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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

Sobre Desenho

(…) quanto mais rápido alguém viaja, mais o tempo desacelera. Ao atingir a velocidade da luz, o tempo para. (Russell Stannard, Relatividade)

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O desenho é uma forma de escuta. Registro da calma ou do caos. Forma de pulsão que carrega, num mesmo movimento, seu processo de (re) construção.

Onda e partícula! Começa com um traço, se espalha num risco, se impõe através da linha: totalidade relativa, propícia à insurgência da figura. Não por acaso, desígnio; não por acaso, desejo. As palavras de Scarpa – desenho porque quero ver… − que empresto para conduzir este texto, definem o objeto: objeto de desenho que se auto-organiza continuamente, contingentemente.

Mas, quanto ao sujeito, como expor um processo que acontece interiormente, aquilo que é a linguagem mais próxima da intimidade? Sendo escuta, o desenho é também narrativa, e assim se explica a dialética do sujeito, da sua vida interior, e daquilo que ele (re) presenta no mundo exterior.

Haver-se-ia, então, de desenrolar e recolher cuidadosamente o fio (a linha, o risco) que percorre o labirinto, marcando o percurso, no sentido de tornar observável o conjunto de operações que dão consistência e conteúdo a uma obra de desenho. Desde já, a definição do sistema desenho / desenhador, com as implicações construtivas que decorrem deste par:

"Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela, Será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela?"

Foi Sérgio Franco quem primeiro percebeu a metáfora sensível contida no verso de Chico Buarque para explicar a dialética construtivista. Ela serviu-me, em outro momento, como princípio para pensar o processo cognitivo da construção arquitetônica: o arquiteto transformando o espaço gráfico e sendo transformado por ele. A mesma imagem serve-me, agora, como ponto de partida e chegada.

Como, pois (de que forma), um desenho aparece (toma forma)? Que regras governam seu processo? E no processo, quais os papéis desempenhados pela invenção e pela descoberta? Tais perguntas se apresentam quase imediatamente nesta reflexão sobre o desenho.

Talvez porque expressem, em certa medida, o problema central a examinar em diferentes epistemologias. Poder-se-ia substituir, por exemplo, desenho por texto, texto por edifício, edifício por cidade, e, em escalas de diferente complexidade, o problema, como foi colocado, manteria a mesma feição e pertinência.

Assim, nos limites deste texto breve, mais proveitoso será pontuar tais questões no amplo pano de fundo da linguagem humana, situando o imbricado cognitivo contido na frase de Maturana e Varela: tudo o que é dito é dito por alguém, no mais extenso dos territórios, na mais abarcante das derivas.

Assim, tudo o que é desenhado é produto de um continente lingüístico compartilhado por alguém, com alguém, em algum momento da existência. Dito de outro modo, aquilo que é resultado da introspecção do artista, aquilo que é escavado da solidão dos ateliês, é, também, representação da multidão de encontros que formam um sujeito. Neste contexto, um desenho é o artista brindado ao mundo ao seu redor: o sujeito entregue a outros olhares, a um só tempo, fragilizado e fortalecido pelo olhar do outro.

Onda e partícula. Implicações com a noção de velocidade. Eis o porquê da frase de Stannard, escolhida como epígrafe, e que encerra uma conclusão. Porque o tempo no ateliê é regido por um princípio distinto daquele que governa o tempo ordinário. Poder-se-ia dizer, então que, ao atingir a velocidade do pensamento, o tempo não importa. As horas passam, e de repente, para o desenhador, sinonímia para astronauta, o que importa é a viagem.

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Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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