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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

CRÔNICA MONGOLIANA

Confesso, pois, minha obsessão por essa nação que, talvez, jamais venha a conhecer. E relato, nesta crônica de uma viagem que nunca realizei, meu encontro com Italo Calvino, Stanley Stewart e um punhado de inverossímeis mas verdadeiras personagens, reunidos todos sob o azul do céu mais límpido do planeta que chamamos Terra.


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Lá do alto, a Mongólia parece um esboço de Deus para a Terra, não tanto um país como, a rigor, os ingredientes dos quais os países são feitos: relvado, rocha, água e vento. Colinas onduladas, lisas como feltro, rolavam rumo a infinitudes relvadas. Um rio fazia espalhar um enlaçado cor de prata de água por sobre suaves descidas. O vazio era espantoso.

(Stanley Stewart, No império de Gêngis)

Senti-me como que esmagado e, de repente, choroso. O problema não era a triste figura de Marat, ainda inconsciente de que seu coração estava partido; o problema era a garota, nos braços da música, esquecida de seu próprio coração partido.

(Stanley Stewart, No império de Gêngis)

Uma fantasia (como uma abertura no campo da imaginação) pode evoluir para um sonho (como uma construção no campo dos possíveis) que pode evoluir para um pensamento (ganhando implicações significantes) que pode evoluir para uma ação (que se concreta e se torna operação) que muda uma certa realidade (e assim é se lhe parece).

Este é o percurso longo e torto do meu pensamento quando penso na Mongólia, esse estranho longínquo país de longa e quase inverossímil História. E devo agradecer, primeiro a Italo Calvino, e em seguida, a Stanley Stewart, pela construção de uma ponte entre a metáfora e a razão. E, talvez principalmente, à Júlia, por despertar em mim um vago desejo nômade.

E, se há um começo, tudo começa nas Cidades Invisíveis, tornadas visíveis à imaginação por Calvino, e, das paisagens imediatamente imaginadas, surgem os primeiros vínculos com uma indistinta realidade, que vão se tornando curiosidades históricas, sociais, geográficas. A obra de Calvino é, pois, a abertura à aventura. O livro é uma máquina imaginadora, logo ressignificada como máquina de conceitos e, então, proximidades com a filosofia, máquina de pensar a cidade como campo analógico para exercícios mais e mais aplicados à cidade necessariamente real das práticas e lidas cotidianas.

Um encontro cria um mundo, bem se sabe. Marco Polo, o lendário explorador veneziano que viveu no século XIII, está a serviço de Kublai Khan, imperador dos tártaros. Tornado embaixador do Grande Khan, Polo tem a missão de visitar as cinquenta e cinco cidades do imenso território do reino e, ao retornar de cada viagem, deve relatar o que viu. Ou o que não viu mas sonhou. Ou o que não sonhou, mas viveu, em outro tempo, em outro lugar.

As narrativas, uma para cada cidade, cada uma delas com um nome de mulher ─ como Diomira ou Ottavia ou Teodora, por exemplo ─, compõem o tecido literário que é colcha de retalhos cujas partes se unem através de outros, filosóficos, diálogos entre o imperador e seu emissário.

Surgem as classificações categóricas, onze ao todo – as cidades e os olhos ou as cidades e as trocas ou as cidades continuas, por exemplo – e Kublai Khan possui um Atlas onde encontra a descrição de cada cidade, em minúcias; cada rua, cada edifício, em detalhes. Tudo (e o todo) se vai fazendo teoria. Há, pois, na essência da obra de Italo Calvino, integrante do extraordinário coletivo OuLiPo, afeito, portanto, a criar estruturas que abraçam a escrita, uma ordem implicada que abriga aos modos distintos de ler de seus leitores.

Calvino, exímio contador de estórias e histórias, torna-se, então, um tratadista, e não apenas das memórias de um fabuloso Marco Polo, mas, pois, da não menos fabulante cidade contemporânea. O atlas revela essa qualidade: revela a forma das cidades que ainda não tem forma. Há a cidade com a forma de Amsterdam, semicírculo voltado para o setentrião, com canais concêntricos (…); há a cidade com a forma de York, engastada em elevadas estepes (…); há a cidade com a forma de Nova Amsterdam, também chamada Nova York, repleta de torres de vidro e aço sobre uma ilha oblonga entre dois rios, com ruas perfeitamente retas como canais profundos, exceto a Broadway.

O catálogo de formas é interminável: enquanto cada forma não encontra a sua cidade, novas cidades continuarão a surgir. Nos lugares em que as formas exaurem as suas variedades e se desfazem, começa o fim das cidades. Nos últimos mapas do atlas, diluíam-se retículos sem início nem fim, cidades com a forma de Los Angeles, com a forma de Kioto-Osaka, sem forma.

