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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

CASA DO HUMBERTO (RAZÕES PARA SONHAR ARQUITETURA)

Desenhar uma casa é um ato de amor. Amor/morar, palavras irmãs. Por isso as crianças desenham casinhas de duas águas, com portinha, janelinha e chaminé, mesmo quando moram em condomínios verticais. Mesmo quando moram onde não deveria morar ninguém. E sonham, porque sonhar é o mais sublime dos modos de projetar a existência. Quando crescem, algumas crianças se tornam arquitetos. E sonham. E arquitetos desenham, entre outras coisas, casas. Humberto foi uma dessas crianças, penso eu, e construiu a casa sonhada.


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Nessa casa, logo cedo, o Sol aceita o convite das janelas e pinta uma rede dourada em todas as paredes. (Humberto Hickel)

Arquitetura como convite das janelas. Humberto Hickel, arquiteto daqueles que nos fazem acreditar na arquitetura, construiu esta casa na serra gaúcha e, generosamente, brindou aos amigos esta imagem fantástica, acompanhada do comentário que transcrevi como epígrafe. Poucas vezes estive diante de tão singela e precisa definição para as artes da construção do lugar do homem no mundo. Comparável com a que Lúcio Costa, então jovem arquiteto, ouviu, sobre arquitetura, de uma idosa senhora inglesa em um hotel em Paris, e que afirmava, tão precisa e simplesmente, ser sensível às alturas e larguras dos cômodos.

Há, pois, razões para pensar e sonhar a arquitetura, não apenas como ofício do arquiteto ou como produção de edifícios mais ou menos monumentais. Há razões para sonhá-la como modo de construir sentido e continuidade para nossas vidas.

Quando decidi estudar arquitetura, no final dos anos setenta, eu queria mudar o mundo. O tempo passou, e tornei-me, de certa forma, mais ambicioso, desejante de mudar mundos. A arquitetura é um instrumento, nada mais do que isso. Como a palavra. Como a arte! E os mundos são tantos quanto somos, humanos, neste planeta, cada qual com seus sonhos particulares, seus desejos e desenhos a criar cantos, ninhos e realidades. Por isso a arquitetura como modo de vida.

Arquitetos fazem parte do mundo, como sabemos, e, imaginamos, queremos acreditar, todos são também humanos. Quantos arquitetos você conhece? Eu conheço milhares, depois de tantos anos como professor de arquitetura. Um físico inglês me disse, certa feita, que conhecia apenas dois arquitetos. Mas conhecia centenas de físicos, e dezenas de astrofísicos. Eu conheço dois ou três físicos, e um astrofísico. Conheço um ou dois cardiologistas. Dois ou três advogados. Uma acupunturista. Vários turistas. Nenhum sapateiro. Nenhum amolador de facas.

Jogamos fora sapatos e facas quando já não nos servem. Casas não são assim. Somos apegados as nossas casas, como somos aos amores das nossas vidas. Casas são eternas, enquanto duram em nossos projetos de vida. Casas são para sempre, pensamos, sem saber que o sempre também acaba, como disse o poeta. Ou acabamos antes, como acabam os amores, e partimos, e as casas seguem sua rotina estática de pedra e cimento e outras pessoas irão vivê-las, preenchendo-as com seus próprios amores e sonhos. Conheço muitos sonhadores. Alguns deixaram suas casas algures, e habitam seus sonhos como se casas fossem.

Conheço vários moradores de rua, eles vivem nos meus caminhos, eu digo bom dia ou boa tarde ou boas noite, alcanço um cigarro ou uma moeda. Por definição, moradores de rua não têm casas. A arquitetura deles é a cidade, afinal. São os verdadeiros urbanistas.

Bons urbanistas são, também, os taxistas, os garçons e os psicanalistas. Conhecem a cidade como poucos. Os taxistas a conhecem em movimento, e decoram os nomes das ruas e os pontos de referência, e tem sempre soluções para os problemas da cidade. Os garçons são versados nas histórias da vida dos fregueses contumazes e as repassam de mesa em mesa. A disposição das mesas, no salão de refeições, lembra uma cidade: quarteirões onde se aprecia uma boa bolonhesa ou uma suculenta picanha, e ruas, por onde circulam, apressadas, bandejas fumegantes e garrafas de vinho. Os psicanalistas conhecem as cidades interiores, habitadas por fantasmas. Psicanalistas não existem fora dos consultórios. Longe dos divãs, eles se esfumaçam e se tornam gente comum. Algo como fantasmas. Andam de táxi e jantam nos melhores restaurantes.

As cidades são povoadas por seres imaginários. Sheila Marina, arquiteta e urbanista, mamãe da Sô e do Sá, lembra de quando era criança:

Quando eu voltava da casa da minha avó, sempre aos domingos à noite, pegávamos a via Anchieta, é uma rodovia, para São Bernardo do Campo, e tinha uns postes altíssimos e como sempre passávamos à noite, estavam acesos, e olhava pela janela do banco de trás e pensava, ou imaginava, que tinha gente trabalhando lá dentro, onde ficam as lâmpadas.

E completa, lembrando que pensava que, por dentro dos longos tubos metálicos dos postes de iluminação pública, corriam elevadores, levando as pessoinhas imaginárias, subindo e descendo. Na imaginação de cada criança existe uma cidade. Lembro das cidades que construía, com blocos de madeira e caixas de papelão. Talvez, desde aí, tornei-me urbanista. Lembro das plantas-baixas desenhadas com giz no asfalto em uma rua da periferia: reproduziam as casas das patroas de suas mães, já que viviam em barracos de um ou dois cômodos, e eram, também, sensíveis às alturas e larguras das coisas ao seu redor.

Nas cidades vivem, também, os artistas, criaturas sensíveis às alturas, larguras, sons, cheiros e luminosidades dos lugares. Eu os reconheço porque são diferentes. Eles pintam ou desenham ou esculpem ensimesmados em seus ateliês. Ou deslizam pelas ruas, fingindo-se fantasmas, e pintam paredes e colorem a cidade. Em certas esquinas, fazem música, ou, em uma praça, encenam Godot. E esperam, como se estivessem em Paris, mais exatamente no Théâtre Babylone.

Teatros, cinemas, estádios de futebol e igrejas são casas também. Casas cheias de gente comum. Casas cheias de imaginação. Moradas de fantasmas. São lugares em que vivemos vidas emprestadas: na hora do beijo, na hora do tiro, na hora do gol, no mistério da fé.

A imaginação é a louca da casa – disse Santa Teresa de Jesus. É louca e está solta, e sonha, livre, as casas da imaginação. Por isso o sol aceita o convite das janelas para pintar as paredes da casa com redes de luz. Isso é, também, arquitetura, comento com Humberto, ao ver a imagem mágica de sua casa ao amanhecer. Ele, arquiteto habitante de sonhos, concorda, e estamos todos bem. Sonhando arquiteturas como a louca solta na cidade.

(fotografia de Humberto Hickel, reproduzida com a autorização do autor)


Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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