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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

A ARTE SIMPLES DO MORAR COMPLEXO

Quarta estação: quando o filósofo visita a casa do poeta entre as telas pintadas com luz.



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Se a morada idealizada da família Arpel fornece a suma necessária para entender o paradigma positivista, que ganha nitidez justamente no contraste com as peripécias de monsieur Hulot; a própria casa onde ele vive sugere o endereço seguinte para a investigação de Ábalos:

(…) a complexa e absurda – ao menos desde o ponto de vista funcional – casa de vizinhos em que vive monsieur Hulot, imerso em seu mundo fantástico, cuja contraposição à casa dos Arpel punha em evidência a distância entre duas concepções de existência profundamente antagônicas.

Como quarta analogia, Ábalos apresenta a Casa Fenomenológica, que extrai, de Merleau-Ponty, o assombro do sujeito frente ao mundo, e de Bachelard, a poética do devaneio: a suspensão do tempo presente para esconder-se nos cantos memoráveis da inconsciência e do sonho. Também por Bachelard, essa casa será construída pela topologia das palavras e das coisas que se amontoam pelos cômodos da casa. A casa fenomenológica, ao contrário da casa de Zaratustra e de Mies, é uma casa "cheia": "(…) uma casa desmesurada e anárquica, vivida com a desordem e a despreocupação próprias de uma criança”.

Quem é, pois, o habitante dessa casa? As ilustrações com que Ábalos torna visível a casa do espírito fenomenológico, além da menção ao mundo de Hulot, levam o leitor aos interiores das casas de Pablo Picasso, imiscuindo-se em sua intimidade de homem e artista. Assim, sabe-se já, que é de uma casa-ateliê, no sentido em que seus espaços têm como função criar ou revelar um mundo que emana do sujeito, e desde o sujeito se faz sentido, como obra de arte.

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Este sujeito, um sujeito brindado ao mundo, obtém a vivência das coisas e de si mesmo através da epoché (a suspensão) do assombro frente ao mundo, uma forma de isolamento da consciência face ao fenômeno que revela a intencionalidade da visão, que estende fios entre ambos – eu e o mundo, sujeito e objeto – formando assim uma unidade natural do mundo e da vida.

Para entender a casa e seu morador – e, em extensão, para poder entender a arquitetura e sua teoria de matriz fenomenológica − é preciso esclarecer qual seja, exatamente, o papel do fenomenólogo. Por Bachelard, quando o filósofo estabelece sua fenomenologia da poesia, sua poética do espaço, saber-se-á a resposta com intensa claridade:

Para ele [o fenomenólogo], a imagem está ai, a palavra fala, a palavra do poeta lhe fala. Não há necessidade de ter vivido os sofrimentos do poeta para compreender a felicidade de palavras oferecida pelo poeta − felicidade de palavra que domina o próprio drama.

Por isso, deixemos Picasso por um instante, para nos entregarmos às palavras do poeta, quando Pablo Neruda descreve, como poesia, a arquitetura que brota das mãos do artesão:

Germán constatou como Dom Alejandro levantava uma dessas pedras pesadas e quadradas, a olhava contra a luz e, rápido, fazia voar uma aresta. A pedra centelhava. E em seguida era emparedada em associação ao cimento. A casa foi assim como um amontoado de uvas de granito, que foi crescendo nas mãos tremendas o mestre Garcia… Don Alejandro Garcia avaliava a calçada, cortando as uvas de granito e fazendo crescer minha casa como se ela fosse uma arvorezinha de pedra, plantada e elevada por suas grandes mãos escuras (Pablo Neruda. La casa en la Arena)

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Germán Arias é o arquiteto catalão que desenhou originalmente a casa do poeta em Isla Negra, e Alejandro Garcia, o mestre construtor, mestre de cantaria, que deu forma as pedras do entorno para fazer, da casa, parte do lugar. Então, tudo se aclara com a passagem breve que, repentinamente, borra a fronteira entre uma arte e outra, entre arquitetura e a poesia, entre o devaneio e a realidade. Ao comentar a casa de Neruda, Ann Pendetlon-Jullian (1997) consegue essa mesma tensão poética:

Depende de que sejamos capazes de imaginar o telhado em ponta da casa arquetípica, fazendo-o coincidir com os cumes da terra-céu. A imagem está construída visual e conceitualmente. A prosa poética de Neruda é um poema habitado. Está habitado pelas mãos do maestro Alejandro, que trabalha a pedra para fazer crescer a casa. Esta imagem poética é tátil e material, e depende da relação de dois materiais opostos: pedra e uva. Os adjetivos associados à pedra são duros e pesados, frios, sólidos e densos. As pedras quantificam a gravidade. Ao contrário, os adjetivos inerentes à uva são leves, frágeis e aquosos, e a uva é uma casa de ar e sol. (Pentleton-Jullian, Casas)

Mas, ainda que, como para fixar a imagem com que pretende descrever a casa existencialista, Ábalos convide o leitor a conhecer a interior das casas de Pablo Picasso (aquele que foi, talvez, o maior artista do século XX); ainda que eu mesmo recorde as palavras e a casa de Neruda (aquele, para mim e tantos outros, o maior dos poetas latino-americanos), penso que a condição de imanência que vai aqui implicada, a desloca para um espaço intrinsecamente marginal em relação ao construto erudito da arquitetura moderna e contemporânea. Conquanto, nas casas de Picasso e Neruda, se tornem observáveis os tempos e as idiossincrasias de seus proprietários, esta é a qualidade − seu caráter trouvé − que revela a identidade das casas habitadas pelas pessoas ordinárias. Porque um igual continente pode abrigar muitas existências, como revelam as fotografias das salas de estar de apartamentos idênticos de um mesmo edifício.

Se pudéssemos observar, simultaneamente, os diversos apartamentos iguais de um mesmo edifício, daríamo-nos conta de que nada ou muito pouco muda no suporte que a arquitetura fornece para a vida doméstica em cada morada e, no entanto, o trabalho de apropriação que cada usuário realiza, transforma substancialmente esse espaço. (Monteys, Fuertes, Casa Collage)

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Ilustrações: 1. Esboços para um projeto xilográfico: edifícios, desenho, 2012; 2. Pablo Picasso, sua casa em Cannes, 1955. Fotografia de André Villers; 3. Pablo Neruda, sua casa em Isla Negra, 1982. Fotografia de Luis Poirot 4. Sebastião Salgado, Ho Chi Minh City, Vietnam. 1995 Citações livremente traduzidas.



Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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