. 3. Incutir o conhecimento de; pretender provar. 4. Registrar em escritura pública. 5. Introduzir, fazer penetrar, no ânimo, no coração. 6. Introduzir sutilmente ou destramente. 7. Dar a entender de maneira sutil ou indireta. 8. Dar a entender algo de modo sutil ou indireto. 9. Introduzir-se sutilmente, com habilidade ou dissimulação. 10. Penetrar nos interstícios, ou por eles. 11. Captar a amizade ou a benevolência de alguém.

Porque o verbo (isto é, o processo) traz a precisão de fazer penetrar (a imagem, o conceito) no coração, e as implicações dessa definição (para um sujeito apaixonado, por exemplo) poderiam ser reveladoras quanto sua própria condição... Mas, ainda assim, penso que, aos filólogos e dicionaristas lusófonos, faltou agregar que insinuar poderia sugerir simplesmente o processo de fazer sinuoso o caminho, fazendo da passagem, paisagem, e do passageiro, paisano, que é o ser que habita a paisagem. E com isso expulsar, do conceito, a linearidade, pois para ver a paisagem é preciso mover o olhar.

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Ilustrações do autor: vector mondrian combo i e ii, 2012

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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