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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

O JARDIM DO BOM REI

Era uma vez, como costuma ser, e em longínquo tempo e incerto lugar, viveu um certo rei que obrava para ser um bom Rei. Em sua destemida desastrada desatinada vida, em seu triste tolo teimoso reinado, plantou, regou e colheu parábolas, flores que, como se sabe, dependem de considerável cuidado, desejante amor, e certa dose de calma e caos. De sua longa errante e fabulosa história, o que restou e o tudo quase nada que se conhece hoje é este pequeno parabólico jardim.

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Anos atrás, num desses países que os homens batizam e armam para nosso internacional regozijo, um de nós subiu por engano num sapato; o sapato começou a andar e entrou numa casa: assim descobrimos nosso tesouro, as paredes cobertas de cidades maravilhosas, a paisagem privilegiada, a vegetação e as criaturas que nunca se repetem.

Julio Cortázar, Último Round, Um país chamado Alechinsky. 

I

O bom rei deveria, em atitude humilde, prostrar-se diante de cada um de seus súditos, e perguntar, a cada um, o que os tornaria satisfeitos. Então, munido das respostas, deveria ocupar-se diligentemente em satisfazer cada necessidade e cada desejo de cada um dos habitantes do reino. E então, uma vez satisfeitas todas as necessidades e desejos, voltaria a perguntar a cada um de seus súditos, apenas para descobrir que nada até então havia os deixado felizes e que haveria de começar tudo outra vez.

II

O bom Rei deveria, munido de curiosidade, bússola e olhos agudos, esquadrinhar cada polegada quadrada de seu reino. Reconhecer cada pedaço de relva, tocar demoradamente cada pedra, beber da água de cada córrego, sentir no rosto todo o vento que sopra em cada rincão. Deveria perceber cada tom do azul de cada céu, e contar cada estrela de cada constelação de cada noite. Deveria caminhar por cada estrada, descansar em cada alpendre, provar da comida de cada panela, escutar cada canção entoada por seus súditos nas lavouras e em torno das fogueiras. Deveria gastar as solas das botas e caminhar até arquear-se com o peso da mochila que leva em suas costas. E então, de posse de todo esse conhecimento, saberia um pouco do seu reino e um tanto de si mesmo.

III

O bom Rei deveria, com sensível sabedoria, sair a conversar com poetas. Deveria versar junto àqueles que, das palavras, fazem profissão de Fé. Juntar, numa távola redonda, escrevedores de distintos tempos e nações. De Rilke a Ezra Pound a Bukowsky, de Whitman a Poe, de Baudelaire a Rimbaud a Ginsberg, de Juan Ramón Jiménez a Pablo Neruda a Julio Cortázar, de Bilac a Pessoa a Drummond, de João Cabral a Ferreira Gullar, de Haroldo de Campos a Leminski a Wally Salomão, de Cecília Meireles a Cora Coralina a Ana César, infinitamente, sem temor e, inconsequentemente, em todas as direções do reino, e há outros tantos em outros cantos escondidos, cujos mantos o Rei deveria desvelar. E, ao compreender cada poeta do imenso tempo, deveria arriscar riscar versos, e versar riscos que rabiscam os céus. Deveria romper noite e dia, ao versar sobre a estrela da aurora. De tanta conversa baldia, o Rei aprenderia a escutar.

IV

O bom Rei deveria, com desejável prudência, aprender que escolher entre isto ou aquilo é o mais pesado fardo que traz a condição de ser Rei. Saberia, então, sendo ele o próprio Rei, que a ele não compete mudar a tigresa realidade, mas aguardar, sempre em constante alerta, o movimento felino do acaso. Saberia que a realidade é um caleidoscópio e, portanto, sensível a cada movimento do olhar e da mão. Saberia que o olho e a mão são extensões da mente e, portanto, partes de seu coração e de sua Fé. Deveria entender que na mais pétrea verdade pode se esconder uma dissimulada mentira, e que às mentiras é dada a ilusão de verdades quando bem contadas e repetidas como verdades aos que se contentam com boas mentiras. E então, compreendendo o teatro da arte política, poderia tomar, no talvez do reinado, sábias decisões.

