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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

ÚLTIMO PARÁGRAFO, OU O PRIMEIRO PARÁGRAFO DO RESTO DE NOSSAS VIDAS

Sobre "Uma nova história da arte", do escritor e pintor Julian Bell. E de como um livro pode mudar a vida de alguém. Ou de como um substantivo torna-se verbo. Ou de como fazer alguma coisa de alguma coisa.


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Será que a arte tem uma história? No nível em que descrevi as coisas, até que tem. Em certos momentos, enquanto escrevia, tive a impressão de vislumbrar todas as imagens estáticas reproduzidas nestas páginas reunindo-se como facetas de um único grande verbo, uma onda sempre variante da imaginação humana. Mas mesmo que a arte seja um tal verbo, esta não é sua gramática – é apenas um vislumbre de algumas maneiras gerais em que as circunstâncias sociais moldaram seu uso. O que é belo numa obra de arte, o que muda a vida do espectador, está muito além do alcance de tal descrição. Chegue mais perto, leia histórias da arte mais detalhadas. Melhor, aproxime-se da própria obra. Melhor ainda, crie alguma coisa. O que acontecer na arte daqui para a frente é com você. Julian Bell

Com estas palavras, Julian Bell encerra (encerra?) o seu livro Uma nova história da arte.

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Um livro viciante, cujas quase 500 páginas fornecem, não um percurso, mas muitas maneiras de traçar um percurso num lapso de tempo de 30.000 anos da história humana, contada pelo viés das artes visuais. Das cavernas à Dispersão…

Então, tomado de curiosidade, logo eu descubro que Bell não apenas (apenas?) escreve, mas também é um pintor extraordinário. E logo descubro que escreveu essa Uma nova história… entre 2004 e 2007. Três anos não me parece muito tempo para escrever um livro que contém tantos modos de encantamento brindados ao leitor. Então, quando escreve sobre Arte, estou convencido de que ele sabe do que está falando.

Passear pelas páginas do livro, linearmente, uma a uma, ou dando saltos no tempo, para frente ou para trás, acompanhado do texto exato de Bell (melhor ainda: bem traduzido para o português por Roger Maioli) nos leva a uma aventura de conhecimento como poucas. Mesmo assim, tendo feito, do livro, companhia constante por muitos dias e noites, não estava preparado para as palavras finais:

− O que acontece na arte daqui para a frente é com você!

Sim, Julian, cheque-mate! Um último parágrafo, ou o primeiro parágrafo do resto de nossas vidas! Daqui pra frente, é com a gente! Foram quinhentas páginas e 372 figuras que me mostraram, não apenas o que fica para trás desta linha no tempo, mas como construir o que vem a frente.

As palavras importam, e importam mais se reunidas em frases. Então, de repente, um parágrafo, um capítulo, um livro. Adicionam-se imagens, dialogando com a escrita. Adicionam-se referências precisas. Adicionam-se uma sala branca e uma poltrona gasta… uma luz confortável… A ecologia do escritor e/ou leitor, todavia, não pode ser reduzida a um algoritmo. Mas, é claro, sobre o livro já foram escritas muitas resenhas (falando bem ou não tão bem…), e este não é meu objetivo, pois que destaquei a passagem final do texto justamente para me deter em algumas idéias que estão ai implicadas.

A primeira “idéia”, roubada de Bell, sobre a qual desejo pensar, é a insinuação do grande verbo. Examinemos, então, Arte, com a ajuda do Houaiss, e imitando o jeito de Kosuth: arte -  Houaiss Kosuth frm.jpg Isso sem entrar nas locuções: arte abstrata, arte concreta, arte do marinheiro, dramática, figurativa… Arte pela arte… Artes aplicadas, cênicas, criativas, decorativas, plásticas… Por artes de berliques e berloques. Por artes do diabo!

Por isso, é muito fácil, natural até, apropriar-me da visagem de Bell − a imagem da onda sempre variante… − porque, em outros contextos, eu já havia tomado o par partícula/onda como metáfora para diferentes coisas/processos/contingências. Como neste hai-kaizinho, por exemplo:

− Eu, partícula… Você, pura onda… Entre nós a incerteza…

E por falar em incerteza, matéria da relação contingente entre artista e obra de arte (nas palavras de Robert Smithson), a sugestão de buscar outras histórias da arte, de aproximar-se da obra de arte, de arriscar-se a fazer alguma coisa, tudo isso expõe a generosidade de um autor que escreveu Uma… − e não A… − história, deixando prometido todo um campo de possíveis.

