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ORDINÁRIA AMBIGUIDADE

em arquiteturas por em 10 de set de 2012 às 02:41

Segunda estação: somos o que podemos ser no tempo que podemos ter, ou a morada existencialista.

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O segundo endereço que Ábalos nos convida a visitar é o da casa existencialista, lugar onde o autor aprofunda o reconhecimento da simetria arquitetura-filosofia, ao identificá-la com o pensamento de Heidegger.

Trata-se, como arquétipo, de uma cabana rústica de três cômodos − a cozinha, que é, ao mesmo tempo, sala de estar, o quarto de dormir, e um estúdio onde o pensador se recolhe − com a potência extraordinária de nos lançar ao centro de uma reflexão fenomenológica.

Habitar em Heidegger não é um ato simples ou sem substância; seu pensamento existencial está estreitamente vinculado, especialmente a partir da “Carta sobre o humanismo”, escrita em 1947, ao tema metafórico da casa, apoderando-se de seu próprio sistema filosófico até identificar-se com ele: “ A linguagem é a casa do Ser. Em seu lar, o homem habita.” A casa servirá ao desenvolvimento de uma retórica arquitetônica capaz de deslocar-se à linguagem da filosofia, um desenvolvimento em que a filosofia chegará a ser um pensamento sobre o habitar.


Assim, pois, para Ábalos, o arquétipo da cabana existencialista, passando pela vigência contemporânea do pensamento heiddegeriano, trata de uma espécie de reconciliação com a "memória": uma arquitetura que expressa a "terna nostalgia" com a qual outro filósofo, Jean Jacques Rousseau, tratou de impregnar, como essência, a alma de seu viajante solitário; e que Colin Rowe e Fred Koetter, grandes analistas da arquitetura tanto como exímios na leitura dos clássicos, em Collage City, farão opor à condição profética da arquitetura moderna.

A cabana, na contemporaneidade, transmuta-se em incontáveis casas, apropriadas para dar “vida” ao Ser heiddegeriano. Uma delas, em especial, a casa de Vanna Venturi (1962), desenhada por seu filho Robert, o iconófilo da arquitetura pop-ordinária norte-americana, reescreve a cabana através dos espaços que são expressão, tanto quanto dos traços do arquiteto, dos atos de morar daquela simpática senhora, imortalizada pela fotografia de Rollin La France, que a mostra sentada na varada de sua casa em Filadélfia. A imagem tornou-se um símbolo da arquitetura pós-moderna.

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Este edifício reconhece complexidades e contradições: é, ao mesmo tempo, complexo e simples, aberto e fechado, grande e pequeno; sua ordem acomoda os elementos genéricos desta casa em particular. Dentro e fora, é uma pequena casa à macro-escala. A principal razão para a grande escala é contrabalançar a complexidade. (...) A macro-escala no pequeno edifício realiza tensão em vez de ansiedade.
(Venturi, Rauch, Scott Brown. Learning from Las Vegas)


Casa que é manifesto de intencionalidade: arquitetura que voluntariamente expressa ambigüidade para acomodar suas contradições também deliberadas. Em planta, a simetria imperfeita, que o arquiteto refere como quase palladiana; na elevação anterior, o frontão partido, que duplica a escala do acesso; na fachada posterior, o arco abatido que dá forma à janela recuada em relação ao plano rígido da fachada. Tudo implica num sistema que se move, pendular, entre o tipo ordinário e o edifício excepcional. Em seu Suave manifesto em favor de uma arquitetura equívoca, Robert Venturi declara:

Prefiro os elementos híbridos aos “puros”, os comprometidos aos “limpos”, os distorcidos aos “retos”, os ambíguos aos “articulados”, os tergiversantes, às vezes impessoais, aos aborrecidos, ás vezes “interessantes”, os convencionais aos “desenhados”, os integradores aos “excludentes”, os redundantes aos simples, os reminiscentes, às vezes inovadores, os irregulares e equivocados aos diretos e claros. Defendo a vitalidade confusa, frente à unidade transparente. Aceito a falta de lógica e proclamo a dualidade.
(Robert Venturi, Suave manifesto em favor de uma arquitetura equívoca)

À primeira vista, parece haver uma contradição irreconciliável entre a “simplicidade” da cabana que serve de refúgio ao filósofo, e a complexidade “ordinária” que Venturi impõe, seja no ato de desenho dos edifícios que realiza, seja pelas palavras que reúne para assinalar sua ideologia (ideologia, porque seu manifesto, para além da arquitetura, revela uma forma de ver e viver o mundo).

Ábalos, todavia, demonstra que esta possível oposição é apenas aparente. É preciso recordar, pois, o continente ético da Carta sobre o humanismo. Ora, a cabana existencialista é um ato de resistência. O filósofo (e, neste caso, também o arquiteto) resiste à barbárie; e o bárbaro pode vestir a pele da razão.

Desde esta perspectiva, a casa existencialista é própria ao recolhimento interior, e mantém, neste sentido, um contato desconfiado com todo o espaço exterior. Como conceito de morar e técnica projetual, essa casa guarda a tarefa de preservar o Ser da voragem do progresso e da ordem positivista. Ela existe como condição de resistência a uma ideologia que busca a uniformidade no espaço e a unicidade do pensamento. Não se trata, no entanto, de uma casa antimoderna: a casa existencialista é a expressão de uma modernidade que exige uma continuidade e uma conseqüência em face à História.

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Ilustrações: 1. Ariadne passou por aqui, desenho, 2012; 2. Casa de Vanna Venturi, fotografia de Rollin La France, 1964; 3. Abrigo (noite), desenho modificado digitalmente, 2012. Citações livremente traduzidas.

 

Artigo da autoria de Leandro Andrade.
Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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