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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

A CASA NOVA DO IMPERADOR

Sexta estação: era uma casa muito engraçada, não tinha prumo, não tinha escala…


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Em um panorama temporal que impõe uma nova perspectiva – Paul Virilio dirá dromocrática – a partir das novas tecnologias informacionais e das novas patologias que emergem a sua esteira, como um tipo de fantasmagoria emergente das relações, contemporaneamente tão celebradas, entre arquitetura e filosofia, uma distinta técnica projetual tomará o lugar de vanguarda, realizando um até então improvável estilhaçamento dos limites constitutivos do edifício.

Penso haver um forte vínculo entre o quinto e o sexto arquétipos destacados por Iñaki Ábalos: trata-se agora, indo além da dissolução da casa como lugar social tradicional, matéria da quinta narrativa, da desconstrução da casa, que, com a sexta crônica de Ábalos, toma formas nômades, fugidias, representativas da imaterialidade do virtual.

A leitura do texto bem urdido de Ábalos leva o leitor a compreender a tríplice imagem que institui a sexta metáfora − a cabana, o parasita e o nômade − como componentes em fuga, definindo a excentricidade do tema. A condição desconstrutivista que subjaz ao plano espacial, ao mesmo tempo, sinaliza o caminho para a reflexão filosófica e seduz uma geração de arquitetos contemporâneos em torno das idéias de Frank Gehry e Peter Eisenman, principalmente. Este último, arquiteto americano que talvez obtenha a mais literal das transposições da filosofia de Derrida ao campo espacial, explicita as componentes de tensão de sua arquitetura:

Não estou falando de fazer casas feias; o que digo é: suponhamos que fazemos uma casa que não é simplesmente um “lar feliz”, que está no limite de ser misteriosa, que contém o sublime, um elemento de incerteza e, talvez, de terror. Algo que está além da beleza. (Peter Eisenman)

Cabe, aqui, uma visita breve à casa que Frank Gehry construiu para si mesmo, em Santa Mônica, Los Angeles, entre 1977 e 1978. Pois uma das geniais analogias construídas por Ábalos conecta essa casa tornada ícone da arquitetura norte-americana do último quartel do século XX e a cinematografia ingênua de Buster Keaton:

(…) Em One week, um dos primeiros curtas que Buster rodou como protagonista (1920), ele tentará com grandes esforços, erguer a casa pré-fabricada cujos componentes lhe foram enviados por trem, como presente de um antigo pretendente de sua mulher. Junto aos elementos construtivos, chega um manual de instruções, mas, por obra do referido pretendente, os códigos de identificação dos materiais enviados foram alterados e não coincidem com os do manual. E, ainda que logo comece a se fazer evidente que há algum erro, Keaton não tem alternativas, nenhum outro modelo de pensamento para opor ao do manual, e cegamente procederá a uma construção maquínica, na qual o resultado final desvendará uma cruel metáfora quanto ao destino do casal e da família institucional dos nossos dias. Finalmente, após diferentes peripécias, a casa acabará arrasada pelo mesmo trem que a havia trazido.

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Acima, a casa de Gehry; abaixo, a casa de Keaton. Na seqüência capturada de One week, procurei destacar as “fases” da desconstrução: (i) a casa, construída conforme as “instruções”; (ii) a casa, após a tempestade; (iii) a casa, construída no lote errado (66 ou 99?), precisa ser deslocada; finalmente, o trem aproxima-se, sinalizando a destruição final. one week - my capture - sequence.jpg

Se, com as desventuras de Keaton, a metáfora da desconstrução toma uma forma explícita, abrigando tanto um teatro de profecia quanto de crueldade, quem será finalmente o habitante desta morada insólita, destinada à transitoriedade e a confusão intencional de papéis e componentes?

Vamos agora visitar uma casa construída em um meio virtual para um habitante em potência, o sujeito cuja desconstrução tem sido o objeto importante de uma parte do pensamento contemporâneo, desde Foucault e seu polêmico enunciado sobre a morte do sujeito, de óbvios ecos nietzschianos, até Deleuze e Derrida. Um sujeito pós-estruturalista ou pós-humanista que gravita em torno de um grande número de experimentos levados a cabo em ambientes acadêmicos americanos e europeus nas duas últimas décadas do século XX, até adquirir uma influente presença virtual.

Ábalos expõe ao leitor o sujeito da desconstrução. Com a evidência da filiação filosófica da casa desconstrutivista, é possível reler substancial parte da produção contemporânea em arquitetura, girando em torno das idéias do pensamento filosófico francês predominante na segunda metade do século XX − Foucault+Derrida+Deleuze, onde a ordem dos fatores assinala diferentes somas possíveis − e ganhando corporeidade e espessura com o trabalho de arquitetos dos dois lados do Atlântico. Neste sentido, o autor espanhol, aponta uma perspectiva em que, partindo da “crise do sujeito”, observam-se marcas esquizóides como reações à violência − do ambiente privado ao ambiente público − normalizada pela sociedade e pelo Estado, quando já não parece possível "distinguir o normal do alucinatório, incapaz de construir totalidades coerentes".

