Uma mesa no centro da sala de jantar de uma casa simples, construída em madeira, junto a uma rodovia que dá acesso a uma cidade. Sobre essa mesa estão dispostas duas vasilhas − uma pimenteira e um saleiro − que ali permanecem intocáveis ao longo de anos, como resultado de uma aposta feita entre um jovem mecânico chamado Artur, recém casado com Mabel, e que espera, junto a sua jovem esposa, para daqui a poucos meses, o nascimento do primeiro filho; e um viajante cuja aparência, entre camadas de rugas, sugere que percorra as estradas, num caminhão tão velho que parece impossível que possa seguir viagem, por tantos anos que qualquer estimativa seria arriscada.
Esse homem velho apresenta-se como um mercador de intangíveis. E Artur, o jovem mecânico, acaba envolvido num acontecimento que mudará sua vida, quando aceita voluntariosamente a aposta sugerida pelo visitante inesperado que afirma que ele será incapaz de manter por muito tempo as duas vasilhas no mesmo lugar.
O tempo passará, como costuma passar, e pimenteira e saleiro permanecerão como intocados no centro da mesa, indiferentes às mudanças de espaço e tempo ao seu redor. E assim será, se assim vos parecer…
O inglês Brian Aldiss é internacionalmente considerado um dos maiores escritores de ficção científica de todos os tempos, mas penso que sua literatura fantástica é, talvez, pouco conhecida no Brasil. No entanto, para situá-lo, basta lembrar que ele é o autor de Superbrinquedos duram o verão todo, história que deu origem ao filme A.I. Inteligência Artificial, dirigido por Steven Spielberg, e que, por sua vez, tomou forma a partir de um projeto de Stanley Kubrick.
Mas, do pouco que conheço de sua obra (e conheço muito pouco) há uma narrativa curta que é, desde muito, aquela que mais me toca. Intangíveis Inc. é o título de um conto extraordinário que li pela primeira vez entre os doze e treze anos de idade, como parte de uma coletânea intitulada O planeta de Neanderthal, editada pela Cultrix. E, se me atrevo a fazer esta narrativa resumida que não deixa escapar o desfecho da história, é porque, em minha própria vida, e já se passaram mais de três décadas desde esse primeiro contato com esta obra de Aldiss, em minha memória mais viva, como acontece com as vasilhas do conto, a intriga construída pelo autor permanece.
Ao passo dos anos, Artur se tornará o dono da oficina onde antes era um simples empregado e expandirá os negócios, até que uma nova estrada desvie o tráfego e decrete a decadência de sua, até então, próspera empresa.
Com Mabel, verá os filhos crescerem e irem embora. A cidade também crescerá e aquela periferia de beira de estrada se transformará numa área densa, com muitos novos edifícios, enquanto o velho bangalô da família vai se tornando anacrônico ao lugar, e as madeiras apodrecidas precisarão de uma boa demão de tinta, e o jardim outrora bem cuidado estará coberto de mato.
Eventualmente, em intervalos de muitos anos, o velho, em seu caminhão arruinado, faz uma breve visita para verificar se pimenteira e saleiro permanecem no lugar acordado, e logo segue viagem, deixando Artur a contar os dias, aguardando o retorno do singular personagem.
Penso que o que o estranho mascate vendeu para o jovem mecânico era algo que realmente lhe fazia alguma falta. De fato, penso que sua mercadoria talvez seja um produto de primeira linha, e com um mercado gigantesco a ser abastecido. O que explicaria, em parte mas não de todo, o intervalo de anos entre as visitas. Porque, se bem interpreto as intenções do escritor − ou se as superinterpreto, pouco importa –, em seu negócio de mercadorias intangíveis, o que o velho cheio de rugas, de fato, oferece a Artur, são propósitos. O que, consultando o Houaiss, significa dizer que o que ele vende é:
A intenção de (fazer algo); projeto, desígnio, ou; aquilo que se busca alcançar quando se faz alguma coisa; objetivo, finalidade, intuito, ou; aquilo a que alguém se propôs, por que se decidiu; decisão, determinação, resolução.
E mais, sempre acompanhado do Houaiss: ter propósito significa ter razão de ser; fora de propósito implica naquilo que não é adequado ou pertinente ao momento ou à situação; imbuir-se de bons ou maus propósitos sinaliza, naturalmente, a boa ou má intenção do sujeito em relação a determinada coisa. E assim por diante. E, a propósito (perdoem o trocadilho irresistível): a expressão “a propósito” pode ser entendida tanto no sentido de “oportunamente”, quanto de “por falar nisso…”
E então, por falar nisso, quanto ao leitor (seja do conto de Aldiss, ou desta crônica), este deverá levar adiante o propósito da leitura até o final se, no caso do conto, desejar descobrir um desfecho que talvez lhe arranque uma boa gargalhada ou o faça mergulhar em profunda perplexidade.
