O primeiro dos lugares visitados por Iñaki Ábalos em La buena vida, permite ao leitor penetrar aquela que o arquiteto denomina como a Casa de Zaratustra, sugerindo uma relação dialética / existencial entre a técnica projetual de Mies van der Rohe, e certo "usuário epistêmico", representado pelo super-homem nietzschiano.
A analogia conecta, portanto, o espaço arquitetônico e a disciplina filosófica, integrando a racionalidade dos muros miesianos − especialmente sua série de protótipos investigativos para as casas-pátio − a um modo existencial de superação das paixões como um valor de liberdade individual.
O personagem que habita qualquer uma das casas-pátio de Mies, desenhadas entre 1931 e 1938, deverá ser um criador de "espírito dionisíaco", que rechaça a moral conservadora do seu tempo. Trata-se, interpreta Abalos, de um homem (ou mulher, ou super-homem) solitário que, fragmentado em sua identidade, luta pela (re) construção de um lugar:
Um sujeito, como o que possivelmente imagina Mies, necessita uma condição inicial de isolamento, una autoconstrução à margem dos demais; deve ser capaz de apropriar-se do mundo, de manter relações eu-mundo baseadas em uma nova lucidez, instintiva e expansiva, ligada a uma concepção revolucionaria do tempo, a um presente contínuo de deslumbrante intensidade.
A Casa de Zaratustra, quando associada à arquitetura de Mies van der Rohe, ganha contornos espaciais muito claros. É limitada pelos altos muros que definem um lote e sua condição urbana (impensável, para esse morador imaginado, viver no campo). A casa em si, todavia, o espaço como invólucro dessa identidade, não tem paredes, mas apenas muros ordenadores de um contínuo espacial e funcional. As fachadas são de cristal, e o que a visão abarca é um postiço de natureza recriada como representação: a natureza é, na obra de Mies, uma composição que deve ser apenas contemplada.
Conquanto esse esquematismo possa soar – ao leitor não familiarizado com o debate arquitetônico, especialmente − como uma exagerada simplificação do acontecimento que é morar (mas a leitura do texto completo de Ábalos eliminaria, pela profusão de detalhes e pela erudição bem medida, esse problema), é preciso dizer que a invenção miesiana teve, no passo da história, a potência para tornar-se tipo.
Em outras palavras, a elaboração da arquitetura de Mies, que atravessa o Atlântico em tempos de guerra, e encontra, na América, um solo fértil e inexplorado, é acolhida como manifestação da grande arte racional, que passa a ser momentaneamente a arquitetura. E se torna estilo − dito internacional − e se faz escola − para certa maneira de fazer arquitetura.
Superadas as suas próprias contradições, sublimadas suas próprias feridas existenciais, Mies van der Rohe poderá substituir, em seu panteão, a figura de Nietzsche pela de outro que, como ele mesmo, é um esquematista: Piet Mondrian. E abrir os olhos para enxergar os arranha-céus de Manhattan. E os ouvidos para escutar o bebop.
Ilustrações: Mies en abyme, colagem digital, 2012;
Mies van der Rohe, Pavilhão Barcelona, 1929, planta-baixa;
Alegoria para Mies van der Rohe, desenho, 2012.
Citações livremente traduzidas a partir do original em espanhol.
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