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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

saudades

A ordem dos fatos e dos amores não altera a vida.
Se nem tudo é verdade, mentira tampouco.
Amar e mudar as coisas ainda me interessa mais.


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Em terra de cegos, há quem sinta saudades da ditadura, ao que parece, conforme expõe a mídia estabelecida nos horários e espaços nobres, mais uma multidão de patos clonados, mais uns gatos pingados em frente ao Quartel General, e quem tem um olho corre risco.

Pois o que eu sinto, sim, é saudades de conhecer claramente o inimigo, saudades de estar com os amigos, de sentir-me protegido apenas porque eles existiam ao meu redor. Saudades de voltar para casa e encontrar meu pai e minha mãe que, sem precisar dizer muitas palavras, me ensinaram o que é justiça social e juízo moral, e o que é o respeito ao outro, respeito à diversidade e às circunstâncias da vida, das nossas vidas e das vidas dos outros. Saudades legítimas da felicidade possível.

Saudades dos meus amigos negros que eu chamava de “neguinho” e “negão”, e era uma forma de abraço e uma forma de pertencimento em um mundo menos complicado. Afrodescendentes, é bom lembrar desde já, somos todos nós, queiramos ou não, vindos da mãe África, desde os primeiros humanos. Internacional, um dia time de pretos, campeão brasileiro! Saudades de vibrar com futebol e de me encantar com o sorriso da menina no recreio, de voltar para casa chutando pedras e latas pelo caminho, do cheirinho do bife da vó Maria. Saudades de amar Letícia, até hoje inatingível na alta torre de um sonho adolescente.

Saudades do Bixo da Seda no Teatro Leopoldina, e da curiosidade quanto à névoa perfumada que encobria a plateia. Saudades das canções cantadas no abraço da madrugada. Saudades do bando de garotos de cabelos compridos atravessando a cidade sem medo. Saudades até do medo da veraneio preta e branca que aparecia sempre inesperadamente nas ruas meio escuras da Zona Norte. Bicampeões brasileiros! Saudades de amar Eliane com hálito do uísque com guaraná bebido bobamente entre os primeiros lençóis da adolescência.

Tenho saudades, sim, de brincar de adivinhar quem eram os milicos infiltrados na Faculdade de Arquitetura, figuras marcadas pela obviedade do figurino e óculos escuros, uma simples constatação da evidência de que uma ditadura tão burra não poderia durar muito mais. A imagem divertida da João Pessoa tomada de soldadinhos e seus escudos, da correria avenida abaixo, com o coração na boca mas cheio de coragem fingida.

Saudades da bomba que explodiu interrompendo o canto insurgente de Mercedes Sosa no ginásio do Internacional, e que nos deixou todos cagados de medo. Saudades de um bar na Rua da República onde, depois de tudo, fomos beber cerveja e falar mal dos milicos, do governo, da direita (nós, a mais legítima esquerda, a dos bares da Cidade Baixa), e um sujeito que bebia sozinho na mesa ao lado resolveu que queria bater em todos nós, filhinhos de papai de merda, e ele tinha um bocado de razão. Inter tricampeão invicto! Saudades de amar Flávia, aquela noite, exatamente.

Tenho saudades doloridas das descobertas de um Brasil não mais o melhor lugar do mundo da forma que meu pai de verdade acreditava. Pouca saúde e muita saúva eram, pois, os males do Brasil do profético herói sem nenhum caráter. Assim, pois, Macunaíma, montada por Antunes Filho, e uma paixão louca por Ilona nua no palco e vestida para comer pizza já de madrugada, viraram saudades.

Saudades daquela noite em que assistimos Patética no Cine Teatro Presidente, com Beth Mendes absurdamente bela na personagem da mulher do jornalista, e a peça, meu Deus, nos iluminava de verdades que estavam veladas aos nossos olhos de cegos que não queriam ver. Ao fim, a notícia de que o teatro estava cercado pela polícia e que era melhor que não saíssemos àquela hora. Os atores retornaram ao palco, sentaram-se no proscênio, e conversamos sobre muitas coisas, a verdadeira morte de Glauco Horowitz, isto é, Vladimir Herzog, entre outras, até que alguém veio e disse que as ruas em torno do teatro estavam seguras. Saudades, sim, de amar Raquel pelas ruas do centro velho, com os olhos atentos para o alto das fachadas tristes, eu e meus pensamentos porque Raquel jamais o soube.

Saudades de Elomar, elo amarelo que me ungia de sol, cantando a catinga seca, a fome de noventinha e os amores dos menestréis. Saudades de Arrigo Barnabé, gritando que ele morreu porque pensou, pensou, pensou demais! Do vulgo nego dito cascavel de Itamar Assunção! Saudades de Merlin e a terra deserta e Betty Blue no calor de 37'2. Saudades do Bristol, do ABC, do Sala Vogue, da cachaça e do samba. Saudades do amor de Elizabeth, das suas tetas pretas, os dois pés na África e um coração que me engolia. Foi Elizabeth quem me ensinou, afinal, o que era política.