Mas aconteceu então que Júlia me presenteou com No império de Gêngis Kahn: uma viagem entre os nômades, de Stanley Stewart, livro em que o escritor irlandês ─ ele próprio de espírito nômade ─ narra sua imersão na vida da última grande nação nômade do planeta, contada a partir das trilhas, dos lugares, dos acontecimentos e das personagens que se sucedem ao longo de mais de mil e quinhentos quilômetros de cavalgadas (mas há também camelos, jipes e aviões) pelas terras mongóis.

Como frente a uma obra de ficção, para acompanhar Stewart em sua viagem poética, é preciso suspender a descrença. Porque o mais difícil de se acreditar é que se está diante de um relato de uma viagem verdadeira e não simplesmente cativados pela leitura de um romance de formação, tão densas são as pessoas que o escritor encontra pelo caminho, tão “pinturescas” são as paisagens que ele revela, tão vívidas são as intrigas que emergem dos diferentes encontros com a gente mongol e suas histórias, enfim. E a cada página espera-se, em uma senda inesperada, o iminente quase urgente encontro entre Stewart e Marco Polo.

Há passagens literárias de intensa poética, às vezes pérolas bem humoradas, sensações inimagináveis de tão verdadeiras, vividas naquele mundo tão diferente daquele que meus sentidos estão acostumados. A implacavelmente trágica história de amor entre Marat e Valentina, vivenciada no Cazaquistão, ainda à caminho das terras dos mongóis (a garota, esquecida de seu próprio coração partido, chamava-se, por acaso, Julia); uma visita ao museu que guarda a memória do explorador russo Prjevalski, grande herói que não deixou descendentes; o monumento construído com milhares de pedras soltas que recorda os soldados mortos – cada pedra solta, um soldado morto ─ sob o comando de Tamerlão; o voo não planejado em um Antonov de aparência preocupante, que leva o escritor explorador desde Alma-Ata até Bayan Ölgii; encontros com xamãs e lamas de diferentes hierarquias e aparentando distintos sintomas de decadência; uma inesquecível cerimônia de casamento (“Casamentos eram ocasiões tempestuosas, As pessoas se tornavam imprevisíveis”).

Sua divertida, ao mesmo tempo cuidadosa, relação com o bibliotecário pescador. E há também o delicado relato do amor perdido de Bold, um professor de Ulan-Bator cujo pai havia migrado para a Rússia, deixando a família quando ele era ainda criança, e que juntou-se a Stewart como guia da expedição. Descrito como frágil na aparência, com quarenta anos que pareciam cinqüenta, pouco acostumado a lidar com trilhas e cavalos mas, ao mesmo tempo, no campo das idéias, um cético, iconoclasta, iluminista, enfim, um “homem moderno”, Bold carregava consigo, entretanto, os efeitos de certa decisão, de forma que era como se “o amor se afastara dele”, e assim o amor tinha menos clareza. Em Minsk, ele se apaixonou por uma alemã-oriental. Vinte anos depois, sua voz ainda se comovia quando falava dela.

Leram Goethe juntos, fizeram longos passeios pelas florestas de pinheiros em torno de Idanovitch, falaram de asamento. Mas no fim ele decidiu deixá-la para voltar à pátria, escolhendo o pais em vez da mulher. “Sou um mongol”, disse, queixosamente, para dar uma explicação, como se eles fossem um povo à parte, incapaz de sobreviver no meio de estrangeiros. (…) Bold, que rejeitara uma parte tão grande de suas próprias tradições, ainda era prisioneiro da idéia de que só mongóis poderiam começar a entender outros mongóis e de que existia entre eles algum laço de sangue que não podia ser explicado a outros.

Aqueles que já viveram e, seja acaso ou intenção, separaram-se, pela razão que seja, de um grande amor, saberão compreender porque incluo aqui um relato que parece fora do lugar. Há algo de absurda e absolutamente universal nesta passagem de Stewart, que nos junta como condição humana, uma coisa que é, ao mesmo tempo, una e partida em nossas consciências e em nossos corações. E dentro de mim, ao ler tal parágrafo do livro de Stewart, há certa reconciliação, certo abrigo, certo paliativo a certas solidões.

