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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

MUDANÇA (bibliotopia)

Mudança (de casa, de pele, de cidade, de amor, ou de ponto de vista). Crônica de caminho à inesperada encruzilhada. Registro de ventura à aventura vivenciada. Cartografia de percurso ao trajeto irresolvível. Compêndio de palavras ao tempo amareladas. Memória da intensidade que torna e retorna ao coração. Manifesto do percorredor que esqueceu como esquecer as contingências do caminho. Geografias.


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Extrema ordem traz extrema desordem. A razão entre ordem e desordem é contingente. Robert Smithson

Mudança (de casa, de pele, de cidade, de amor, ou de ponto de vista) é uma operação delicada e cansativa. Sei que há quem goste, vez por outra, ao longo da vida, em intervalos de tempo, mais ou menos curtos, mais ou menos longos, estreitos ou largos, de encaixotar todos os seus pertences essenciais, tangíveis ou intangíveis, desfazer-se de umas quantas quânticas coisas, desapegar da casa, da pele, da cidade, do amor, ou do ponto de vista, e fechar a porta atrás para, em seguida, abrir uma nova à frente e então começar de novo em uma folha existência quase em branco. Mas não eu, que cresci enraizado em moradas velhas e amuralhadas, com amplos salões abarrotados de memórias. Amorosas memórias que me cobrem com o peso de mil gravidades. Sou, pois, confesso acumulador de lembranças ritualizadas, e as casas em que vivi são como transatlânticos lentos que navegam por águas contaminadas de afetos e teimosias.

Toda morada é útero e calor, é navio e travessia, é ninho e esconderijo, é armadura e descoberta. Toda morada tem vida própria e é o vínculo dialético entre o ser e o mundo. Mesmo as moradas efêmeras, como os quartos de hotéis. Mesmo as moradas oníricas, que desaparecem com o despertar, e às vezes voltam ou nunca mais. Mesmo as moradas de passagem, como as salas escuras dos cinemas ou os aviões ou os aeroportos ou as mesas de bares que são como távolas redondas de reis e reinados que duram umas poucas horas. Mas trato, aqui, de moradas mais resistentes, casas cortazarianamente tomadas, tendencialmente perpétuas, como são certas penas e certos diagnósticos.

Entretanto, bem se sabe, a história da gente na Terra é contingente e, então, na ponta de uma cadeia de circunstâncias, planos e acasos, no pico de um iceberg que flutua na deriva de uma soma lógica de absurdos, estou na casa nova. Casa de penumbras, e de cheiros e sons ainda não mapeados, e de inesperadas aparições de vizinhos ainda fantasmáticos que espantam ou clareiam a poesia da alvorada.

Casa em que, certamente, como nos apartamentos de Cortázar, com otimista esperança um felpudo urso desliza faceiro pelas tubulações.

Assim, levado por um destemido vento de mudança, livrei-me, fingindo indiferença, de uma multidão de coisas: uma cômoda já há muito incomodada, um criado mudo, surdo e cego, geladeira e fogão em crise de temperamento e temperatura, roupas e sapatos velhos em variados estados, cortinas encardidas e tapetes descoloridos pelo passo contingente do tempo.

Livrei-me da paisagem da rua, e dos olhos, dos ouvidos e das línguas dos vizinhos. Livrei-me do retrato inacabado esboçado na parede outrora branca da sala que já não é mais de estar mas de partir. Livrei-me, afinal, de um pertencimento que já não tinha sentido ou serventia.

Todo o resto (não pouca coisa) foi disciplinadamente colocado em caixas de papelão ou dentro do que convém chamar coração e sagazmente transportado através dos poucos quilômetros que separam a zona norte do centro histórico nesta mesma cidade em que nasci e onde, com quântica probabilidade, irei também morrer.

