literarquiteturas

percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

Kosuthmania

Nos anos 1950, o expressionismo abstrato de Pollock e Rothko, entre tantos, fundou uma arte moderna genuinamente american way of life. Mas Joseph Kosuth imaginava outra coisa: arte a partir de idéias, conceitos antes do que formas. E assim é se assim vos parecer.

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Kosuth!

Eu não o conhecia. Confesso: tantos anos colecionando arquiteturas e arquitetos, e não sobrava tempo para olhar para outras direções.

Mentira: não faltava tempo, mas sim humildade.

A dimensão da ignorância é diretamente proporcional à riqueza da descoberta. Descoberta de imagens, mas, antes, descoberta da importância do artista, para além da arte, para uma “estética” do entorno contemporâneo que habitamos.

Um sem número de livros e artigos dimensiona (quantifica) o valor do artista aos olhos dos críticos. Uma coleção de imagens disponíveis na rede torna quântica a descoberta de sua obra. Fazer escolhas, entre tantas imagens, é um exercício muitíssimo difícil. Mas de imediato, a junção das palavras ao campo de representação da arte me seduz por motivos óbvios.

Pura pretensão, admito, mas me descubro “identificado” com a obra de Kosuth: a coisa das palavras. Essa identificação me leva de volta ao comentário sobre o verbo insinuar, que é parte das crônicas finais da minha tese de doutorado ( 1 ), e que teve, como subproduto mais ou menos legítimo, o projeto  insinuar-te que está paralisado mas não completamente abandonado.

Assim, na justificativa desta arrogância revelada, reproduzo o que eu pensava, àquela oportunidade:

(…) insinuar, em meu modo de ler, é um dos verbos mais provocativos (um dos mais "perigosos") da língua portuguesa, porquanto significa:

[Do latim insinuare.] Introduzir, fazer penetrar, no ânimo, no coração; persuadir. 2. Dar a entender de modo sutil ou indireto. 3. Incutir o conhecimento de; pretender provar. 4. Registrar em escritura pública. 5. Introduzir, fazer penetrar, no ânimo, no coração. 6. Introduzir sutilmente ou destramente. 7. Dar a entender de maneira sutil ou indireta. 8. Dar a entender algo de modo sutil ou indireto. 9. Introduzir-se sutilmente, com habilidade ou dissimulação. 10. Penetrar nos interstícios, ou por eles. 11. Captar a amizade ou a benevolência de alguém. (Aurélio, 1999)  O verbo (isto é, o processo) traz a precisão de fazer penetrar (a imagem, o conceito) no coração, e as implicações desta definição (para um sujeito apaixonado, por exemplo) poderiam ser reveladoras quanto a sua própria condição.. Mas, ainda assim, penso que, aos filólogos, faltou agregar que insinuar poderia sugerir simplesmente o processo de fazer sinuoso o caminho, fazendo da passagem, paisagem, e do passageiro, paisano, que é o ser que habita a paisagem. E com isso expulsar, do conceito, a linearidade, pois para ver a paisagem é preciso mover o olhar.

Pode ser que o vínculo de relação que enxergo aqui seja somente fruto da minha imaginação, uma vontade que é mais uma escapadela de exagerada pretensão. Mas, talvez, faça algum sentido: as palavras prestam-se para “fazer arte”, pois, se bem ditas, penetram no coração. Arte e palavras, arte com palavras, então, prestam-se à insinuação.

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One and three Saws (1965); One and three Chairs (1965); Thing (1968); Art as Idea, Present, four etymological parts (1968)

Mas dizer o que das imagens escolhidas, entre muitas, tentando representar a obra de Kosuth? A associação entre objeto, imagem e palavra conduz (se bem interpreto) a uma forma de supersignificação, no sentido de um reforço cognitivo entre a palavra e a “coisa”.

Perambulação platônica: a “coisa” exemplificada através da presença “real” do objeto, o simulacro através da fotografia, a representação decodificada através da escrita, conformando uma tripla existência da coisa “em si”. Um serrote é um serrote é um serrote. Uma cadeira é uma cadeira é uma cadeira.

