literarquiteturas

percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

A CASA (TORNADA) OUTRA: ESPAÇOS ENTRE A TRADIÇÃO E A TRANSGRESSÃO

Outras representações em torno da "Casa tomada" de Julio Cortázar: uma investigação sobre a epistemologia e a pedagogia do projeto arquitetural.


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Como me quedaba el reloj pulsera, vi que eran las once de la noche. Rodeé con mi brazo la cintura de Irene (yo creo que ella estaba llorando) y salimos así a la calle. Antes de alejarnos tuve lástima, cerré bien la puerta de entrada y tiré la llave a la alcantarilla. No fuese que a algún pobre diablo se le ocurriera robar y se metiera en la casa, a esa hora y con la casa tomada.

Julio Cortázar, Casa tomada

Literarquiteturas / traduções da casa tomada / foi também o nome que dei a um dos experimentos pedagógicos realizados como parte da investigação desenvolvida em minha tese de doutorado. Como exercício voltado à imaginação, essa experimentação, que buscou transladar a narrativa literária para o desenho arquitetônico, insere-se em uma proposta de trabalho mais ampla intitulada Arquiteias (ou poesia para arquitetos), composta, ainda, por dois outros exercícios: Cidade das palavras e Desenho e canteiro (que serão, possivelmente, tratados em crônicas futuras).

ESCOPO

A um grupo de estudantes de arquitetura foi pedido que elaborassem suas próprias “traduções” (ou ”traições”) para a Casa tomada de Julio Cortázar. O exercício foi realizado após a leitura coletiva do conto, e atravessado por um largo debate, em ateliê e através de interações à distância (aquilo que, hoje, se chama, de modo oportunista, de “rede social”), que incluía “instruções” baseadas nas obras de Jean Piaget e Christopher Alexander.

Quanto ao exercício pedagógico, minha aposta, sobretudo, estava na imaginabilidade, da narrativa: a condição da “casa” deixar-se ver, permitir-se ser capturada, como essência, e reconstruída, livremente, pela imaginação de cada sujeito.

O texto cortazariano presta-se, assim, a diferentes interpretações, e a casa, pouco ao pouco, revela-se aos estudantes: cada ação, uma operação do pensamento, encadeando-se num tecido de idéias que se vai conformando e causando a reação: psico e sócio gênese desta paisagem que deve, a seguir, ser desenhada. Estávamos todos, a certa altura, profundamente envolvidos pela fantasia do autor.

No processo de tradução do texto ao desenho, no projeto demandado pelo exercício, o espaço da casa vai ser representado de diferentes formas e através de variados meios de expressão. Desconhecendo a precisa versão criada por Juan Fresán em 1969 (segredo somente revelado ao fim do exercício), cada participante busca encontrar seu modo de desenhar o texto de Cortázar, diante do desafio de arquiteturizar o texto literário. Reúno aqui alguns dos resultados, selecionados, em um conjunto amplo, para expressar variedade. Cada trabalho é singular, todavia intensamente compartilhado com os companheiros, ao longo do processo de construção. Compreendo, então, que emergem duas formas ideais na realização do exercício, e que se fazem híbridas, com diferentes acentos:

Em um primeiro momento, uma forma que transcreve o espaço através da tradição – neste caso, a ênfase está no espaço que, pela precisão “comunicada” através do texto de Cortázar, pode ser arquitetonicamente reconstituído de modo representativo / projetivo.

Em seguida, uma forma que expressa o texto através da transgressão – neste caso, já não é o espaço representativo/projetivo que está no centro da tradução, mas sim um espaço analítico, aderido às implicações da intriga cortazariana, aos sentimentos que a leitura desperta, às imagens que emergem como livre poética.

Não proponho aqui uma análise demorada destas distintas manifestações. Espero que as imagens dos trabalhos realizados pelos estudantes expressem bem mais que minhas palavras. Mas não posso deixar de juntar, às imagens, alguns breves comentários.

PERCURSOS E PAISAGENS: TRADUÇÕES DO ESPAÇO

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Felipe Drago, Casa tomada, primeira versão

Como ponto de partida, esta casa tomada, na interpretação de Felipe Drago, segue o protocolo mais rigoroso da tradição, buscando mostrar a casa tal como é contada por Cortázar, representando-a com precisão de escala, ao modo de uma detalhada maquete digital. Sua preocupação, àquele momento, é de projetar de modo mais literal possível, traduzindo, passo a passo, as palavras do escritor em um desenho preciso (observe-se o ponto de vista do narrador/observador), como se estivesse construindo um cenário realista para a execução de um roteiro.