Saudades, imensas, de Renata Sorrah e Fernanda Montenegro encenando As Lágrimas amargas de Petra Von Kant, me jogando na cara um interior feminino que eu apenas desconfiava existir. Saudades, também, da multidão colorida, das bandeiras verde-amarelas e também vermelhas, uma multidão que tomava conta do centro da cidade, e sabíamos que não somente aqui mas por todo país era a mesma coisa, pois queríamos todos eleger já o presidente da República.

Saudades, uma vez derrotados, por sabermo-nos parte de algo grande que cedo ou tarde iria mudar nossas vidinhas de merda e nosso lugar no mundo, e nós aqui, no extremo sul de um Brasil que eu conhecia tão pouco, sem saber de quase nada. Saudades de amar Carla, de sonhar com uma casa no sítio entre pomares e vagalumes, casa que seria, então, construída em torno de um piano de cauda. E foi Carla, eu acho, agora, fora da hora, que me ensinou essa coisa de saudades.

Que não haja confusão quanto ao que eu estou aqui recordando. Saudade verdadeira mesmo é a do fim de todas as ditaduras latino-americanas que sufocaram, mutilaram e mataram insurgentes mais corajosos do que eu fui. Nenhuma saudade jamais da liberdade aprisionada, da censura, da máquina de encobrimento, quando hoje sei que a pior prisão é a da ignorância assujeitada, consentida e confortável. Nenhuma saudade dos calabouços que foram pouco a pouco tornados visíveis aos olhos incréus até mesmo do pior cego. Nenhuma saudade do milagre da multiplicação da riqueza dos ricos e da miséria cada vez maior dos pobres gentis mestiços brasileiros.

Nada de saudades, ainda que me reconheça filho da ditadura, como criança nascida em berço macio da pequena classe média, que estudou em colégios católicos, que desfilava no sete de setembro e sabia de cor os nomes de todos os ministros de Médici. A verdadeira saudade que brota daqueles verdes anos perdidos é a que traz de volta as pequenas insurgências que hoje fazem parte da galeria dos erros e acertos, e que nunca se possa esquecer o que, afinal, finalmente, passou. Ou pensávamos, sempre ingênuos, que havia passado.

Pois a vida, assim, passou, e nada menos do que cinquenta anos escorreram pela peneira do tempo. E alguns sonhos sonhados tornaram-se realidade, enquanto outros foram, ou esquecidos, ou substituídos pelos que pareciam menos impossíveis, ou, ainda, (os que não se pode esquecer ou substituir) enterrados de vez. Outros sonhos nasceram, acredito, no lugar dos que foram mortos sem um julgamento justo. Cinquenta anos mudaram tanto a superfície do mundo e do Brasil, e mudaram tanto as pessoas ao nosso redor, incluindo aquelas que amávamos e confiávamos, e nos mudaram tanto, ao ponto da gente, às vezes, sequer se reconhecer frente ao espelho.

Passado todo esse tempo, quem são e onde estão os inimigos? Parece haver uma grande confusão que se espalha em todas as direções e eu, confesso, não sei o que dizer ao meu filho que se confunde no mar da informação violada que nos invade todos os dias, ou do ódio travestido em verdades mal contadas, quando já não se sabe quem é o inimigo, ou, ao menos, não se sabe quem veste a pele de cordeiro ou quem, afinal, é o vampiro que vai nos sugar o sangue e a alma no meio da noite.

Nenhuma saudade, pois, do tempo presente, e um medo (medo que se instaura como nunca antes) de um futuro turvo apesar de todas as câmeras de alta definição do Google e de todos os arco-íris da publicidade que preside os destinos da economia e os nossos, despudoradamente cegos outra vez.

E eu olho ao redor e não me encontro. Olho e não vejo minha cidade. Olho e me perdi de quase tudo. O legado mais virulento dos anos sem liberdade, maior e mais destrutiva herança daquela ditadura que nunca foi vencida mas simplesmente bateu em retirada, acredito, é a condição anômica que esvaziou, de nossos brasileiros corações, a noção de nação. E eis, penso, pensamento um tanto ingênuo, o que precisamos agora é de um sentido de nação que nos junte além das ideologias e, sobretudo, além das diferenças entre nós manipuladas e tornadas mercadoria em um mundo, acredito, destinado a transformar-se em um deserto. Eu olho ao redor e percebo que meu filho e as filhas e filhos de todos os brasileiros merecem que façamos melhor, bem melhor, do que fizemos até agora.


Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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