Pois,

(…) todos os abrigos, todos os refúgios, todos os aposentos têm valores oníricos consoantes. Já não é em sua positividade que a casa é verdadeiramente "vivida", não é somente no momento presente que reconhecemos os seus benefícios. Os verdadeiros bem-estares têm um passado. Todo um passado vem viver, pelo sonho, numa casa nova. A velha locução: "Levamos para a casa nova nossos deuses domésticos" tem mil variantes. (Gaston Bachelard)

Eis, então, que se desenha a tarefa que parece, à primeira vista, mecânica e enfadonha: desencaixotar algumas centenas, quase milhares, de livros que, mais que uma biblioteca, formam uma biografia. Livros que a paralisia ritual da casa velha cobriu de poeira e, em paradoxal movimento contrário, a dinâmica das consultas aleatórias (des ou re) organizou da maneira mais inesperada.

O protocolo é relativamente simples: após desencaixotar cada lote de livros, limpar com um pano macio e seco cada um deles. Dispô-los em pilhas ao longo do corredor. Observar a necessária estabilidade das colunas: física básica aplicada e respeito pela lei da gravidade. Gradativamente, construir, contra a parede de tijolos, uma contraparede feita de livros apoiada na vaga esperança de que não desmorone. Completo o exercício de construção, inicia-se a etapa de desconstrução. Definição dos espaços nas estantes, conforme certas classificações. Reposicionamento de cada livro associado a certa específica classe de livros.

O procedimento foi, então, planejado para ser realizado em duas jornadas. Ao final do segundo dia, cada livro, agora limpo, deveria estar em seu novo lugar, agradavelmente instalado na companhia de seus vizinhos de classe, garantindo, em teoria, que compartilhariam assuntos afins.

Não demorou muito para que se atestasse o absoluto fracasso de tal planificação, não obstante o doutorado justamente em planejamento de seu executor. E não demorou muito, tampouco, para que se observasse que tal fracasso responde a uma razão essencial, e que é, visto desde outra perspectiva, um extraordinário sucesso.

Eis que cada livro, uma vez livre da caixa que o trouxe da zona norte para o centro histórico, uma vez que recebe o carinho do pano seco e macio que o livra da poeira do tempo, reclama alguma atenção, isto é, deseja ser, outra vez, protagonista de um momento de leitura por parte do executor. Reclama, pois, com razão, a recordação das razões pelas quais, a certo tempo, foi adquirido e incorporado à biblioteca biografia da qual desde então é parte.

Partes que, como se sabe, somadas, são maiores do que o todo.

Há livros de cotidiano manuseio. Há livros que eram tidos como perdidos mas que estavam apenas escondidos. Há livros que trazem, na primeira página, palavras preciosas. Há livros que não me pertenciam, mas que teimaram em não ser devolvidos. Há aqueles de que apenas lembro. Uns poucos que jamais esqueço. Muitos que carregam as marcas de sua utilidade prática ou, ao contrário, de sua pacífica existência. Há livros solitários, livros silenciosos; livros que vivem em bandos, geralmente os mais barulhentos. Há livros fantasmas, que não estão, e onde estarão?

Assim, a tarefa que havia sido planificada para durar duas jornadas, estende-se já por três preguiçosas semanas, sem que se possa prever quando se vai concluir, se é que se vai. O fato mais óbvio – e como dizem, contra fatos não há argumentos – é que nenhum livro, até o momento em que descrevo o bibliotópico drama, foi encaminhado ao seu lugar nas estantes, e as classes as quais pertencem permanecem puramente teóricas, como um desejo de ordem, todavia abstrata, do planejador.

Ora, nada mais absurdamente lógico, ainda que a fundação disso tudo remeta a uma cadeia de acontecimentos que está na origem desse movimento de mudança posto em marcha e que se encontra num tempo longínquo ao momento do encaixotamento dos livros e dos outros pertences que, não menos importantes, ficam fora dos limites desta crônica.

Assim, as classes que emergem do exercício de arrumação dos livros são de outra natureza, já que existem, mais propriamente, no mundo das memórias e dos desejos, muito mais do que nos limites das classes cartesianamente pensadas, e lucidamente definidas, em torno de definições do tipo livros sobre arquitetura ou livros sobre arte ou poesia ou literatura fantástica ou não-ficção ou as longas sequências denominadas, por exemplo, coleção calvínica ou cortazariana ou piagetiana ou alexanderiana, somente para mencionar aquelas categorias, que por óbvio, no mundo das aparências e da praticidade biblioteconômica, pareciam ser as que mais exigiam a delimitação de seus territórios.