No plano conceitual – tanto no sentido da arte conceitual, como definida por Sol LeWitt,, quanto na perspectiva de uma brincadeira “ontológica” – o artista estabelece, através da obra, uma classe, representativa, por exemplo, de todos os serrotes do mundo, ou de todas as cadeiras do mundo. Enquanto objetos como serrotes e cadeiras possam atender aos requisitos da coisa, da imagem e das palavras, simultaneamente, a obra de Kosuth permanece com validez no tempo presente. Ou não: tudo é aleatoriedade na seqüência, e o que importa não é o serrote ou a cadeira mas a ordem expressa entre os componentes. Ou a vizinhanças dos meios. Ou as distâncias entre formas. A realidade é isso, ou nada disso, e uma coisa pode ser mil coisas, conforme o ponto de vista ou a fala da língua. Mas há uma evidente ruptura com a imaginação ordinária sobre a obra de arte: não há pintura ou escultura, e quanto às palavras, sequer uma rima que pontue um verso.

Mas, confesso outra vez, o que realmente me encanta, pelo que insinuam, são obras como Information room (1970) e The phenomenon of the library (2006), por exemplo. O que, a quem acompanha as literarquiteturas, parecerá óbvio: pelo espaço, pela insinuação da “arquitetura” que as contém. Não é fácil desprender-se de certos vícios.

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Information room (1970); the phenomenon of the library (2006)

Certamente, a arquitetura virtualizada pela composição das coisas no espaço, fundando um lugar que ganha significado, prende meu olhar, e mais: sugere-me um olhar em torno de mim mesmo, na possibilidade de descobrir-me dentro da obra de Kosuth. Mas não é apenas isso, e aqui arrisco mais um passo em minha interpretação: nos dois casos mencionados, o que dá vida às respectivas composições é um amontoado de livros: a justaposição das muitas obras dentro da obra maior. O espaço, a mobília, o arranjos dos livros pode variar. A obra é pensada como interação (o que, imagino, seria algo muitíssimo subversivo em 1970). Mas os livros permanecem na essência, formam o ambiente, isto é, dão corpo ao conceito. Um mise en abyme conceitual, e me pergunto sobre a intencionalidade do artista.

A este tipo de “coisa” dá-se o nome (a meu ver, impreciso, propositadamente) de instalação que significa, por sua vez, conforme o Houaiss:

1. Colocação dos objetos necessários a determinado trabalho ou empreendimento, incluindo-se a conexão de aparelhos com a rede elétrica… 2. Mas também… conjunto de atos pelos quais se inaugura órgão do poder público ou de entidade particular; inauguração, abertura… 3. Mas também, finalmente… obra de arte que consiste em construção ou empilhamento de materiais, permanente ou temporário, em que o espectador pode participar, manipulando-a, ou, sendo, às vezes, de tamanho tão grande, que o espectador pode nela entrar.

A questão que subjaz, repentina, é: haverá, no espaço-tempo entre as duas obras (observe-se as datas das diferentes realizações) , uma cronologia implicando em certa evolução? Ou, outra vez, o conceito se aciona como num jogo de dados e o aleatório é outra forma de escrever “infinito”?

Brincar desse empilhamento parece coisa divertida, mas se me pego tentado a fazê-lo seria apenas dejà-vu. O valor da obra, então, não está apenas em sua proposição no espaço mas também no tempo. Mas, então, por que falar nessas instalações de Kosuth?

Em um e outro conjunto de imagens/obras, transparece (o que para mim parece) uma proposta distinta quanto à relação entre o artista e seu público. Trata-se, se bem compreendo, de uma vontade deliberada de provocar ruído entre transmissão e recepção.

Neste sentido (se me permito cruzar cercas disciplinares) a obra de Kosuth se revela cibernética, isto é, fundada a partir da informação e do controle sobre os objetos/entidades da informação. Sua arte é uma espécie de máquina que produz, num primeiro momento, um estranhamento, um desconcerto; em seguida, uma convergência, na compreensão da combinação entre linguagens como dispositivo elaborador do conceito (aqui idéia = conceito, ao menos provisoriamente).

Artistas não devem ser amados pelas formas, mas pela idéia por trás do trabalho −, ele afirma em uma entrevista à Folha de São Paulo (28/09/2010), durante a Bienal de 2010.

Então, para Kosuth:

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E assim é se assim vos parecer. Gostar de Kosuth implica em gostar de idéias que podem parecer fora do lugar, que procuram espaços para acontecer, que procuram um autor como personagens de Pirandello. Gostar de Kosuth é, também, gostar de respostas certas às perguntas erradas. E gostar de arte e duvidar da arte, simultânea, contemporânea, coerentemente.

(*) ANDRADE, L. M. V. (2011). Construções e Aberturas. Porto Alegre: PROPUR/UFRGS.

lustração de abertura: Rodrigo Capote/Folhapress


Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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