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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

LUCIANA ENTRE PALAVRAS

"Polaquinha, a confusão é um termo relativo - fiz-lhe notar - entenderemos ou não entenderemos, mas o que você chama confusão não é responsável por nenhuma das duas coisas. Entender, me parece, só depende de nós, e para isso não basta medir a realidade em termos de confusão ou de ordem. Fazem falta outras potências, outras opções como dizem agora, outras mediações como dizem muitíssimo agora. Quando se fala de confusão, o que quase sempre há são confusos; às vezes basta um amor, uma decisão, uma hora fora do relógio para que de repente o acaso e a vontade fixem os cristais do calidoscópio. Etecétera."

Julio Cortázar, O livro de Manuel.


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Fenômeno de raridade astronômica, todo texto de Lu Chardelli que leio me provoca um duplo e simultâneo desejo: o de ler o próximo, talvez ainda não escrito, o de reler o anterior, retraduzindo-o com novo vagar. E, em outro plano, um desejo nascente crescente e intenso de conhecê-la, em pessoa, finalmente, a selar uma cumplicidade que se iniciou virtual (namoradelas de nossos posts na Obvious) e que já ganhou, acredito, a densidade da mais real amizade.

Um encontro assim, Luciana carioca, eu aqui no extremo sul, estéticas opostas, do calor e do frio, da praia e do pampa, de samba e de milonga, seria inverossímil, improvável ou impossível, se não vivêssemos hoje vidas tão difusas que já só podem ser compreendidas na lógica fuzzy das redes, isto é, no espaço entre que nos rodeia e amarra, espaço que liberta tanto quanto aprisiona. Somos, assim (nosso encontro é) subproduto dessa coisa toda que caracteriza a contemporaneidade.

Às vezes, penso que a conheço de longa data, coisa, talvez, ligada as nossas vidas passadas, e a conversa enreda-se deliciosa através do reconhecimento de sentimentos convergentes, mas, mais do que isso, na revelação de possíveis circunstâncias que vivemos, cada um em sua própria vida, e não parece assim tão impossível, tão próximos estamos agora quando compartilhamos parte de nossas armadilhas comuns, que tudo faça parte de um plano maior, elaborado sabe-se lá em que esfera.

Às vezes penso, de outro modo, que não a conheço em nada. Que a estou descobrindo nos movimentos do caleidoscópio. Talvez a inventando, em minha legítima busca da fantasia.

Há um jogo (de dados, ou de cartas, talvez um jogo de xadrez, ou moedas do I-Ching), sendo jogado neste exato momento. Há todo um emaranhado de riachuelos, rios, rios caudalosos, lagos, mares e oceanos. Eis, pois, o jogo, e a geografia, deste nosso encontro quase ao acaso. E o acaso, bem sabemos, namora com as intenções.

Seja quem for essa tal Luciana Chardelli, o que importa aqui é saber que, alguém, algures, em certo tempo, é capaz de brindar-se ao mundo com tão intensa generosidade. Gosto de estar com Lu em seus textos. Reconheço-me. Inquieto-me. Já um parágrafo e me ponho a compor um outro texto, uma réplica, uma saudação. Quase sempre, esses textos não escritos morrem no pensamento. Mas desta vez será diferente.

Assim, o mais difícil é destacar este ou aquele texto de Luciana, entre tantos, e o mais simples seria dizer que tudo me encanta em sua escrita. Mas isso seria uma meia-verdade, pois a verdade é que há textos que me arrebatam de imediato, textos que me deixam em alerta, às vezes me preocupam, e textos que não compartilho, porque compartilhá-los seria bandeira demais, e são justamente esses os que me dão a certeza que Lu, sim, me conhece muito bem.

Não fugindo, todavia, da provocação feita pela própria Luciana, escrever um texto sobre seus textos, eu resolvo o impasse através dos opostos amorosos de Lu, com os quais, obviamente, me identifico.

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Morcegos, que está disponível, em arquivo de áudio, em seu Compêndio de uma mente sem razão, me joga na cara circunstâncias que vivi, amiúde, nas duas pontas do monólogo. Reinvenção do mito da caverna na implicação, não com a razão platônica, mas com a vontade dionisíaca de ser (em alguém) ou de estar (com alguém). Há, pois, em suas palavras, várias confissões. Desinteresse, um certo interesse, interesse: a emergência poética da paixão. São morcegos os co-habitantes da caverna, recobrindo as superfícies com sua presença e sua merda acumulada.

Imagem sem meias medidas, se bem interpreto, eis aqui a metáfora intensificada: a caverna-útero que é a origem de todas as relações apaixonadas e, porque apaixonadas, contingentes.