E, então, essa imagem de onda se faz teia, estendendo-se em todas as direções, exigindo do leitor/artista uma espécie de precisão gráfica. Como no grafo abaixo, gerado por uma ferramenta bacana, chamada Visual Thesaurus, infelizmente ainda não disponível para o português:

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Arte: em português, substantivo feminino (penso que não poderia ser diferente, sem sexismo nem cinismo, mas por sensibilidades). Mas a “pedra filosofal” de Julian Bell propõe fazer, da Arte, outra coisa, descoisificá-la, torná-la verbo, isto é, processo, movimento. Da partícula à onda!

Bell compreende, assim, se bem o interpreto, a arte como sistema: sistema gerador (o tal verbo) de coisas múltiplas, de múltiplas formas, de formas possíveis ou não. E convida o leitor a fazê-lo com a própria cabeça. Ou com as próprias mãos. Este é a idéia principal deste último/primeiro parágrafo aqui destacado. O autor (artista: escritor/pintor, como ele mesmo se define em um auto-retrato) convida-me (eu, leitor) a tornar-me artista. Porque, afinal, a partir de agora, o que acontece na arte é um problema meu.

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Gosto de verbos que fundam substantivos. Construir uma casa: eis um bom exemplo do que quero dizer. Assim, poder-se-ia ter, nos estudos da língua, a categoria dos verbos construtores: construir, fazer, projetar, escrever, desenhar, pintar, esculpir, transformar (coisas em outras coisas, lembrando, a um só tempo, os pensamentos de Bruno Munari e Jasper Johns), entre muitos outros com os quais se pode operar seja a matéria tangível ou o propósito intangível, como potência aberta à obra de arte.

Como, aliás, tergiversando/conversando, já o fizera Richard Serra, em 1967/68, ao compor sua "Verb List Compilation: Actions to Relate to Oneself" (um achado na ubuweb):

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Claro, a matriz de todos os verbos construtores remete-nos ao verbo Ser (tão distinto de estar, coisa que confunde, acho eu, os anglo-saxões). E, de imediato, uma pequena multidão de filósofos, trazendo seus conceitos mais amistosos, reúne-se em torno de uma mesa do botequim Academia (boa música e um chope honesto, além das boas companhias).

(Nota de rodamundo: o texto quase terminado e eu pensando que, na minha proposta de pensar em verbos construtores como categoria da língua, algo é ainda impreciso. Ainda não se trata de um conceito; ainda é só uma idéia mal resolvida. Um projeto de categoria. Pensando um pouco mais, talvez seja atributo da classe verbo, a condição construtora. Todo verbo constrói alguma forma de ponte; alguma fôrma para a imagem, ou para a idéia que se forma no pensamento. Como neste outro hai-kaizinho:

− Eu chovendo… Você toda sol… Entre nós, o arco-íris!

Mesmo o chover pode ser uma solução, seja como verbo intransitivo ou como transitivo direto. Nesta perspectiva, a idéia parece abrangente demais para demarcar um campo analítico. Talvez fosse o caso de pensar-se em outra expressão: verbos artesãos, por exemplo. Verbos com os quais se fazem coisas diferentes de chover − construir uma casa, por exemplo.)

E por falar em botequim, desde minha própria história de arquiteto, arquitetura é uma cachaça! Esta afirmação dá motivo para uma discussão “ontológica”: como metáfora, poder-se-ia substituir cachaça por Deus. O que nos leva à etimologia (a arqueologia das palavras) e, então, sabe-se que o “teo” da teoria é o mesmo “teo” da teologia. A palavra teoria (que vem do grego antigo: ação de observar, examinar), sabe-se, ao consultar o Houaiss, que nomeava “na Grécia antiga, embaixada sagrada que um Estado enviava para o representar nos grandes jogos esportivos, consultar um oráculo, levar oferendas etc.

Teoria, portanto, é uma espécie de caravana (grupo de peregrinos, de mercadores ou de viajantes…) em busca de conhecimento. Desde este ponto de vista, e ao contrário do que, às vezes, ensina-se nas escolas de arquitetura, teoria não é coisa (parada, inerte, morta), mas processo/movimento/onda. Como disse, se não me engano, o poeta: não há nada mais prático do que uma boa teoria.