Mas Felipe, no âmbito do experimento, extraordinariamente comprometido, expressa o desequilíbrio frente a sua própria solução, e elabora uma segunda interpretação. Neste momento, ele torna-se francamente transgressivo, e a trama de Cortázar esconde-se sob camadas de outras referências: ele implica, com a alusão à favela, típica e tragicamente brasileira, a vida ensimesmada dos irmãos ao drama da pobreza urbana; cria um edifício cujas formas poderiam ser as de uma catedral ou as de uma nave espacial; as cores, as transparências, o céu tempestuoso, surgem como artifícios dramáticos talvez mais próximos do cinema: como cenário, agora ele deseja mostrar a cidade.

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Felipe Drago, Casa tomada, segunda versão

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André Lacchini, Casa tomada

Entre os trabalhos que seguem a tipologia da tradição, destaco o exercício realizado por André Lacchini, tanto pelo rigor analítico, quanto pelo resultado que revela o percurso completo da simulação gráfica.

Seu ensaio expressa uma intenção de racionalidade e precisão que se traduz (i) em uma leitura rigorosa do texto, apreendendo, no contexto da tradição, as nuanças da descrição espacial do autor; (ii) uma situação histórica que enlaça duas distintas tradições, concordando princípios, aparentemente dispares – a arquitetura ideal de Palladio e o desenho racionalista de Mies van der Rohe; (iii) a assunção projetual da simetria rigorosa, como parte da construção do texto e da sua tradução arquitetônica; (iv) a precisão escalar do desenho bidimensional, que é, portanto, fundamentalmente, descritivo; (v) a confecção cuidadosa da maquete física que expõe a volumetria como dispositivo prescritivo do projeto; e vi) a elaboração cuidadosa da correspondente digital, atingindo o mesmo grau de rigor e precisão.

Vejo-me diante de um sujeito apaixonado por Arquitetura e, por isso, exigente em relação ao que produz. Mas, o que faz este estudante, em um grupo que amiúde expressa sua inconformidade aos rigores disciplinares? Talvez ele seja, em certa perspectiva, um dos mais revolucionários entre os participantes. Com seu desenho apurado, André busca compreender em extensão o pensamento arquitetural, experimentando seus princípios, o originário na tradição clássica, e o atualizado pela racionalidade miesiana. Para um jovem estudante de arquitetura, vivendo a virada do milênio, esse rigor sugere uma bem-vinda lição.

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Tiago Retamal, Casa tomada, conceito

Em seu exercício de tradução, Tiago Retamal imagina que a “casa”, de certa maneira, “encolhe” na medida em que a ocupação avança, empurrando Irene e Eu para espaços cada vez menores. O resultado é claustrofóbico, um processo de “emparedamento” do sujeito: o outro (a “entidade”) toma conta do espaço.

tiago combo hz small.jpg Tiago Retamal, Casa tomada, modelo digital

A “casa” tem planta-baixa triangular, os setores são representados numa seqüência de compartimentos cada vez menores em direção a um vértice, constituindo espaços cada vez mais segregados em relação ao exterior, interiorizados em torno da relação entre as personagens. O corredor dá lugar a muitas, e cada vez menores, portas – e os espaços de conviver vão sendo adensados, até que reste um único cômodo apertado, tomado de lembranças.

A casa, neste sentido, não é exatamente tomada, ao menos não por uma entidade de existência autônoma em relação ao casal de irmãos ou à própria construção, mas antes atraída para o centro de sujeitos cada vez mais egocêntricos: a casa funciona, se vale aqui a analogia sobre a analogia, como uma espécie de buraco negro.

Para representar o que deseja, um detalhe reforça a expressão dramática da metáfora, através do uso de um plano de corte, a meia altura, jogando com a imagem e seu negativo. Desde o exterior, essa casa dobra-se sobre si mesma. Mas Tiago percorre, também, seu interior, descobrindo o que poderia ser tanto as silhuetas em fuga de Irene e Eu, quanto a presença da entidade invisível.

