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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

aeroportos (uma carta de amor)

Às vezes, acontece de acontecer, e é simples assim, no aeroporto a ver navios.


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Seria um absurdo que não entendêssemos tanto os anjos quanto os demônios, uma vez que nós mesmos os criamos. (John Steinbeck, East of Eden)

Querida...

Tarde de vento, estou no aeroporto, de partida ou chegada outra vez. Não recebi notícias. Há saudades urgentes, e preciso responder a pergunta que me fazes, tantas vezes, com palavras nem sempre ditas, em teus silêncios mais audíveis. Pois quando se trata de ti, sou sempre ouvidos atentos, alertas ao mais silencioso sinal.

Pois bem, a natureza parece ensinar que, face aos mais complicados problemas, da escrita e a geometria à transciência, à patafísica, aos mistérios da Fé, quando se está diante de uma daquelas perguntas que parecem aceitar incontáveis respostas, respostas que se enredam, formando teias de possíveis e co-possíveis, que formam superfícies com camadas de sentidos óbvios, sentidos ocultos e, sobretudo, não-sentidos, isto é, falsas respostas que, prontamente estamos ansiosos para admitir como a verdade, então a verdade, tão relativa em nossa absoluta assunção de encontrar a verdade, a verdade está na resposta mais simples.

Tem sido assim com a filosofia, e engana-se, pois, quem acredita que a filosofia serve à verdade. Ao contrário, ela é a arte dos véus, vestindo-nos com algo que não somos.

Que absurdo paradoxo: se o tempo não para para ninguém, por que, afinal, pararia para nós dois? Para que apenas nós dois pudéssemos saber a verdade? Para que apenas tu e eu nos encontrássemos no interior de uma bolha amorosamente soprada pela baba de Deus? Deus parece-me um bêbado que joga dados com o diabo. Há anjos e demônios na cena desse jogo: somos nós, nós os inventamos no dia em que descobrimos um ao outro. Eis nossa triste, tola e teimosa filosofia.

Eis, portanto, minha resposta para tua pergunta: deixei-te, tantas vezes, porque nunca foste ao aeroporto. Nunca estiveste comigo, nem em minhas partidas, nem em minhas chegadas. Deixei-te, pois, porque estava sozinho.

Foi assim, naquela noite em que parti para uma Buenos Aires repleta de casas tomadas e cafés com cigarros de fumo negro, eu e minhas valises abarrotadas de talvez. Foi assim, no entrenoites em que retornei ao aeroporto vazio povoado com tua não-presença. A presença da ausência é tão sólida quanto o mármore, tão pesada quanto o chumbo, tão venenosa quanto o escorpião.

Foi assim, na manhã turbulenta em que eu chegava de Nova Amsterdã, com boas novas na ponta da língua, com a alegria de quem havia descoberto um novo mundo. Então voltei para casa, e tu estavas ali, a um só tempo, nua e una, vestida e partida, dividida em mil partes.

Foi assim, no retorno da rota Londres-Bombaim. Havia um bilhete: estavas a dançar num baile triste, e teu parceiro de rodopios chamava-se Morte. Mas não foi aquela uma noite dos mortos, e sim noite das pequenas mortes em alcovas perfumadas de almíscar e pitanga. Teu gozo me afogou naquele amanhecer tão triste. Manhã de um desenho inacabado. Tarde de despedida sem rodeios. Noite de reconhecer-te no necrotério entre os mortos-vivos. Não havia luz, e o céu cinzento como chumbo envenenava meu coração.

Foi assim, na viagem para Macau. Eu parti e voltei e jamais saberemos o que houve por lá, já que havíamos esquecido a suspensão da descrença e aquela cidade sequer pode existir sem alguém que a possa acreditar.

Foi assim, naquela volta de lugar nenhum, quando prometemos um ao outro um encontro no litoral, porque queríamos fazer amor na areia e ver a lua e o amanhecer. Juramo-nos, então, certezas que eram as mais óbvias e eternas mentiras com as quais podíamos brindar, a nós e ao mundo inteiro, a nossa solidária solidão compartilhada.

Sozinho, tantas vezes, no saguão daquele aeroporto, eu soube que nossos aviões seguiriam em direções contrárias, e eu deveria ter impedido tua partida. Mas teu Norte, meu amor, distanciava-se, veloz, do meu Sul.

Em meu Sul mais interior, na minha alma sulista, tão sonhadora quanto ingênua, eu perdi a chave para abrir a porta fechada. Portanto, deixei-te com uma indecisa certeza de estar fazendo um bem. Com o doloroso sentimento de ter feito o melhor que podia fazer, tão insuficiente quanto uma gota d’água para a maior das sedes. E, sim, conheci, finalmente, o deserto: o lugar dos desertores. Eu te amo e por isso te deixei partir e já não se trata de nossa vontade mas de nosso destino.

Eu jogo as moedas ao chão. Aguardo uma sorte esperançosa. Estou no aeroporto. Embarque imediato. Última chamada. Deus serve-se de uma taça do vinho da desejante ressurreição, o cálice da tênue aliança, a carne tornada sangue, nosso mistério e nossa revelação. Nossos corpos e nossas almas, reunidos na paixão.

Deus conhece seu oponente como ninguém, Sabe que o diabo não pode vencer.

Com amor...

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Ilustração: DÉBORA BALZAN FLACK, Colagem e desenho sobre papel, 2015. ___________________________________________________________________________________


Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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