V

O bom Rei deveria, com a consciência do inacabamento, dedicar-se ao estudo da contingência. E, ao compreendê-la, compreender que é, ele próprio, também contingente. Deveria saber que a incerteza é a alma do reino e que ele, imagem do reino, governa um território inacabado. Deveria saber que, na incerteza do que é justo como medida, um Rei erra e acerta. Ao compreender aquela que é a óbvia e inconstante deriva, em suas constantes e contingentes insônias, deveria poder descansar, pois o sono de um Rei é reinado, e em seus sonhos, ele encontrará um farol.

VI

O bom Rei deveria, em sincera contemplação, dedicar-se a pensar o Mistério da Fé. Deveria abrigar-se sob a cúpula onde conversam todas as religiões. Deveria cultuar cada Deus de cada povo, entre os muitos que povoam seu reino e, nas lidas da vida, dão esperança aos seus muito diversos povos. Deveria respeitar encruzilhadas, estar atento ao horóscopo, jogar o I-Ching, comer o pão que é carne e beber do vinho que é sangue, saudar o milagre e ajoelhar-se mirando o nascente. Deveria construir um templo, encomendado aos seus melhores arquitetos, e compreender que é em sua própria consciência que se ergue o templo que abriga suas verdadeiras crenças. Deveria perceber que o Mistério permanece mistério. E, então, o bom Rei haveria de ter Fé.

VII

O bom Rei deveria, em amorosa união, gerar dois filhos, um deles saudável e outro muito frágil. Ao mais saudável deveria ensinar que diante da fragilidade do outro, e de todos os Outros, é preciso, sobretudo, ser moralmente forte. À criança frágil, deveria ensinar que a fortaleza é o exercício da compreensão quanto às razões que, por vezes, estão além da compreensão do homem e que, pois, seja forte. O bom Rei deveria saber que seu filho tão frágil será, em meio as maiores tempestades, aquele que saberá manter a nau no curso. Deveria saber que seu filho mais forte será o que o abrigará quando houver combate de peito aberto. Assim, o bom Rei saberá que não existe diferença entre seus dois príncipes, pois eles se encontram e se completam e eis, pois, a perseverança da virtude. 

VIII

O bom Rei deveria, posto que é provido por Deus de um imenso coração e quase inesgotável paciência e valiosa resistência, amar a cada mulher do reino e a cada homem também. Deveria saber que uma mulher guarda segredos que sequer ao Rei revelaria. Deveria saber que todo homem, mesmo um Rei, vacila quando o abismo tem a forma de uma certa mulher. Deveria saber que há mulheres que tomam a forma de homens, e que há homens com a forma de mulheres. Deveria saber que há em cada um de seus súditos, sejam mulheres ou homens, um útero fértil do qual verte o amor. Dessas doloridas descobertas, o bom Rei saberá amar sua Rainha.

XI

O bom Rei deveria, com tenaz atitude, abraçar a morte com a mesma ilusória alegria com que abraça a vida, e respeitosamente celebrar esses estados passageiros da existência. O nascimento de uma criança é sempre motivo de uma felicidade desmedida e então a apreensão quanto ao que o destino destinará. Do mesmo modo, o velório do amigo morto pergunta quanto tempo ele viverá seja na memória dos amigos ou dos inimigos. A memória é traiçoeira, e então até o maior amor se perde no esquecimento. O Rei posto após morto o velho rei deveria compreender, então, o quão passageiro ele próprio é, pois a certo tempo outro rei há de reinar.

X

O bom Rei, eis o Rei feitor maior das leis, deveria saber que a ele cabe o cumprimento da Lei. Decretaria, pois, a lei da felicidade a qualquer idade estendida a cada súdito. E a cada súdito estenderia todas as facilidades e então o Rei abriria as portas do palácio. E cada casa do reino seria como um pequeno palácio. E em cada pequeno palácio servir-se-ia da sidra doce que se bebe nas nababescas noitadas do grande palácio. E cordeiro cozido apimentado e temperado com especiais ervas aromáticas. E a orquestra real brindaria a todos os ouvidos sua música celestial. Então o Rei perguntaria: ─ Estão, agora, todos os meus súditos, satisfeitos e felizes? E a resposta seria apenas um substantivo Não! E ao bom Rei restaria começar tudo do nada outra vez.

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Imagens: "Auto-retratos" e "Mapa do Reino", desenhos do autor, 2012.

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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