Quanto à pergunta final de Luciana (é preciso ouvi-la com atenção), respondo: alguém que sempre foi alguém e mais ninguém, eu que sempre fui eu e não um outro, cagamos nossos sonhos, reciprocamente ou não, sincronicamente ou não, sem perceber a dimensão da merda e, cobertos de merda, descobrimos, afinal, que nossos sonhos estavam cagados.

Por isso o mito ressignificado. Não faz sentido a razão sem paixão. Não há paixão sem o duplo invertido no espelho. O belo reconhece o belo. O mal reconhece o mal. E sempre somos duplos sentidos e sentimos, duplamente, as conseqüências de nossas ações e reações. Mudamos de lugar, ora ondas, ora partículas, em um mundo em que a incerteza é a lei.

Mas, para além do texto, há a voz de Luciana, e escrever sobre a voz de Luciana já seria um outro texto que eu devo imperativamente recusar a responsabilidade de escrever. Porque, diferente da leitura, e do papel do leitor na arqueologia do texto do autor, quando se escuta os sons e os silêncios da fala, já se está, então, em tal proximidade com o outro onde toda a objetividade se perdeu. Apaixonar-se, então, é um risco de beira de abismo. Uma voz, sem corpo, é um convite a um sonho do qual, inevitavelmente, bem ou mal, cedo ou tarde, ter-se-á que despertar.

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Filhos, publicado recentemente na Obvious, situa-se no outro extremo do universo amoroso de Lu Chardelli. Outra vez, ela recorre à metáfora para se revelar. Uma caixa de confetes coloridos. A forma escolhida é a de uma carta endereçada aos seus filhos. Uma declaração de amor, uma confissão quanto às fragilidades que vêm combinadas com o papel de mãe, de mulher, de ser gente. Um alerta para a constante necessária reinvenção da vida e para a cotidiana descoberta das coisas em nossa volta, as boas e as más. Peneira às coisas de verdade importantes. Chuva de confetes coloridos no ar. Brinde ao caótico cotidiano. Vida, pois!

Para este comentarista que, com a licença de Lu, se imiscui em um espaço tão íntimo como a relação entre uma mãe e seus filhos, resta um deslocamento ao meu próprio papel de pai, reconhecendo-me nas amorosas palavras que Luciana escreve para seus meninos.

É ingênuo pensar que os papéis de mãe e de pai sejam indistintos. A fratura dos gêneros, culturalmente cultivada, nos impôs os limites entre uma e outra personagem. A dualidade serve à ordem. Toda ordem, todavia, aprendemos, é contingente. Por isso o texto de Luciana aqui me toca tão fundo, porque sei de nossos deslocamentos caóticos entre os distintos papéis inventados para nós. Porque somos, afinal, mães-pais ao vento das derivas mais inconstantes. Por isso a urgência de nossas insurgências particulares.

Se Morcegos e Filhos demarcam polaridades em sua escrita, Lu Chardelli não se define por ai. É preciso ler muito mais do que Lu escreve, para começar a compreender essa linda mulher. Ou, mais provavelmente, não compreender, e isso é bom! O que posso aqui dizer é que vale muito a pena. E mais não digo, pois não quero antecipar as surpresas que estarão por vir.

Permito-me, como para concluir, uma nota que talvez ajude a situar o que escrevi até aqui. Tempos atrás, Luciana escreveu e publicou na Obvious um generoso artigo sobre meus desenhos. Quando li o que ela havia escrito sobre meu trabalho, soube que essa mulher tem certos poderes mágicos para decifrar almas e, se isso assusta um pouco, no meu caso, em particular, fez com que eu me sentisse profundamente gratificado. Lu me descreveu como um bêbado armado de grafite, carvão e pastel, sujeito assujeitado às circunstâncias, tendo como sutil objetivo (ou desejo), gravar sobre o papel um certo amor. E este sou eu, um namorador de beiras de abismos, um desenhador que perdeu-se de seu desenho, e entre as alegrias mais plenas da vida-neste-momento está a de saber da existência de Luciana Chardelli, em, pelo menos, dois de meus mundos em movimento: o da verdade e o da ficção.

Luciana não gosta que a chamem de Luciana. Certa vez, me escreveu: chamando-me assim, pareces um professor severo. Eu, que ganho a vida assim mas nunca me vi como um professor, respondi que, simplesmente, gosto do som da palavra Luciana, e por isso, pois, insisto. Isso não é toda a verdade, mas uma meia-verdade suficiente por enquanto.

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As imagens que ilustram este texto foram roubadas dos albuns de Luciana no FB. Seu uso foi autorizado por Lu.

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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