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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

OUTRAS CASAS: PERCURSOS NA MODERNIDADE

Sete casas, sete metáforas sobre os modos de habitar: um passeio guiado por Iñaki Ábalos, integrando arquitetura, artes e filosofia, através das mais icônicas expressões da modernidade.


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La buena vida estuda a relação que existe entre as formas de viver, os distintos filões do pensamento contemporâneo, e as formas da casa, de projetá-la e de habitá-la. Iñaki Ábalos, La buena vida

Explorando o contingente metafórico que são as teorias da arquitetura e da cidade, encontro o que interpreto como um esforço analítico impressionante: o percurso empreendido por Iñaki Ábalos, descrito em La buena vida, onde o arquiteto espanhol, elaborando uma rica colagem representativa da cultura urbana contemporânea, convida o leitor para uma visita guiada às casas da modernidade.

Sua proposta, em síntese, é a de vivenciar certos espaços, não necessariamente concretos, mas que, para a recente disciplina arquitetônica, conquistaram uma condição de lugares "míticos", em torno dos quais gravitam inúmeras referências, atraídas da filosofia, da literatura, das artes visuais, entre outros campos de expressão criativa. Nas notas finais de La buena vida, o autor enfatiza:

No que tange a estas visitas, nenhuma fórmula ou instrução, nenhuma certeza. Seu objetivo (…) é outro bem distante: aportar alguns dados para conhecer a origem e o sentido das fantasias projetadas sobre a morada, servir de ferramenta –uma mais –com a qual avançar nesta perda de inocência em que vive, desde algumas décadas, a cultura arquitetônica, e cujo objetivo principal poderia englobar-se sob a epígrafe “aprendendo a esquecer a modernidade”.

E assim, ao longo de um percurso formado por sete narrativas, se vislumbram essas memórias dos distintos modos de morar, construídas em seu vagar através do estudo da disciplina, e implicadas, em suas expressões mais caras às gerações formadas à esteira da modernidade, ao que Ábalos denomina técnicas projetuais.

Neste sentido, observe-se, esse conjunto de narrativas não compõe um "manual" normativo para o projeto de arquitetura, nem "ensinam" sistemas ou regras de desenho. Penso que as técnicas projetuais que Ábalos, diligente e inteligentemente, tratou de elencar, expressam mais diretamente, o problema das estratégias ou, melhor, das grandes estruturas formais que trazem a arquitetura para um lugar de proximidade inaudita para com o conceito filosófico.

Pois a disciplina, tornada arte da estratégia − manifestando, assim, sua origem militar −, guarda uma vizinhança considerável com a lógica. No campo da arquitetura, lógica que é a dos sentidos (para referir à filosofia deleuzeana), ou melhor, uma lógica das significações, trazendo ao debate a obra inacabada de Piaget e continuada pela lucidez de Rolando Garcia.

Aproveito a própria estrutura de La buena vida para organizar este ensaio também em sete comentários (e ainda, ao modo de conclusão, uma oitava narrativa…), em correspondência às analogias construídas pelo arquiteto espanhol, que serão publicados em seqüência, seguindo o itinerário original da obra. Finalmente, o ônibus de Iñaki Ábalos nos chama para a aventura que é percorrer um caminho sinuoso, pontuado por bifurcações inesperadas, com paradas desconcertantes, e inusitados diálogos reunindo eminentes personagens.

Ilustração: cidades (in) visíveis I, desenho, 2011.

Citações livremente traduzidas a partir do original em espanhol.

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Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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