(Nota de rodamundo: atribui-se esta frase, alternadamente, a Kurt Lewin e a Leonid Brejnev (!!!), mas alguém me disse que o poeta Mário Quintana também a praticava, e o melhor: com sua poesia)

Posto deste modo, “eis o mistério da fé”!

Como Arte, as palavras Cachaça, Deus e Teoria, no contexto, são também verbos construtores (ou artesãos, melhor dizendo): ajudam a construir identidades que são derivações do mistério da fé. Construir uma casa implica no artesanato da união dos materiais com o espaço − tijolos e cimentos tornando-se linguagem. Como forma de linguagem (ou, penso, como forma de arte), a arquitetura funciona porque comunica (nas palavras de Umberto Eco). Não se trata apenas de instalar um teto sobre nossas cabeças, mas da instauração e sagração de lugares que dão sentido à existência. O filósofo Manuel de Landa sugere a noção de exoesqueleto humano. Se nosso endosqueleto nos põe de pé, o exoesqueleto humano/urbano nos coloca em movimento, já que passamos a ter um lugar para onde voltar de nossas andanças pelo mundo.

Funda-se, assim, um campo de arte: as artes de morar, locução não mapeada, penso, pelo Houaiss. Mas Muntañola sim, quando lembra que as palavras morar e moral têm a mesma origem latina (outra vez, recorro à arqueologia da língua), remetendo a costumes:

Substantivo masculino (1262). 1. Hábito, prática freqüente, regular: tem o costume de caminhar ao fim do dia. 2. Modo de pensar e agir característico de pessoa ou grupo social (mais usado no plural): o jornal faz uma crítica de costumes. 3. Moda, indumentária adotada em determinada época por um grupo relativamente representativo de pessoas: a atualidade inventou o costume da minissaia. 4. Menstruação.

(Nota de rodamundo: − Menstruação? Imagino que remetendo a ciclos. Mas, se tudo pode ser arte…)

O que isso tem a ver com o livro de Julian Bell? Tudo! Ou nada! Como mais ou menos disse o artista Nico Rocha, fazendo rir sem deixar de ser sério, a arte não serve para nada. Mas trata-se de um nada imprescindível. E, agora, daqui para a frente, o problema também é seu.

Ou melhor: problema nosso! Então não vou deixar de arriscar incluir aqui um ou dois esboços meus, na tentativa de fazer, com tudo isso, alguma coisa. Arriscando-me no risco do risco:

farol do Delta - cut.jpg

Ou ao rasgo do traço, por artes de berliques e berloques e por artes do diabo!

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De volta à Nova historia…, o livro de Julian Bell traz, ao final, uma seção de fontes e recursos que amplifica o verbo arte, abrindo, ao leitor, inumeráveis continuidades de caminho. O bacana é que, em tempos de Internet (e, isto, para mim, é o mais bacana da Internet; muito mais que o facebook), pode-se buscar as indicações do autor, como primeira aproximação para chegar a distintas obras. O risco (aliás, o grande risco da Internet) é perder-se entre tantas possibilidades. Mas aqui se exigirá, do percorredor virtual, a distinção entre o gourmet e o gourmand. E, então, pois, de volta aos livros de arte, começar a estudar – investigar o − desenho com Nico Rocha e Flávio Gonçalves, do Instituto de Artes da UFRGS, em apenas duas semanas, me levaram a por as mãos (ou quase) em duas obras extraordinárias (e se me deixo levar pelo entusiasmo, “é para reforçar o argumento”): Vitamin D, editado por Emma Dexter, mapeando o desenho contemporâneo através do trabalho de 101 artistas; e o Atlas de Gerhard Richter, coleção quase infinita de “documentos de trabalho”, reunidos entre 1962 e 2006. Mesa posta para outros ensaios!

(Nota de rodamundo: este texto é dedicado à Mônica Zielinsky, artista, professora, exímia abridora de portas e fechaduras)

Ilustrações: 1. WA 06 – rostos, desenho modificado digitalmente, com textura de madeira; 2. Capa e contracapa da edição original de Mirror of the world: a new history of art, de Julian Bell; 3. Visual Thesaurus – teia para a palavra Art; 4. Julian Bell: Autorretrato como escritor e pintor; 5. Richard Serra, Verb List Compilation: Actions to Relate to Oneself, 1967/68; 6. Esboço para um farol, desenho, 2011; 7. Multidão, desenho modificado digitalmente, com textura de madeira, 2012.


Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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