Como ponto de partida para esta crônica, eu quero introduzir esta imagem divertida, onde o menino Ozzy, cativante personagem criado pelo cartunista Angeli, revela o que deseja ser quanto crescer. A pequena história − que, em apenas dois quadros, inclui todo um mundo de reflexões possíveis − foi publicada, há muitos anos, na Folhinha, o suplemento infantil do jornal Folha de São Paulo, e eu guardei-a imaginando que, algum dia, me seria útil, como é agora, para refletir sobre os espaços e os tempos da infância.
Na verdade, penso, eu a guardei, principalmente, porque a imagem do “quarto do Ozzy” provocou-me então (e continua provocando) a imediata lembrança do meu quarto, lá pelos oito, dez, doze anos de idade, muito embora, àquela altura da vida, eu provavelmente respondesse à pergunta − "o que você vai ser quanto crescer?" − com a afirmação convicta de que desejava ser “médico”.
Assim, no longo caminho, entre o quarto do Ozzy e o meu quarto de menino, eu reencontro a figura de meu pai, que não era médico e, até onde me lembro, tampouco formulou essa questão de modo tão peremptório. E, tomando essa saudade como uma boa desculpa, peço licença ao leitor para explorar um pouco mais esta sessão de memorabilia, prometendo o esforço de chegar, em algum momento adiante, ao tema que é objeto deste texto.
Pois meu pai, que não era arquiteto, adorava construir casas…
Não creio que alguma vez tenha pensado em construir casas como mercadoria para vender, embora fosse, na verdade, um comerciante. As casas que construiu, ele as fez para nós − minha mãe, minha irmã e eu, minhas avós. Ao longo da sua vida foram quatro, e haveria uma quinta, inacabada na prancheta do filho arquiteto, imaginada no momento em que as coisas tomaram outro rumo, mas esta já é outra história que, talvez, algum dia, eu encontre coragem para contar.
Quero, portanto, demorar-me um pouco em passear pela memória dessas quatro casas vividas, em parte porque, neste caso, eu sou um observador privilegiado de minhas próprias vivências e, em parte, e principalmente, porque ao final um ciclo se completa, e minha reflexão se atualiza em outra história, que apenas começa.
A primeira casa que meu pai construiu − a “Casa da Tristeza” (e, é bom esclarecer que eu me refiro ao bairro situado na zona sul de Porto Alegre, que tem esse nome “curioso”, e não à casa, que, nas minhas recordações de menino, ao contrário, nada tinha de triste) − foi onde eu vivi entre os dois e seis anos, mais ou menos.
A casa era relativamente pequena, e eu dividia o quarto com minha irmã um pouco mais velha, mas foi construída em um terreno amplo, aos fundos do qual passava um riacho. As margens desse riacho eram cobertas por um bambuzal, que a imaginação tornava imenso, e que me servia de palco para todas as aventuras possíveis, sonhadas e vividas.
Algumas vezes o riacho “enchia” e resolvia “invadir” a casa: um enorme transtorno para meus pais, e um acontecimento maravilhoso para mim, descobrindo que minha cama havia se transformado em uma ilha. Não muito longe, estava o Lago Guaíba, que então ainda chamava-se de rio; bem perto havia uma enorme figueira; e um pouquinho além estava o colégio e a praça, com os brinquedos e a pira da Pátria.
Haveria muito que falar sobre essa casa, seus espaços reais e os espaços virtuais que construí ali. Como um extenso skyline urbano montado com os blocos do meu jogo de "pequeno construtor", e que guardo como uma das minhas mais remotas lembranças de infância.
A mais deliciosa e intrigante de todas as recordações, no entanto, me leva a uma noite de Natal. A família reunida no quintal, sob as árvores... Barulhos misteriosos chegam do interior da casa… A passagem do Papai Noel... Momentos depois, a árvore, repleta de presentes, como comprovação empírica incontestável da sua existência.
Mas então, quando eu tinha entre seis e sete anos de idade, meu pai construiu o “Sobrado de Higienópolis”, e foram mudanças incríveis as que começaram a acontecer: os novos amigos, a nova escola, a vida da rua...
