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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

Primeiras questões: sobre arte, hoje

Pequeno manifesto por uma definição de Arte. Ao mesmo tempo, uma declaração de amor.


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Recordar: Do latim re-cordis, tornar a passar pelo coração. Eduardo Galeano

Se, uns trinta mil anos acumulados de História da Arte, desde as imagens gravadas nas cavernas até os tempos loucos da dromocracia viriliana; se hoje, então, tudo ou quase tudo pode ser Arte, cabe, até mesmo, vez por outra, sonhar-me artista, enquanto imagino que a arte que espero de mim (seja o que for que venha a ganhar o nome próprio de Arte; seja o que for que possa definir essa arte indefinível) se revele como uma forma sensível capaz de tocar alguém – um único sujeito, ou uma multidão − através da experiência estética ou do manifesto ético da condição humana. E, sendo isso ou aquilo, que não seja veloz, ao contrário, mas que possa atuar com o vagar necessário.

Porque, com o vagar pertinente àquele momento, precisamente, aquele beijo de Júlia, que me tocou tão intensamente − e imprecisamente direi que foi “artístico”: talvez, um “beijo de cinema”; certamente, uma “obra prima” da classe dos beijos –, não se haveria de incluir, em princípio, em qualquer das categorias conhecidas das Artes, pois que a intensidade implicada àquele beijo não pode ser compartilhada senão por nós dois, os sujeitos do beijo beijado, assujeitados pelo sentido do beijo.

Ainda assim, arriscar quantificar essa intensidade seria deslocarmo-nos da vida para outro campo, e então, sim, Arte, porque nossos corpos pertencem ao espaço, se movem no tempo, se enxergam entre luzes e sombras, são sensíveis ao tato, e têm sabor, cheiro, vontade, matéria e memória, que são as substâncias necessárias às intuições de qualquer artista, em qualquer percurso que a arte o possa levar.

Se “a arte está em tudo” – e se “tudo pode ser arte”, porque certa intencionalidade conduz a recordação, que conduz, por sua vez, a imaginação −, então essa forma instauradora de sentidos privados, reveladora de memórias queridas, guardadas, às vezes, em caixas de pandora, tornar-se-á o motor para um vir-a-ser de outras formas de arte e vida. Pintar esse beijo é, pois, torná-lo público, como um manifesto que reivindica um lugar no campo da criação artística.

Como na vida, há incontáveis beijos no panorama das artes ao longo da História. Naturalmente, o beijo-objeto de arte está representado através da literatura, da fotografia, do teatro, do cinema, da música, evidentemente, e, também, da pintura – como em obras de Klint, Picasso ou Magritte, entre tantos – ou da escultura, como na obra extraordinária de Rodin. Antinatural seria sua ausência como tema em qualquer modo de arte, abstinência do artista em representá-lo, a possibilidade de sua exclusão como expressão estética.

Mas – eis o que, por agora, me desassossega – pode o beijo, como motivo de arte, deixar de ser “figurativo”? Pode ser apenas linha, ou cor, mancha difusa ou som fora de uma pauta? Pode prescindir das luzes e das sombras que tornam visíveis os volumes dos corpos? Na literatura, pode deixar de ser palavra e se revelar ruído? Pode estar furtivamente presente em uma paisagem que represente apenas o casario de uma aldeia em meio aos campos? Ou, neste caso, uma minúscula janela haverá de trair sua presença propositalmente escondida?

Um beijo pode ser um espaço entre dois, unindo-os, portanto; tanto quanto separando os mesmos dois do resto de tudo mais. Um beijo pode ser uma metáfora poderosa, servindo à vida ou à morte com a mesma liberdade estética.

Se, aqui, a busca intencional é estabelecer um plano “conceitual” para entender o que é, ou não, a Arte hoje, o beijo pode ser um conceito tão razoável e igualmente válido quanto qualquer outra idéia, conquanto possamos defini-lo através de um sistema filosófico apontado à reflexão artística. Ou talvez possa ser compreendido como um nome ou um processo, existindo na linguagem, como um ato de fala, isto é, na forma de um substantivo ou de um verbo, o que o tornará (um beijo puramente abstrato) uma entidade que, contingentemente, terminará por fazer-se pertencer a alguma forma narrativa.

Mas reconhecer, entre a arte possível e a ausência da intencionalidade artística, em um mundo no qual “tudo pode vir-a-ser arte”, reclama, penso, a hermenêutica instauradora a que me referi no princípio deste ensaio.

No tempo largo da História dos homens sobre a terra, reconhecíveis nas marcas geográficas que os pigmentos, os cinzéis, a arquitetura e as cidades dos homens gravaram nos territórios ocupados pelas sociedades, tempo, espaço e sentido deram forma ao pensamento do artista. Intuição, razão e contingência encarregaram-se, então, em diferentes medidas, em distintas circunstâncias, das fundações (incontáveis fundações e refundações, ao longo da História) da Arte. Sobre a Arte, assim como em relação à vida, existirão tantas Histórias quantos forem os contadores de histórias. Portanto, não uma História da Arte, redutivamente oficializada e normalizada através da máxima entropia dos sentidos, mas uma cosmologia irradiante de novas possibilidades de representação de sentidos talvez ainda nem sequer imaginados.

Porque, como disse o artista, a razão entre arte e vida – simultânea e mutuamente, ordem e desordem, e vice-versa − é contingente.

Assim, desde o ponto de vista que procuro explorar, na definição de Arte, no tempo hoje que limita esta reflexão, o que realmente importa aqui é recordar aquele beijo de Júlia, em sua intensidade e vagar, ininterruptamente tornando a passá-lo pelo coração. Não o beijo abstrato que é tema de quadros numa exposição, nem o beijo desconstruído em uma alegoria pós-moderna, nem o beijo-conceito, contido nas instruções de como bocas e línguas se tocam e se enlaçam, mas o beijo feito imagem intensificada e, imagem tão vagarosamente fixada, que é tendencialmente permanente: parte indissociável da vida, representação artística do amor por Júlia na teia (teia mais propriamente minha) das relações causais que revelam, finalmente, os rostos e corpos que habitam esse quadro que vai sendo pintado em uma tela que pode alcançar dimensões infinitas.

leaves 03 some kind of bird.jpg Imagem: folha caída no chão. Algures, Brasil. Digitalização: Júlia Ribes


Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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