Mas, para além daquilo que de mais íntimo a leitura de um livro pode provocar, e tal efeito é tão imprevisível quanto intransferível, o que mais encanta a este leitor é, sobretudo, o cuidadoso texto que traça os rituais ainda vivos da existência nômade, sobrevivente do domínio estrangeiro, resistente em tempos de tão largas mudanças globais, que se vai entretecendo em descobertas, e que se vai associando com as palavras – e o som das palavras, pronunciadas na fonética portuguesa - da língua mongol, e que designam os lugares achados ao longo do percurso: um universo distante, ainda dominado pelos movimentos da natureza e vivido pelos homens através dos hábitos passados de geração em geração, sendo o tempo uma espécie de pêndulo que retorna continuamente ao completar seu breve ciclo. Mas, como o que tento realizar neste texto é reunir a imaginação de Calvino aos relatos de Stanley Stewart, é preciso entrar nas cidades, contar algo das cidades visitadas pelo escritor, para revelar essas percepções de lugares onde, ainda que com esperada estranheza, sou capturado e surpreendido, eu e meu olhar urbano ocidental.

Em especial, quando Stewart aponta: Os mongóis não são muito bons para construir cidades, e Ölgii não era exceção. Capital de um uma província, do tamanho da Holanda. Parecia um posto avançado abandonado no fim do mundo. Tinha um ar apocalíptico, como se somente uma catástrofe bem recente pudesse explicar tamanha desolação.

As poucas cidades da Mongólia são centros administrativos, projetos estatais, construídos nos últimos cinquenta anos para proporcionar as facilidades da vida moderna – educação, saúde e arenas de luta livre – a pastores céticos. São todas compostas pelos mesmos ingredientes, como se os dirigentes, pouco familiarizados com as cidades, estivessem trabalhando com uma lista a ser checada: uma praça de aspecto estéril, a prefeitura, um teatro, um museu, uma escola, um hospital, um ginásio esportivo. Na sua monotonia de cimento, os prédios mal se distinguem uns dos outros. Acrescentem-se uma porção de terrenos baldios e um punhado de conjuntos de apartamentos ao estilo russo, num estado avançado de dilapidação, e a desolação fica completa.

De fato, é preciso compreender que, até o início do domínio soviético, por volta de 1920, o próprio conceito ocidental de cidade fazia pouco ou nenhum sentido para a cultura nômade dos mongóis. Os assentamentos, provisórios e precários, aconteciam, governados pela espiritualidade e pelo devir das estações, ao redor dos mosteiros: (…) Durante séculos, os mosteiros foram os únicos prédios e a única habitação permanente no país. Urga, o nome antigo de Ulan Bator, quer dizer simplesmente “O Templo”. Mesmo os assentamentos menores e mais abandonados, como a cidade-fantasma de Dariv, foram originalmente as sedes dos mosteiros-templos. Eram instituições importantes, muitas delas mais ricas e mais influentes do que os mosteiros da Europa medieval. Cada mosteiro era o centro de uma província eclesiástica de pastagens e rebanhos, e era o único fornecedor das capacidades que a sociedade pastoral tradicionalmente não tem – educação, comércio e artesanato.

Assim, quando, afinal, retrata Ulan-Bator, a antiga Urga, hoje a capital do país, o contemporâneo explorador obriga-se a encontrar um outro olhar para continuar a crônica da vida mongol. Um quarto dos mongóis vive ali (a Mongólia, um dos maiores países do mundo em superfície, não chega a ter três milhões de habitantes). Metade dos moradores da cidade continua vivendo em suas yurtas de feltro (que, aprendi com Stewart, lá são chamadas de gers). Entretanto, na aguda percepção de Stewart, estar em Ulan-Bator é como estar, não na capital dos mongóis, mas em outro pais:

Depois de mil e quinhentos quilômetros de ovelhas e pastagens, a monotonia cinzenta de Ulan-Bator pode parecer exótica. Da janela do meu quarto de hotel – que lembrava um apartamento de conjunto municipal em que estive em Londres – via, maravilhado, os fatos cotidianos da vida urbana. Um homem indo para o trabalho, com uma pasta, esperava na calçada, a luz do semáforo mudar. Uma mulher parou num quiosque da rua para comprar o jornal matutino. Um trólebus vomitou passageiros na calçada do outro lado, então sumiu por uma avenida tão sem vida e ampla como um local de desfiles. Regimentos de prédios altos tomavam conta do horizonte, em meio a distantes chaminés que expeliam nuvens marrons. Carros escuros deslizavam entre prédios públicos com janelas acortinadas. Quando um cavaleiro trotou dando a volta à esquina de um loteamento, deixando para trás carros estacionados, algum vento como que cronológico poderia tê-lo soprado a partir de outra era.