Em meu primeiro ano na nova escola, uma tarde qualquer, não sei por qual razão, eu menti para a minha professora, dizendo que precisava voltar mais cedo para casa. Devo ter feito uma expressão muito convincente, porque me permitiram, sem mais questionamentos, sair sozinho da escola.
Foi a primeira vez que andei sozinho pela "cidade”, além dos limites do quarteirão. É claro que recebi uma tremenda reprimenda de minha mãe, mas (como valeu a pena!) comecei a estabelecer assim meu território, que se estendia entre a casa e a escola, e que passou a ser o "meu lugar" no mundo, e que foi crescendo, aos poucos, em superfície, em diferenciação, em complexidade.
Nessa casa moderna havia um cômodo, projetado para "vir-a-ser" o escritório de meu pai. Entretanto, terminou se tornando definitivamente meu “quarto de brinquedos”, onde acho que me iniciei no ofício de urbanista, como construtor de cidades de papel.
Mas esse cômodo foi também “laboratório químico”, foi “nave espacial”, e transformou-se em “lua”: isso em 1969, simulando as aventuras de Neil Armstrong, Edwin Aldrin e Michael Collins. Finalmente, na adolescência, virou um improvisado estúdio musical, para certo desespero dos vizinhos. E de meu pai, que escutava, todavia aparentemente satisfeito, as tentativas desafinadas de um pequeno grupo de jovens roqueiros.
A terceira das casas que meu pai construiu para a família foi a “Casa da Praia”! E, se, como nos faz crer Gaston Bachelard, dentre as estações do ano, o inverno é a mais velha, então, por simetria, eu talvez possa dizer, do verão, que é a mais jovem, ao menos para as crianças deste hemisfério do globo terrestre, ou, mais exatamente, para as que vivem nas proximidades do paralelo 30 graus Sul.
A casa da praia, pequena, situada a duas quadras do mar, representa, de fato, a experiência do crescimento, da liberdade, da ampliação das fronteiras e da conquista de novos (às vezes perigosos) territórios. Casa de ritos de passagem, de varandas, de cantos e armários. E tudo isso, e mais essa interface de costa − o mar, a faixa de praia, as dunas, as lagoas − foram, para mim, o espaço para descobertas de sentido e de sensualidade.
A quarta casa estava em construção, quando ingressei na Universidade. Já há algum tempo, eu deixará de querer estudar medicina; especulara sobre as possibilidades de me tornar geólogo, e por fim, mais ou menos decidido, estava começando o curso de Arquitetura e Urbanismo.
A “Casa da Boa Vista” não é, portanto, a casa da infância, como foram as três outras, mas a casa do "tornar-se adulto", com tudo o que isso corresponde, ainda que eu concorde mais uma vez com Bachelard, quando o filósofo nos lembra que "... todo um passado vem viver, pelo sonho, numa casa nova."
Mas se, a seguir, eu me refiro a essa casa derradeira com certo destaque, é porque, muitos anos depois, foi nessa casa que nasceu Gustavo, meu filho com Cristina, hoje com quatro anos: a casa em que vivemos (e uma gata, e dois cachorros), e que é, assim, simultaneamente, como ninho e concha, no sentido bachelariano dessas expressões poéticas.
Deixem-me apresentar a vocês esta figura encantadora: imaginem Gustavo, com um ano e uns poucos meses, escutando a mamãe chamar: "− Gustavo, não corre no corredor!" E ele parou, penso que não em obediência à ordem recebida, mas paralisado pela mais pura perplexidade. Em seu crescente acoplamento lingüístico, a ordem dada pela mãe não fazia sentido: o corredor era (só poderia ser!) o espaço para correr (o que, aliás, continua sendo, em que pese essa cena tenha se repetido incontáveis vezes, desde então).
Com esta breve historiografia familiar (breve para mim, talvez já cansativa para o leitor), penso ter, finalmente, situado o problema dos "espaços da infância", que pretendo entender desde a idéia de um complexo sistema de coordenações de ações como parte do processo de construção do conhecimento do sujeito frente ao mundo e, aqui, afinal, revelando um pouco das minhas posições epistemológicas.