Diferentemente, no caso da crônica, meu propósito, ao menos quando começo a escrever, é falar dos espaços contidos na trama e, então, surgem, pelo menos, duas escalas obviamente articuladas através do tempo. Assim, os espaços e suas escalas são de dois tipos: os interiores da casa (que contém as vasilhas sobre a mesa da sala de jantar) e os exteriores da casa (o mundo, que contém a cidade e o velho em seu caminhão). A casa de Artur e Mabel encontra-se, portanto, entre as duas escalas, o espaço in-between, recordando a acepção de Grosz, que justapõe as duas dimensões espaciais atravessadas pelo tempo que conduz a narrativa, e desse lugar Artur já não pode se ausentar.
E então, juntando as idéias de Gaston Bachelard e Elizabeth Grosz, a casa é o espaço (“em seus mil alvéolos”) capaz de reter o tempo, e que é destinado às transformações: o espaço para “fazer coisas” que só se tornarão claras ao final, com a conclusão bem urdida por Brian Aldiss.
Ao largo do texto, se bem compreendo, o velho e o tempo confundem-se em uma única entidade metafórica. O tempo – vendedor de intangíveis − conota os sentidos dados às vasilhas sobre a mesa enquanto a vida se constrói − e passa − através dos acontecimentos vividos, dentro da casa, em torno da mesa, enquanto lá fora a cidade se transforma, de pequena a grande cidade (periferia que o tempo desloca para o centro), com a pontuação das visitas do velho que, se são sempre esperadas, acontecem quando menos se espera. E, entre as aparições do mercador, a pimenteira e o saleiro no centro da mesa representam esse propósito singular em torno do qual a vida de Artur e sua família seguirão uma deriva que, determinada pelos limites contados pela história, os faz retornar inevitavelmente a esse centro.
Mas, penso, a analogia que faço não deve ser interpretada através do olhar de um observador que se dedica a mirar o par de vasilhas sobre a mesa. Não se trata de compreender o que fica intocado (e assim é, se assim parece ao leitor), mas, ao contrário, de examinar o que se move em torno das vasilhas, e que têm, de uma ou outra forma, pimenteira e saleiro como centro de gravitação.
Desde uma aproximação à epistemologia genética, sempre recordo o conto de Brian Aldiss em uma perspectiva piagetiana: a implicação dessas vasilhas, que em outro contexto seriam elementos neutros em um cenário onde se desenrola outra qualquer ação, como potente metáfora à dialética construtivista.
As vasilhas, neste sentido, surgem como uma forma de perturbação que inicia uma cadeia majorante de equilibrações que se sucedem, exigindo, por sua vez, novos processos de assimilação e novas (re) equilibrações entre o que acontece dentro e fora desse sujeito que, impensadamente, aceitou a aposta do viajante intemporal. Mas, ainda assim, algo parece estar fora do lugar: para que Artur se mova, é preciso que não se mexa com a pimenteira e o saleiro. Ou, pelo menos, que algum hipotético movimento não possa ser observado.
O domínio das interações, considerando este ponto de vista, não se circunscreve ao que certo observador (Artur, no caso presente, atento ao seu próprio mundo; ou o leitor, preso ao desenrolar da narrativa) possa assinalar. Artur age sobre as vasilhas sem tocá-las, sem que elas, necessariamente, se movam, por exemplo, aos olhos de Mabel e das crianças. As vasilhas modificam Artur (desde a periferia para o centro desse sujeito) sem que ele as toque, e sem que, necessariamente, seus filhos e sua esposa, ou ele mesmo, possam ver a acomodação das vasilhas como esquemas cognitivos.
Artur e suas circunstâncias: se a intriga imaginada por Aldiss vai sendo revelada através das conseqüências da compra impensada desse propósito que passa a dirigir a vida do jovem mecânico, o viajante misterioso nada mais fez do que tornar o impossível em algo necessário que Artur atualiza em um mundo de possíveis encadeados pelo tempo. O espaço – mais uma vez, recorrendo à filosofia de Bachelard – fornece a estrutura que aprisiona o tempo. Por isso, enquanto a cidade muda, enquanto os negócios progridem e depois degringolam, enquanto as crianças crescem, tornam-se adultas, e partem para construir suas vidas fora da narrativa; a casa de Artur e Mabel, ainda que envelhecendo com a ação do tempo, permanece intacta, carregando em seu útero essa força intangível, ao mesmo tempo, bendita e amaldiçoada, que permanece pousada sobre a mesa de jantar.
A casa fornece a hermenêutica capaz de explicar a grande realização de Artur, quando o jovem mecânico tornou-se um homem velho. A proposta inteligente do viajante (ou o próprio tempo) − manter as vasilhas sobre a mesa − define um sistema cognitivo e, por extensão, define o determinismo estrutural deste sistema. Definidas as partes e as fronteiras do sistema, a deriva da história é coerente com suas próprias possibilidades. As circunstâncias da vida de Artur estão além das aparências. Um homem faz o que é preciso fazer. Esse é seu propósito. Mas nem sempre o que parece ser é o que parece ser. Para ler o conto de Aldiss, como em qualquer narrativa de ficção, é preciso suspender a descrença. Para que tome forma o que está além das aparências.
Ilustrações: Cruz, xilogravura, 2012; Le chat et le soleil, desenho pintado digitalmente, 2012.
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