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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

Pete Townshend: nossa história

See me. Feel me. Touch me. Heal me.


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Podia ter sido a minha história. Podia ter sido a nossa história. Adolescentes vivendo (em diferentes épocas, distintos contextos políticos e sociais) sem a clareza quanto ao futuro imediato, mas querendo mudar as coisas (o micromundo do sujeito, o macromundo a sua volta). Escolhendo a arte e a música como formas de expressão. Adotando comportamentos rebeldes, abusando dos cigarros e do álcool, usando roupas e cabelos como modo de inserção numa identidade difusa. Querendo mudar um mundo que sequer conheciam. Essa podia ter sido a nossa história, quando nos juntamos pela primeira vez e, sabendo meia dúzia de acordes, acreditávamos que através da música encontraríamos o nosso lugar. E os garotos estavam, então, todos bem.

Mas não, conosco nada aconteceu de transcendente, a não ser as muitas tardes e noites explorando a potência máxima dos nossos amplificadores e tambores, as bebedeiras divertidas, uma vida mais sonhada do que propriamente vivida.

Estou aqui me referindo à história contada por Pete Townshend, guitarrista e principal figura do The Who, em sua autobiografia (Pete Townshend – a autobiografia. Editora Globo, 2013). Relato preciso de uma época, mas que é vista através dos olhos e das recordações de um menino que se torna, ao passo de tempo, um homem cheio de dúvidas, defeitos e qualidades, e um músico extraordinário, que brinda ao mundo algumas das paisagens sonoras mais profundas da música do século XX.

Pete Townshend relata seu percurso através de uma história louca e mutante. De fato, penso que consegue entrelaçar três distintas escalas dessa história doida e dolorida: a pessoal, marcada por crises e momentos gloriosos; a história da banda, com nuances tocantes em relação aos seus companheiros de música; e a história do “movimento” que transformou a energia adolescente em um dos negócios mais rentáveis (e sujos) de todos os tempos.

Vivia-se, então, os anos 1960 e 1970. Parece, hoje, história antiga. Mas talvez seja a mesma coisa de sempre, repetindo-se em ciclos, desde que o homem é homem.

O genial criador de My generation e Behind blue eyes revela ao leitor os bastidores dos pequenos e grandes espetáculos que realizaram. Revela seu processo criativo, que nunca se contentou com canções fáceis mas, ao contrário, buscava sempre novas formas de manifestação artística, sendo a música, por vezes, apenas o veículo à obra intelectual, estética e política de seu autor. Destruir guitarras era apenas uma delas. Descobre-se, através da leitura, o intrincado processo criativo da elaboração de Tommy (1969) e Quadrophenia (1973), sua obras maiores na compreensão deste comentarista, os projetos inconclusos, os rumos perdidos e reencontrados.

No plano pessoal, Pete Townshend é de uma coragem comovente. Ser astro do rock não lhe traz nenhuma redenção. Ao contrário, descortina a todos seus imensos defeitos de ser humano imperfeito, o abuso do álcool e das drogas, a arrogância e a violência, as traições que são sempre destruições do ego (psicanálise de botequim, eu sei), culminando com o abandono da família. Milhões de libras esterlinas, quilos de cocaína, mulheres idólatras, nada disso parece trazer alívio, e surgem como instrumentos de constante destruição. E reconstrução! Descobre-se, finalmente (o que talvez seja o mais importante de tudo), é que suas canções são, quase sempre, pedaços de sua biografia. Não há oportunismo, ao contrário, suas letras são confissões.

Em relação aos parceiros da banda, Pete é, ora ríspido, ora generoso. Se Tommy busca contar sua busca messiânica, sua fragilidade, sua verdadeira confusão como menino nascido dos tempos de guerra (poderia ser a nossa história), Quadrophenia expressa o amálgama das quatro personalidades dos músicos do The Who. Roger Daltrey, hedonista, perfeccionista, apolíneo e dionisíaco. John Entwistle, uma máquina precisa de fazer música, um virtuoso nos palcos e estúdios. E Keith Moon, o louco, divertido e destrutivo em medidas extremas até para o mundo do rock nas décadas de 1960 e 1970.

Moon e sua morte anunciada, com ela acaba-se uma época. Os sobreviventes continuam, mas a morte do amigo marca para sempre a música do The Who. E quem são eles desde então? Who are they? E quem somos nós? Mas há, sim, algum caminho redentor em tudo isso, e Pete busca, ao longo da vida, a espiritualidade (encontrada em sua devoção pelo guru indiano Meher Baba) e vai descobrindo paz numa quietude interior. Como músico maravilhoso que é, entretanto, ainda é capaz de fazer muito barulho.

Townshend e seus parceiros, filhos da Grande Guerra; nós, aqui no quase extremo sul do Brasil, filhos de uma ditadura que sequer percebíamos claramente, tão bem camuflada como ideologia de certa “redenção” econômica, social e política.

A história contada no livro é a história-rede de Pete, Roger, John e Keith, suas paixões, loucuras, sonhos, desatinos, e uma música como nenhuma outra. Tomávamos sua música como um caminho a buscar. Não foi, mas poderia ter sido nossa história. Ou, pensando bem, essa é, sim, minha história. Não a do astro do rock, mas a do homem falho, que cai e levanta e talvez caia outra vez. Há incontáveis histórias como estas, acontecendo neste exato momento. Meu filho, talvez, a esteja vivendo, neste mesmo instante, em suas buscas e em seus silêncios. Há ainda muito o que fazer para nos tornarmos seres humanos um pouco melhores.

(Este texto é dedicado à lembrança de Jorge Sitja, no céu, reencarnado, ou só poeira de estrelas, onde quer que esteja, pois essa podia ser a nossa história.)


Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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