Ao falar em conhecimento, entendo uma relação que integra sujeito e objeto, na perspectiva de explicar algo que se observa, e sobre o qual se constrói¬ uma reflexão. Opera-se, neste sentido, um processo que se dá nos planos externo e interno às estruturas do pensamento.
As formas como esta relação pode ser compreendida definem, grosso modo, distintas posições epistemológicas. Sujeito e objeto constituem, pois, um sistema em que, por um lado, estes dois elementos apresentam-se separados e distintos entre si e, por outro, estabelecem uma relação recíproca.
De imediato, surgem duas posições opostas e bem conhecidas no problema teórico do conhecimento: a posição que implica o conhecimento ao pensamento, cujas estruturas a priori absorvem o objeto na explicação da realidade e, de maneira contrária, aquela que condiciona o conhecimento à experiência que é, neste segundo ponto de vista, determinante das estruturas do pensamento.
Em outras palavras, o problema central do conhecimento desloca-se, nesses dois extremos, das condições e estruturas inatas ao organismo/sujeito do conhecimento − configurando a posição que circunscreve o conhecimento ao inatismo − às condições e estruturas determinadas pelo meio/objeto do conhecimento − na conformação do ponto de vista do empirismo.
Desde o pensamento de Jean Piaget, todavia, constituiu-se o paradigma distinto da epistemologia genética, e a partir do qual me parecem bem demonstradas as insuficiências de uma e outra posições. Assim, por Piaget, é possível conotar a condição dialética que se estabelece entre sujeito e objeto, em um sistema de ações recíprocas que se auto-regula por equilibrações mais e mais complexas.
A questão que merece um imediato destaque, no âmbito desta reflexão, diz respeito ao problema da psicogênese do espaço que, tratada na perspectiva de Piaget, no que tange ao desenvolvimento da criança, vai construir-se em dois planos diacrônicos: aquele que responde ao processo evolutivo da capacidade de percepção espacial, e aquele que acontece como etapas de representação do espaço, configurada no plano intelectual.
Na abordagem piagetiana, o espaço perceptivo é explicado como sendo construído em etapas que vão desde a cognição de relações topológicas elementares (como vizinhança e separação, por exemplo), avançando no sentido de incorporar relações projetivas e métricas (perspectiva e tamanho dos objetos) e, por fim, assimilando a percepção do movimento, ou seja, "o deslocamento de objetos, uns relativamente aos outros".
Quanto ao espaço representativo, este pressupõe a construção da imagem, desvinculando-a da observação, ou seja, o desenvolvimento de um modelo mental que prescinde da presença do objeto no campo visual.
Também no plano da representação, a complexidade referente à apreensão da imagem, para torná-la figurativa, parece evoluir a partir das relações topológicas elementares. Isso pressupõe, citando Jean Piaget e Barbara Inhelder:
(...) uma reconstrução das relações já adquiridas no plano perceptivo e uma continuidade funcional entre esta construção nova [representativa] e a construção perceptiva anterior, uma vez que as duas utilizam a matéria sensível a título de significantes (índices perceptivos ou imagens simbólicas de ordem representativa), e que as duas recorrem ao movimento e a assimilação sensório-motriz para a construção das relações significadas, isto é, das "formas".
Assim, de maneira integrada ao desenvolvimento sensório-motor, esse processo inaugura e consolida a função simbólica, ao tempo em que remete à noção de possíveis, a qual Piaget considerou o problema central da epistemologia construtivista, ou seja, em suas palavras, a “construção ou criação do que existia apenas em estado virtual do 'possível' e que o sujeito deverá atualizar".
Parece-me razoável, pois, conduzir minha reflexão sobre os espaços da infância buscando entender a imbricação entre o processo de construção do conhecimento espacial e a tensão inerente ao campo dos possíveis, entre o real necessário e o virtual imaginado.
Assim, as repetidas “corridas” do Gustavo pelo corredor, e pela sala, e por todos os cantos da casa até descobrir o jardim, já não podem ser compreendidas apenas como uma brincadeira aleatória, mas sim como parte de um importante experimento: a aventura de construir o mundo, de concebê-lo como parte de um processo de diferenciação que, há um só tempo, o afasta do seio da mãe e lhe abre um campo infinito de possibilidades.