Não se trata, pois, de obstinada procrastinação, eis que surgem, então, classes muito mais sutis, cujos conceitos geradores são mais sensíveis às ondas do que às partículas, mais parecidos com os verbos, que expressam os processos, do que aos substantivos, que são os nomes dados às coisas.

Os livros de Julio Cortázar, por exemplo, parecem mais à vontade ao lado das obras de Alexander e Bachelard, enquanto Italo Calvino conversa animadamente com os numerosos trabalhos de Piaget e Perec. Mas Cortázar, em namoros com o obscuro, também exige a proximidade de Lovecraft e de Poe, tanto quanto Calvino, por conta das Cosmicômicas e do Senhor Palomar, deseja vizinhança com Os sonhos de Einstein e O cachimbo do vovô Joe. Mas o cronópio Lucas é amigo íntimo de Marcovaldo e ambos amam os pezinhos de Fenchurch que não tocam o chão. Então, o que dizer dos cinco volumes de Douglas Adams que se reuniram com os Brian Aldiss e os Asimov, mas de olho, assim parece, no Nariz de Gogol? Para não falar do fascinante Asterios Polyp, incondicional parceiro do velho safado Henry Chinaski, naturalmente fascinado pelas novelas nova-iorquinas de Will Eisner.

Esta breve exemplificação parece suficiente para demonstrar o problema em que se meteu o planejador da ação de recolocar seus livros nas estantes conforme determinados critérios e certas classificações.

De outro modo, observe-se, a poesia de Ana Cesar parece pouco à vontade na prateleira território rotulada como poesia simplesmente e busca outro território tempo que é o dos livros que recordam L. em diferentes versões de uma vaga esperança. O relato da viagem de Stewart através da Mongólia abraça naturalmente os Grandes Sertões e Eu fui Vermeer e Todos os nomes, porque pertencem todos a um território conhecido como amor por J. Há um grande e indefinível território que é o das leituras junto à C. e os primeiros Cortázar pertencem a essa prateleira. Os sofrimentos do jovem Werther e outros deixados por P. ao final de um amor republicano formam uma pilha turbulenta. Quanto ao Perseguidor e aqueles emprestados por D. e que esperam a hora da devolução, estes são desaforados e birrentos. Os recentemente enviados por S. ainda buscam um lugar ao qual pertencer. E uma classe mais ampla então se impõe, pois, agora percebo, L., J., C., P., D. e S. são todas cronópios mas também Magas que povoam o cronotopo como numa pintura de cavalete e é preciso reservar toda uma vasta ala da biblioteca biografia memorabília para Os amores difíceis mas é claro que imediatamente Calvino reclama que também tem o direito e o dever de estar aí

E assim, indefinidamente, tendencialmente, uma extensa talvez infinita teia se expõe ao executor da simples tarefa de ordenar livros em estantes quando, enquanto escrevo esta crônica, percebo o propósito intangível que, desde o início, conduziu o empreendimento.

Ao perplexo planejador executor da ação de repor seus livros nas estantes e com isso recompor seu universo particular, com seus espaços públicos e outros privados e outros secretos, desvela-se a tarefa impossível que é a de ordenar um multiverso formado por todos os possíveis e compossíveis arranjos sejam já pensados ou ainda não imaginados ou aqueles que são somente desejos ou ainda o arranjo que lhe é vitalmente necessário.

Pois não se trata de dar uma ordem para as coisas, que no caso são livros mas poderiam ser discos ou sapatos ou pedras ou conchas marinhas ou novelos de lã ou mistérios da fé, mas de aceitar a contingência da desordem. Pois não se trata de arrumar a casa nova, mas de apaziguar as casas velhas que teimam em permanecer como fantasmas. E não se trata de fechar ou abrir portas, mas talvez deixa-las entreabertas para que a luz possa atravessa-las, formando um mosaico de brilhos entre sombras. Um tapete de luz pontilhando o manto do passado. Isto é, as pegadas de uma vida, e até mais, valeu o peixe...

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Fotos do autor, 2015.

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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