Finalmente encontramo-nos, escritor e leitor, diante da Mongólia moderna, em um duplo sentido que não faz sentido, num espaço virtualmente urbano em que a simples idéia de modernidade dos hábitos sociais parece fora do lugar, tanto quanto o esquemático modernismo dos edifícios sugere uma invasão alienígena. Como se, como parte de um conto de humor tártaro, Le Corbusier ali tivesse, um dia, aterrissado e se posto a desenhar.

Ao chegar a Ulan-Bator, talvez Stewart tenha sentido uma confusão de sensações e sentimentos semelhante ao que sentiu Calvino ao avistar, do convés do navio, pela primeira vez, o horizonte de Nova Iorque, quando escreveu, em seu Diário americano.

O tédio da viagem foi amplamente compensado pela emoção da chegada a Nova York, a visão mais espetacular que nos é dada nesta terra. Os arranha-céus despontam cinzentos no céu que mal clareou, e parecem ruínas enormes de uma monstruosa Nova York abandonada daqui a três mil anos. Depois, aos poucos, distinguem-se as cores, diferentes de qualquer idéia que alguém pudesse ter, e um complicadíssimo desenho de formas. Tudo está silencioso e deserto, então se começa a ver os carros deslizando. O aspecto cinzento e maciço e fim-de-século das casas dá a NY, como Ollier nota de imediato, um ar de cidade alemã.

Há, pois, no escritor italiano, no escritor irlandês, algo dessa herança de romance nômade das lembranças de Marco Polo. Eles se reúnem, em meu pensamento, em um jogo de xadrez, como Polo e Kublai o fizeram, na ficção de Calvino, no grande salão do palácio do imperador, fazendo do jogo, a cena da imaginação; do tabuleiro, o território; dos movimentos de cada peça, os acontecimentos históricos, geográficos e sociais. As páginas do Atlas do imperador orientam, de outro modo, os viajantes nas cidades sem forma.

Nada, todavia, aproxima tanto a escrita de Stewart ao clima surrealista, irônico, engraçado e crítico de um Calvino de certa fase literária (e me refiro, em especial, aos seus momentos de Marcovaldo e de Senhor Palomar, personagens especialmente dotados de sandices, na minha mitologia calvínica) quanto sua descrição do modo como os mongóis assimilaram os ritos da burocracia e do planejamento estatal soviético. Eis que: (…) Nos escritórios e nos locais de trabalho, exigia-se dos camaradas que mantivessem agendas com o que pretendiam realizar a cada ano.

Os supervisores examinavam religiosamente as anotações, para garantir que estavam de acordo com os Planos Qüinqüenais do Partido. Depois de um tempo, as agendas de planejamento se tornaram trimestrais. Os gerentes gostavam delas porque eram algo tangível que podia ser examinado sem que se levantassem da cadeira. Os trabalhadores gostavam delas porque eles podiam copiar os planos uns dos outros e porque, enquanto as escreviam e estudavam, não precisavam trabalhar, mesmo durante o expediente. Os planos estavam começando a se tornar um vício. Logo em seguida, planos detalhados tiveram de ser submetidos, por escrito, a cada mês.

Então, passaram a ser semanais, e no fim, com os locais de trabalho totalmente tomados pela mania de planejamento, os planos se tornaram parte da rotina diária. Se o comentário de Stewart mais parece uma caricatura do mito do planejamento central, seja de direita ou esquerda ou volver, isso revela, também, algo da nação mongol. Porque aqueles camaradas funcionários, arrancados de suas tradições, tolhidos das planícies verdes, das paisagens ilimitadas, dos rebanhos formados por ovelhas seculares, das lidas em torno das brancas yurtas de couro e feltro que são o coração simbólico desse povo, apenas deixavam o tempo escorrer, aguardando, com a paciência aprendida de uma cultura milenar e intangível acomodada aos ciclos da natureza, o retorno às cavalgadas e às pastagens verdejantes de verão.

Uma fantasia pode evoluir para um sonho que pode evoluir para um pensamento que pode evoluir para uma ação que muda uma certa realidade. Mas não estou com minhas malas prontas, e sem a orientação de Júlia sequer consigo imaginar o que deva levar, daqui de casa, para as distantes terras dos mongóis. Receio jamais ter a suficiente coragem para me pôr a caminho de aventuras como as de Marco Polo ou as de Stanley Stewart. Contento-me, quase sempre, com as aventuras encontradas nas páginas da literatura. Eis meu lugar mais confortável e abrigado – meu ger aquecido e povoado de sentido e alguma solidão. Mas, sabe-se lá o que a vida inventa para a gente, e um dia, então, na ordem contingente das coisas da vida, iniciarei o caminho e conhecerei a relva, a rocha, a água e o vento, as tintas com as quais Deus compôs, para nós, seu desenho original.

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Leandro Andrade

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