E isso é, também, assustador, porque irreversível. Delicado paradoxo: à construção gradual da reversibilidade do pensamento, corresponde a crescente tomada de consciência da irreversibilidade de nossas ações concretas.
A imagem metafórica da soleira da porta da rua (tratada, por exemplo, tanto por Kevin Lynch, quanto por Herman Hertzberger, para finalmente encontrarmos referentes no âmbito da Arquitetura) é, pois, ilustrativa desse processo de coordenação de ações espaciais no desenvolvimento cognitivo da criança: este "in-between" que significa estar, simultaneamente, dentro e fora, sentindo-se, ao mesmo tempo, protegido pela presença próxima da mãe, e desafiado − e livre! − frente ao novo e imenso espaço que se descortina desde a porta de entrada da casa. Ou, ilustrando com a pequena História de Julio Cortázar:
Um cronópio pequenininho procurava a chave da porta da rua na mesa-de-cabeceira, a mesa-de-cabeceira no quarto de dormir, o quarto de dormir na casa, a casa na rua. Por aqui parava o cronópio, pois para sair à rua precisava da chave da porta.
Por quanto tempo uma porta fechada poderia segurar o serzinho imaginado pelo grande escritor argentino? O simpático personagem nos mostra esse criar o mundo, através de atos coordenados de conhecer o entorno, através de interações mais e mais complexas, através da imersão em um espaço lingüístico, isto é, em um linguajar. O mundo do pequeno cronópio é, como pensaria Piaget, um mundo de possíveis em constante devir que se realiza através da imaginação: a capacidade de viver, quase em simultaneidade, mundos reais e necessários, e virtuais e sonhados, mas sempre possíveis.
E retorno, assim, às casas, as de meu pai, em especial àquela em que Gustavo cresce, mas também a outras tantas mais, construídas com cimentos e tijolos, ou com verbos e substantivos.
Como àquela em que vive Nino sapo, Nino peixe, que recebe a visita da querida Isabel, menina de saúde frágil que busca alívio na temporada de verão em uma estância nos arredores de Funes, e onde os dois cultivam um "formicário", em outro conto fantástico criado por Cortázar, cujo título, Bestiário, implica uma imagem de terror.
Neste caso, o que dá sentido a essa casa rural argentina é a presença de um tigre à solta pela propriedade, e a forma como os movimentos do tigre, entre os cômodos, rege os espaços e tempos na interação − "vida real" − das personagens.
Nos espaços da infância, existem sempre tigres passeando entre os acontecimentos, definindo os ritmos da vida. E a infância é passada, em grande parte, aprendendo, com os tigres, os modos de sobreviver.
Todo o espaço realmente habitado traz a essência da noção de casa − ensina outra vez Gaston Bachelard. Nas casas construídas por meu pai − casas que, nesta apologia da memória, ganham nomes próprios −, ao passo dos anos, aprendi muito sobre o andejar dos tigres. E, ao ultrapassar a soleira, ao entrar na cidade, os encontrei ferozes, sim, mas não tão assustadores assim. Mas foi, também, nas casas de meu pai que aprendi algo sobre Arquitetura – em uma tomada de consciência muito posterior − ao compreender os espaços da casa como recipientes preenchidos pelo amor de meus pais, à prova de tigres ou, pelo menos, razoavelmente protegidos.
* NOTAS:
Este texto foi originalmente apresentado em uma mesa redonda intitulada "Os espaços da infância", durante o I Congresso Internacional de Psicanálise e Intersecções – Arquitetura – Luz e Metáfora: um olhar sobre espaços e significados, realizado em Porto Alegre, Brasil, em maio de 2002. A versão aqui publicada sofreu adaptações, com a supressão dos parágrafos dedicados ao aprofundamento da abordagem piagetiana do conhecimento.
A ilustração do “quarto do Ozzy” é de autoria de Angeli, e foi publicada no suplemento infantil do jornal Folha de São Paulo. Infelizmente, não foi possível localizar a data da publicação original.
Ilustração ao final do texto: “Memotraços”, composição digital, 2008/2012.
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