Eis, também, o que se lê, na superfície e nas entrelinhas dos ensaios teóricos mais atuais sobre arquitetura, escritos na verdade por filósofos, como em Constructions, de John Rajchman, onde tudo é luz e dobradura: implicação sobre si mesmo; ou, não menos surpreendente, em Architecture from the outside, de Elizabeth Grosz, que tem prefácio de Eisenman, e vem recomendado por Bernard Tschumi, onde se relaciona o corpo, físico e social, ao espaço e ao tempo da arquitetura. Arquitetura entre espaços, entre o real e o virtual, alternando sentidos.

Em relação a tudo isso, em meu próprio espaço de interpretação, eu penso insistentemente na dramaturgia de Jean Genet, quando ele descreve seu próprio e singular projeto literário:

Quero realizar-me no mais raro dos destinos. Tenho apenas uma tênue noção do que possa vir a ser. Quero que tenha uma curva graciosa, ligeiramente inclinada para a noite, mas de uma beleza nunca vista, belo por causa do perigo que o ameaça, que o oprime, que o assolapa. Oh, deixai-me ser somente a beleza pura! Irei depressa ou devagar, mas desafiarei o que tiver de ser desafiado. (Jean Genet)

Desafiar o que tiver de ser desafiado! Isto inclui corromper o primado dos ângulos retos, dos planos horizontal e vertical, da própria lei da gravidade. Sugere, sobretudo, uma arquitetura que, como forma, se autonomiza cada vez mais do contexto para realizar-se (quase) exclusivamente como conceito.

A arquitetura moderna de Walter Gropius, Mies van der Rohe e Le Corbusier – descontextualizada, internacionalizada, universalizada –, que a casa positivista representa, agora parece o esboço ingênuo de um ideal nebuloso. A atualidade parece indicar formas mais radicais de “dissolução” da arquitetura e da cidade, como atesta o êxito desconstrutivista de arquitetos como Bernard Tschumi, Peter Eisenman, Daniel Libeskind, Frank Gehry ou Coop Himemnblau, e a outorga do Prêmio Pritzer 2005 à Zaha Hadid, iraquiana radicada em Londres, consolidando a mensagem endereçada aos consumidores de uma "nova arquitetura do imperador".

Recordará o leitor a conhecida fábula em que um governante vaidoso despende os recursos do império para satisfazer seu apreço por trajes vistosos, invariavelmente exibidos aos súditos descontentes. Eis que, como conseqüência de seu egotismo e frivolidade, termina enganado por falsos costureiros que lhe prometem a mais impressionante das indumentárias, aquela só poderia ser admirada por pessoas inteligentes. Por isso, o imperador será, finalmente, desmascarado pelo olhar da criança que recusa o assujeitamento e revela, ao povo passivo, a nudez do soberano.

De fato, é através da analogia com o conto infantil, que Salingaros e Mehaffy encontram argumentos para elaborar sua crítica ao desconstrutivismo, quando afirmam, sem meias palavras (na verdade, repetem o que, duas décadas antes, já havia dito Christopher Alexander), que apenas os próprios arquitetos e certas elites comprometidas com a vanguarda − qualquer vanguarda! − parecem apreciar as dissonâncias estruturais e geométricas do desconstrutivismo. Como reação, Salingaros e Mehaffy propõem a necessidade de um "reconstrutivismo": uma reconexão com as escalas da vida. O exemplo sobre o qual se debruçam é sumamente emblemático: ao horror dos episódios do setembro-onze, os arquitetos preconizam, como cura, sua própria visão aterradora:

Quase todas as propostas para a reconstrução do World Trade Center surgem de um movimento atualmente em moda, conhecido como “Deconstrutivismo”. Como fica implícito em seu nome, este movimento fratura as formas em fragmentos denteados, desequilibrados. A intenção declarada é criar uma nova arquitetura que seja intrépida e inovadora, excitante e provocativa. Mas a reação do público – contrariamente ao que os arquitetos e alguns críticos dizem – tem sido principalmente enxergar os resultados com temor. O público se pergunta por que os arquitetos persistem em desenhar edifícios tão feios. São, talvez, os não arquitetos, tão ignorantes e pouco sofisticados para não reconhecer o novo traje do império? (Salingaros, Mehaffy, El nuevo traje del emperador)

