O quinto arquétipo descoberto pela investigação de Ábalos trata de uma forma híbrida de habitar: apóia-se na dissolução do vínculo tradicional família-morada, ao mesmo tempo em que funda, como técnica projetual, uma forma de reciclagem, até então inédita. Neste caso, o autor espanhol troca a companhia imediata dos grandes filósofos, para acercar-se de um ícone pop, Andy Warhol, e do modo de morar ilustrado pela instituição de sua Factory, grande e polifônico ateliê das artes dos anos 1960, situado, mais exatamente, no número 231, Rua 47 Leste, fazendo esquina com a Terceira Avenida, em Nova Iorque.
Não existe, ao menos em superfície, uma relação urgente e unívoca entre a arte − em si mesma, uma metáfora crítica ao consumo − de Warhol, conhecido principalmente por quadros que reproduzem seqüências de latas de sopa Campbell ou de um fotograma de Marilyn Monroe, e a alusão metafórica de Ábalos. Antes, é o ambiente como um todo, interior e exterior ao espaço da Factory, que interessa ao arquiteto, como encruzilhada genética que institui um lugar que é um misto de comuna socialista e do contingente lúdico que mistura elementos do anarquismo, do consumismo extremado, e do niilismo emergente da cultura norte-americana dos anos 1960.
Àquela época, de alguma forma, por alguma razão, todos os caminhos (claro, todos os que interessavam a uma geração inquieta, perdida, em busca de um paradigma alternativo ao american way… e suas trilhas subsidiárias) levavam ao grande portão do edifício da Rua 47 Leste, direcionando ao imenso elevador industrial, introduzindo o percorredor num amplo salão com paredes, teto, piso e mobiliário, predominantemente prateados.
Ábalos encontra neste endereço, de fato, duas gêneses essenciais para a compreensão da modernidade: numa mesa, dialogam Marx e Freud – juntos, materialismo e psicanálise −; em outra, embalados pela trilha sonora do Velvet Underground, os filhos da contracultura estão em gestação. Esses novos sujeitos da História tomarão, primeiramente Nova Iorque, e depois todas as grandes metrópoles, reciclando lugares sórdidos e abandonados, redescobrindo a urbanidade tão querida por Jane Jacobs em Death and life of great american cities, instituindo, depois da modernidade maquínica e positivista, um novo tipo arquitetônico, que Ábalos identifica como o loft nova-iorquino.
Originalmente, o loft é um espaço amplo e contínuo, um tipo de "galpão" abandonado pelo êxodo das atividades industriais, que se reincorpora à vida urbana como morada de jovens profissionais bem sucedidos, desejosos de uma vizinhança próxima ao Distrito Central de Negócios.
Na micro-escala, estes grandes armazéns são reconfigurados como luxuosos apartamentos, resolvidos como espaços contínuos, sem compartimentos, conformando espaços multivivência, amiúde mesclando a residência ao trabalho:
O loft será basicamente uma casa-ateliê de grande superfície e grande volume de ar, normalmente alugada por preços muito baixos, instalada em um espaço industrial ou um armazém geralmente do final do século XIX, situado em um lugar central, deprimido economicamente, no qual, em princípio, se fundem, sem solução de continuidade, o âmbito privado e profissional.
Na macro-escala, o loft protagoniza um processo que redefine o destino de extensos territórios urbanos, deprimidos e decadentes pelo ocaso e pela migração acelerada de certas atividades produtivas. A Ecologia Humana clássica da Escola de Chicago, desde as primeiras décadas do século XX, já havia identificado os processos de sucessão ecológica no espaço urbano. Agora, o fenômeno trata de uma nova forma de sucessão − rapidamente denominada gentrificação − que responde pela retomada residencial de territórios, pela reincorporação e revalorização de lugares centrais.
Na escala intermediária − meia-escala que define o espaço da rua − o processo produz, também, uma recuperação incidental das práticas cotidianas: rua como espaço, não apenas de circulação, como no paradigma positivista do racionalismo corbusiano, mas, sobretudo, de encontro, de assimilação do Outro, de celebração do Urbano. A rua yuppie, no limite ideal, é uma rua vinte-e-quatro-horas vivida, com cafés, bancas de flores e frutas, drugstores e lan-houses. Melhor para monsieur Hulot e seu sobrinho, do que para o casal Arpel, ao menos em relação ao espaço construído, multifuncional e polifônico, desta cidade em mutação.
Ilustrações:
1. Futurista #9, composição digital 2012;
2. 231, 47th Street East, New York,
3. Warhol no interior da Factory,
4. Fábrica, composição digital, 2012.
Citações livremente traduzidas.
Comentários
Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor deste site sobre as matérias em questão.
Deixe o seu comentário
O e-mail é obrigatório mas não será mostrado no site ou cedido a terceiros. Seja cordial e educado. Comentários ofensivos ou pouco dignos não serão publicados.