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Rafael Carneiro, Casa tomada, esboços

Do ponto de vista metodológico, o ensaio realizado por Rafael Carneiro pode ser tomado como exemplar, e as imagens que compõem sua casa tomada permitem ao observador acompanhar cada etapa de sua elaboração.

Um primeiro esboço (a), representado em planta baixa, trata de organizar as distintas peças do quebra-cabeça espacial: a rua, os diversos cômodos, o corredor, a porta de carvalho, o saguão. Em seguida, um segundo desenho (b) opera uma criativa transformação sobre o esquema original: o que antes era plano horizontal, passa a ser plano vertical, e os componentes perdem as linhas retas e revelam uma composição com formas curvas e irregulares. Como terceira etapa de operação (c), a composição ganha volume e surge um novo plano horizontal de corte, uma superfície que Rafael desenha como de fosse água, que divide o volume em duas partes, acima e abaixo deste plano.

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Rafael Carneiro, Casa tomada, estudos volumétricos

A partir do croqui volumétrico, o estudante constrói uma rápida maquete de trabalho, definindo os corpos que formam a casa e destacando o plano de corte (d). Por fim, o modelo físico é reconstruído digitalmente (e), recebendo texturas e efeitos com a intenção de aparentar uma linguagem gráfica de cartoon.

A metáfora da construção então se revela: a disposição horizontal da casa é girada e se torna um plano vertical; a idéia ganha expressão volumétrica e um outro plano separador horizontal e, finalmente, descobre-se que parte da casa está submersa e outra se mantém acima da linha d'água; sabe-se que Irene e Eu refugiam-se na parte mais alta, enquanto a casa vai sendo tomada pelas águas.

Quando se colocam, lado a lado, algumas das diferentes traduções realizadas, quando se pondera em relação à forma gradual com que a transgressão parece se impor à tradição, a observação sugere a consolidação de um padrão observável quanto ao processo, capaz de originar as mais diferentes configurações espaciais, seguindo um princípio geral para expressar o processo espaço-temporal de tomada da casa. No caso de Tiago, a forma construída baseia-se na recursão de espaços morfologicamente semelhantes, mas que são cada vez menores, confinando e, finalmente, ou esmagando, ou expulsando as personagens da casa. No caso de Rafael, o plano de corte – o que está acima da superfície e o que está submerso – define âmbitos espaciais distintos em relação ao que acontece em seus interiores.

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Felipe Reck, Casa tomada

Dois corpos: um que representa o passado e outro que insinua as possibilidades de um futuro. Não uma porta de carvalho, como expressão de fixidez, a separar esses distintos mundos, mas uma ponte, metáfora espaço-temporal. Ao final do percurso, o saguão se transforma em um trampolim. O trabalho de Felipe Reck destaca-se, também, pelo percurso gráfico: os croquis em papel, definindo o conceito do projeto, a construção bem cuidada da maquete e, por fim, o desafio da modelagem digital.

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Felipe Reck, Casa tomada, desenho e maquete

Na linha que explora essa dicotomia entre corpos como expressão de processo, e dá ênfase a um potente elemento conector, um outro exemplo merece ser destacado, reforçando este princípio projetual, mas trazendo um componente a mais de complexidade: a topografia como forma de inserir o edifício em um lugar, e uma topologia de relações que, distinta das demais interpretações, faz do espaço exterior à casa tomada, não mais um fim narrativo para a jornada dos irmãos, mas um meio de expressão para o drama em que vivem aprisionados, isto é, da prisão exasperante na qual no qual o conto de Cortázar os enclausura e os liberta, como potente dispositivo analógico para refinar a separação entre passado e futuro.

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Aline Veiga, Casa tomada, vista

A casa projetada por Aline Veiga se destaca pela beleza da forma, resultante de um rigoroso exercício na linha da transgressão. O projeto segue uma ordem precisa de articulação entre componentes e conectores, sejam conceituais ou arquitetônicos.

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Aline Veiga, Casa tomada, vista

A casa se estrutura em dois blocos apoiados em platôs. Um bloco representa o espaço em que se abrigam as personagens; no outro, a casa está tomada. Entre eles, uma espécie de abismo, um cânion ao fundo do qual corre um rio. A conexão se faz através de um corredor formado por afiadas lâminas metálicas colocadas verticalmente.