Mas, como integrante do continente da quinta narrativa, Ábalos inclui ainda, ao lado da expressão desconstrutivista, a condição nômade, elaborada originalmente por Christian Girard, sugerindo uma simetria entre arquitetura e práticas sociais. E ao nômade, penso, não se pode imputar, univocamente, a opção pela desconstrução. Pelo contrário, sua condição dinâmica, sua necessidade de movimento, implica numa flexibilidade − de arquitetura e de pontos de vista − que as obras consagradas do desconstrutivismo parecem não possuir, conquanto, já na crítica de Hanson e Salingaros, em consideração à obra de Daniel Libeskind, melhor atendem a um conceito de geometria que evoca sensações de morte. Uma "geometria da morte" inverte as propriedades de estrutura viva, suprimindo, ao mesmo tempo, os mecanismos pelos quais os seres humanos se conectam ao mundo. O primeiro componente reconhece a morte fora de nós - suas regras estão resumidas na ausência da complexidade organizada encontrada em organismos, e na presença de desorganização estrutural que marca a sua morte e decomposição. (…) Uma estrutura alienígena nos ameaça, deixando-nos ansiosos. Tais estruturas exercem um fascínio inegável − este é o fascínio que as crianças e adolescentes têm em relação às coisas que os assustam. O segundo componente da "geometria da morte" reconhece a morte dentro de nós, indicando (ou imitando) uma falha dos nossos mecanismos cognitivos, que é característica do início da nossa própria morte. (Hanson, Salingaros, Death, life, and Libeskind.)

Em sua narrativa, Ábalos não se opõe, pelo contrário, ao ponto de vista de Hanson e Salingaros. O teórico espanhol sugere, de fato, a analogia entre a expressão e a materialidade deconstrutivista e formas parasitas que se impõem no interior de sistemas de pensamento (na filosofia, na arquitetura), entidades que são, pois, destinadas à destruição de uma ordem:

Quando Derrida descreve sua atividade “deconstrutora” com analogias arquitetônicas, o faz basicamente sobre duas figuras: a figura do edifício ou a estrutura da metafísica, e a da figura da “parasita”, que representa o objeto e o sujeito de seu pensamento. (…) A parasita, entendida como modelo, é o intruso que se instala na vida de terceiros – as outras formas de pensamento – pondo em evidência, somente por sua impertinente presença, a construção d e uma complexa trama de leis e convenções secretas, não formuladas, cotidianas, que tece a rede que compõe a segurança e os mecanismos de defesa privados. O conjunto de normas com as quais se organiza a violência no âmbito doméstico e, através dela, por extensão ou oposição, a violência pública.

Ao nômade, ao contrário, se deve implicar uma estratégia simbiótica em relação ao contexto ao qual adere provisória e flexivelmente. Ábalos, emprestando a analogia inventada pelo arquiteto japonês Toyo Ito, imputa à garota nômade que trafega através de Tóquio, megalópole do consumo tanto quanto da tradição um rol de sujeito anônimo, indiferenciado, e neste sentido, diferente das personagens que povoam as narrativas anteriores do comentarista espanhol. Se esta personagem epistêmica solapa inconscientemente o edifício milenar da tradição, o faz apenas porque as forças e as formas construídas do capitalismo assim o requerem: ela é o motor, a motivação essencial, do design moderno. E corporações gigantescas, transnacionais, trabalham para servi-la.

Por outro lado, tampouco se poderá implicar absoluta invenção ao tipo humano representado pela garota nômade, que atualiza o beatnik, imortalizado por Jack Kerouac em On the Road; o hippie representado na crônica de Tom Wolfe, The Electric Kool-Aid Acid Test, para a década de 1960; e o punk que é o tipo emblemático dos anos 1980, visceralmente descrito por Legs McNeil e Gillian McCain, em Please Kill Me. Todos, em diferentes medidas, nômades, rejeitando a sujeição à partícula pela sensação da onda.

A arquitetura desenhada por Toyo Ito para esta personagem é, paradoxalmente, apenas uma cabana, que ocupa um mínimo de espaço, mas que é, todavia, preenchido plenamente da energia necessária à operação dos dispositivos tecnológicos contemporâneos; uma tenda de acampamento, atualizada para o consumo do efêmero: para Ábalos, uma vida no campo no centro da metrópole. A garota do Tóquio, portanto, nada possui, posto que tudo consome. E Tóquio não é mais do que uma borrada analogia, em torno de todo lugar, qualquer lugar da globalização.

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Ilustrações: 1. Alegoria DeConstruto, desenho, 2012; 2. Buster Keaton, One Week, fotogramas, 1920; 3. Frank Gehry, sua casa em Santa Monica (1977-78). http://historiasdecasas.blogspot.com.br 4. Torre A, composição digital a partir de textura de madeira, 2012. Citações livremente traduzidas.


Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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