literarquiteturas

percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

EPÍLOGO: OUTRAS CASAS, TRADUÇÕES E TRAIÇÕES

Traduzir pode ser trair, nunca petrificar.
(Haroldo de Campos)


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Foi o que disse Haroldo de Campos, enquanto recriava os mais impossíveis poemas de Ezra Pound. O objeto (e o objetivo) das literarquiteturas está permeado por esta perspectiva: o que pretendo é, justamente, explorar o in-between das relações arquitetura / literatura / artes visuais / e o que mais possa aproximar-se para um diálogo com / fusão.

Em outras palavras, traduções entre linguagens, processos, paisagens – traduções sujeitas a eventuais, intencionais ou não, traições…

Mas as sete estações que compõem o percurso realizado por Iñaki Ábalos, em seu exame da casa moderna, em sua articulação, em especial, com a filosofia, definem com mais exatidão o postulado por Haroldo de Campos.

Assim, da casa de Zaratustra ao mergulho de Hockney (na piscina da casa do pragmatismo), foi possível conhecer, na paisagem, a cabana de Heidegger, a fábrica de Warhol, o antagonismo das moradas de Monsieur Hulot e a família Arpel, além da fenomenologia de Merleau-Ponty e de Gaston Bachelard (expressa nas casas de Picasso e Neruda), e a dis/solução de Derrida (nômades, parasitas), conformando uma geografia de imaginários (lugares, encontros, diálogos) que se estende em todas as direções e ocupa todos os confins.

Neste espírito, na busca de minhas próprias traduções, arrisquei vários desenhos para ilustrar os passeios de Iñaki Ábalos, e encontrei outros, mais antigos, que pareciam se encaixar no propósito. Eles estão, aqui e ali, inseridos nas nove crônicas que formam este ensaio. Eis um exercício que pretendo realizar umas tantas vezes: o vínculo mais imediato entre a palavra e a imagem. Em meio a minha tarefa de traduttore, traditore, talvez este movimento entre linguagens seja o mais importante na conceituação das literarquiteturas. Talvez mais importante mesmo que as idéias que, aqui e ali, me arrisco enunciar.

pragmahouse pq.jpg De volta à La buena vida, é preciso que se diga, do texto de Iñaki Ábalos, que há rigor e curiosidade em fartas doses, como esperaria um freireano (se o problema fosse pedagógico) ou um poundeano (se a questão fosse poesia). Mas, talvez, o objetivo de Ábalos seja justamente este: La buena vida sugere uma pedagogia do projeto de arquitetura através de um olhar poético (ou, talvez, poiético), também político (na construção de uma visão de polis), cuja justaposição aponta o conceitual. Em suma, o texto do arquiteto espanhol propõe (ou melhor, penso eu que propõe) uma arquitetura e uma cidade conceituais. Daí sua proximidade com a filosofia e com os filósofos: fazer arquitetura através de conceitos exige, talvez, que o arquiteto seja amigo dos amigos dos conceitos.

Sete passeios inesquecíveis, as interpretações de Ábalos formam, no conjunto, uma ferramenta para pensar os caminhos variados que a arquitetura encontrou para traduzir-se em metáfora. Ou vice-versa: as formas metafóricas com capacidade de resposta às demandas do espaço, às insinuações da arte, à curiosidade das ciências, à depuração filosófica. Ao modo como interpreto La buena vida, a conclusão que se chega é simples: há diferentes formas de realizar a modernidade no âmbito dos espaços de habitar. A velha e boa frase do velho e bom Marx – Tudo o que é sólido desmancha no ar − que Marshall Berman emprestou para dar título ao seu livro sobre a modernidade, atinge o alvo, penso, também na reflexão sobre arquitetura, se o que é sólido remete à tradição, e o desmanchar sugere desconstrução e reconstrução das formas de morar, ou melhor, uma destruição criadora, como conceito cunhado pelo velho e bom Cortázar em sua teoria do túnel.

(Misturar Marx, Berman e Cortázar em um único parágrafo pode ser um exagero, mas, como dizem, se exagero, é para reforçar o argumento: todos são “velhos e bons”, mas em diferentes medidas, e com diferentes acentos. E, num certo sentido, são figuras de extraordinária juventude.)

De fato, recorrendo à tradição, as “sete estações” de Ábalos exploram, sobretudo quando apontam mais diretamente à mitologia da arquitetura moderna e além dela – em evolução, Le Corbusier, Mies van der Rohe, Robert Venturi, Peter Eisenman, como nomes de referência −, imagens que representam comportamentos que destilam conceitos que cristalizam tipos.

O homem é um animal que classifica – eu costumo dizer aos estudantes de arquitetura e urbanismo, como referência às hierarquias e às escalas que são próprias do ofício e, sobretudo, da disciplina; o arquiteto, ele próprio, antes de desenhador, classificador implacável. Daí à tipologia, o estudo dos tipos, palavra que, apropriada de forma inconseqüente, fez confundir o estudo com seu próprio objeto.

Assim, o livro de Ábalos define “tipologias”, inteligentemente denominadas técnicas projetuais. Ábalos não ensina a construir casas modernas; ensina a reconhecê-las, apreciá-las e, eventualmente, escolhê-las em um variado catálogo. Talvez se possa dizer que ensina, também, aos arquitetos, um modo de reconhecerem a si mesmos na pletora da Arquitetura. Em certa medida, as “técnicas” revelam-se uma espécie de truque, uma manipulação em torno de repertórios prolificamente ensinados nas escolas de arquitetura. Um “vale-tudo” que alimenta o ArchDaily com uma fonte aparentemente inesgotável de boas e más intenções.

Neste vasto leque de possíveis, impossível não reconhecer, uma vez mais, a tensão entre um teatro de memória e um teatro de profecia, analogias (que ganham potência de categorias) construídas por Colin Rowe e Fred Koetter para visibilizar a cidade colagem. Assim, se a profecia se anuncia através de Mies, Le Corbusier e Libeskind, por exemplo; a memória resiste através de Neruda e Picasso e, sobretudo, da figura de Hulot. Less is a bore, como disse Robert Venturi, e a utopia possível dos arquitetos (atualizada em eutopia necessária) é, entre outras coisas, tudo isso: toda essa diversidade, esta diversa modernidade!

Assim, na leitura que faço de La buena vida, o mais importante é perceber a variedade dos possíveis; e apreender, da variedade, a condição moderna na arquitetura. Em outras palavras, o livro desfaz a confusão entre modernidade e modernismo. Então, como conclusão, outra vez Cortázar quando ele diz que “quando se fala em confusão, o que quase sempre há são confusos”. E, sim, estou pensando, como arquiteto, particularmente, nos arquitetos.

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Ilustrações: Arquitetura sintética, desenho, 2012; Casa para David Hockney, desenho, 2012; Torre B, composição digital, 2012. Citações livremente traduzidas.

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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