O processo de criação da estudante, sua sensibilidade arquitetural e, especialmente, sua apropriação dos recursos de simulação e representação, fornecem ao observador talvez o mais bem acabado resultado para representar o processo de construção ensejado pelo exercício. A maquete impressiona, também, pelo acabamento, pela criatividade e capacidade de resolver problemas: a paisagem envolvente, o exuberante pôr do sol neste lugar inventado, nada mais é do que uma imagem de calendário, postada ao fundo, para dar enquadramento à fotografia.

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Aline Veiga, Casa tomada, vistas

O projeto de Vivian Ecker, com o qual concluo a exposição dos resultados do exercício, é marcado pelo peso da duração. A reflexão demorada e meticulosa em torno de seu conceito gerador leva a estudante a deslocar-se com necessário vagar e, semelhante ao que fez Felipe Drago, a abstração refletida com base na tradição dá lugar à interpretação metafórica: em seu exercício, Vivian alude ao comportamento dos irmãos – um em relação ao outro, e de ambos em relação à vida – e encontra-se com o sentido dos novelos manuseados por Irene, interpretados na forma de casulos, para, em seguida, assumir a idéia de metamorfose.

Por isso, para expressar significações mais precisas, o ensaio de Vivian abandona a tradução literal, a reconstrução do espaço no plano da tradição, para encontrar uma forma distinta que aponta à transgressão.

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Vivian Ecker, Casa tomada

Ao final, o que ela desenha é uma outra casa-continente, uma outra expressão analógica, descendente do casulo: uma casa viva, que se alça em vôo, pois que a casa agora ganha a forma de uma borboleta. Observe-se que, ainda que se torne biomórficaplanta em forma de borboleta, representando os anseios mais profundos dos personagens –, o espaço interior ainda segue a estrutura compartimentada implicada à tradição. Observe-se, também, a implantação no terreno, que representa, outra vez, a analogia ao casulo: casa que é, também, prisão, enclausuramento, casa enclausurada pela topografia e pela vegetação envolvente, como reflexão e descrição “alexanderiana” para um padrão vivente: neste caso, como no conto, isto leva a um fechamento em torno de si mesmo, o que, todavia, a metáfora da metamorfose irá resolver.

EPÍLOGO

Penso que já é suficiente ilustração à força metafórica da narrativa de Cortázar. Se aqui deixo de publicar a todos os trabalhos realizados por todos os sujeitos participantes, é por questão de espaço, mas todos mereceriam lugar nesta galeria de traduções imaginadas em torno de um conto extraordinário.

Porque não há uma melhor solução ao problema proposto, uma tradução exata do devaneio do escritor, mas apenas a coragem em lançar-se ao desafio.

Quanto aos estudantes envolvidos – todos! – minha mais profunda gratidão. Foram os melhores parceiros que um professor/aprendiz de arquitetura poderia encontrar, em uma jornada de (re) conhecimento da arquitetura, de busca da compreensão do plano epistêmico do projeto como condição humana: a esperança projetual, de que trata o designer e filósofo Tomás Maldonado.

Hoje são todos arquitetos e urbanistas. Com alguns, mantenho contato freqüente; de outros, no entanto, perdi o rastro. Mas tenho para mim que o “desequilíbrio” da proposta pedagógica fortaleceu a razão e a emoção arquitetural em cada um deles. Foi uma experiência!  uma experiência na perspectiva do crescimento de cada um dos participantes. Oxalá alguns a recordem com afeto. Poesia para arquitetos implicava num compromisso essencial: a disposição de deixar-se mover. Penso que este objetivo foi amplamente alcançado.

Quanto a mim, literarquiteturas / traduções da casa tomada / representou um especial momento de insurgência frente a muitas coisas que me incomodavam então, e que, percebo hoje, ainda me incomodam vez por outra. Houve então, uma urgência, traduzida em ação. Insurgente – urgente – gente… – eis a expressão que pauta o processo de fazer.

Ilustrações: (i) na abertura do texto, Puertas, manipulação digital sobre fragmento de fotografia de Luíse Martins, 2012; (ii) demais imagens, arquivo pessoal, com a indicação dos respectivos autores no corpo do texto, 2001/2002.


Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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