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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

Multidão: um propósito para um primeiro de maio

"Nada está perdido si se tiene el valor de proclamar que todo está perdido y hay que empezar de nuevo." (Júlio Cortázar, "Rayuela",1963)



chess.jpgAcordei cedo, como de costume. Não é porque seja feriado, nem, ao menos, por estar encostado no ienepeésse, que vou ficar desperdiçando meu tempo já perdido, perambulando entre pensamentos e sonhos no desalinho da cama. Há muito o que fazer, se é que me entendes, e blá.

Então já é primeiro de maio, outra vez. Opa. O ato falho me faz balbuciar, olhando a gata adormecida no pufe que lhe é de direito: – Primeiro de Mao. Tsé Tsé, aquela mosca da doença do sono, se bem me lembro. Uma adocicada ironia me anima e sorrio. Primeiro de maio, dia do trabalhador, se é que bem me entendes. E não dia do trabalho, como às vezes dizem, como constantemente dizem por aí. Dia do trabalho é todo o dia, até o primeiro de maio, mas o que faz desta data uma marca na História é porque neste dia, entre outros tantos acontecimentos que talvez tenham sido deixados de lado, iniciou-se uma greve na América de Cima pela humanização, digamos assim, da jornada de trabalho e, depois de muita confusão, pessoas morreram e foram presas e alguns trabalhadores enforcados, não em um primeiro de maio mas em um onze de novembro que era uma sexta-feira e que ficou conhecida então como sexta-feira negra mas hoje black friday é dia de promoções superbacanas de lojas idem para criar necessidades irresistíveis para os trabalhadores se endividarem um pouco mais. E blá.

Levantar-me-ei – disse o procrastinador, virando-se de lado. Não, levantarei mesmo desta cama. Levantarei e andarei descalço até a cozinha. Um café forte porá as coisas em marcha. É dia de trabalho aqui em casa. Está uma manhã cinza. Cai uma garoa tão fina e fria que parece invisível e parece que congelará a qualquer momento. Uma manhã assim é um prato feito às metáforas da vida, penso, enquanto, de fato, me ponho de pé.

Hoje parece ser um bom dia para tomar algumas decisões. Comprometer-me com certos propósitos. E, porventuramente, leva-los a sério. Propósitos não surgem do nada, não são coelhos que saem da cartola. Estão mais para gatos. Eles estão ali, na mente, escondidos, espiando. São gatunos muito silenciosos e insidiosos. Quando menos se está preparado, eles saltam sobre você. E você não tem chance nenhuma. E acabou. Sua vida acaba de mudar.

Da procrastinação serena à obstinação maníaca se vai na velocidade da luz.

Preparei o café como de costume. Sou um homem de hábitos. Encho a caneca e saímos, a caneca e eu, fumegantes, em direção ao escritório. Ali estão amontoados algumas centenas de livros. Talvez, um milhar. Este momento do dia é um momento de desfrute interior profundo. Pego uma flanela macia e começo a limpar a poeira dos livros, um a um, sem pressa, entre goles curtos do café forte mas precisamente adoçado.

Tomei esse propósito muito a sério há exatos três anos, no primeiro primeiro de maio que passei nesta casa. Trata-se de uma tarefa impossível de ser completada. Muito antes de tirar a poeira do último livro, os primeiros já necessitam de uma boa limpeza outra vez. Não há solução para isso, a menos que eu contratasse um punhado de pessoas e cada uma delas se ocupasse de uma das estantes. Mas isso seria um despropósito. Seria ilegal frente à norma que estabeleci como propósito pessoal. Então, eu preciso continuar a tarefa de Sísifo mas, por ventura, trata-se de livros e não de uma imensa pedra de mármore a rolar montanha abaixo todos os dias.

Uma caneca de café é combustível para a limpeza de entre dezoito a vinte e seis livros. A quantidade é contingente ao tamanho dos livros escolhidos. E isso é mais ou menos um jogo de sorte ou azar. Como eu disse antes, sou um homem de hábitos.

Ocorre que hoje, justamente hoje, primeiro de maio, numa manhã chuvosa de garoa fina e fria, calhou de eu buscar na estante, às cegas, meu exemplar do I-Ching, edição completa e definitiva traduzida pelo mestre taoísta Alfred Huang. Como se sabe, durante a Revolução de Mao, mestre Huang foi preso e condenado à morte. Não o mataram, mas ele passou treze anos engaiolado. Aproveitou muito bem esse tempo, meditando e aprendendo sobre o I-Ching. Ele deve ser uma pessoa extraordinária que eu adoraria conhecer. Pelo que sei, ele está com noventa e sete anos e segue muito bem de saúde física e mental. Há poucas chances, devo admitir, de que algum dia eu venha a conhece-lo pessoalmente.

Pois bem. O propósito deslizou sorrateiramente, como costumam fazer os gatunos propósitos, e se instalou imperialmente na minha mente consciente. Imediatamente, minha mente enviou um comando às suprarrenais que, em um piscar de olhos, inundaram meu corpo com uma descarga poderosa de adrenalina.

Como se bem sabe, a adrenalina é o hormônio responsável por preparar o organismo para a realização de grandes feitos e é secretado pelas glândulas suprarrenais, assim chamadas por estarem acima dos rins. Em momentos de estresse, as suprarrenais secretam quantidades abundantes desse hormônio que prepara o organismo para grandes esforços físicos, estimula o coração, eleva a tensão arterial, relaxa certos músculos e contrai outros. Entre outros efeitos. Aprendi isso na Wikipedia.

Pois bem. O propósito estava diante de mim, como as letras aparecem nítidas e brilhantes na tela de um computador. A partir daquele dia, um primeiro de maio, não que isso seja, de forma alguma, relevante para nada, eu conduziria todos os meus dias, isto é, incluindo todas as minhas ações conscientes ao longo de cada dia, conforme os hexagramas do I-Ching me fossem revelados pelo sorte-azar das varetas ou das moedas. E tudo estava tão claro que só me restava começar imediatamente o sorteio dos propósitos do dia (propósitos estes, diga-se aqui, orientados por um propósito maior).

Pois sim. Para consultar o oráculo, proponho-me, por comodidade que não ferirá a norma, utilizar o método das três moedas, bem mais acessível do que o método das varetas de caule de milefólio, ou mil-folhas, que se confunde, às vezes, com a macela que, de fato, poderia ser uma boa substituta mas, ainda que perfumada e, de lambuja, podendo brindar-me com um chá dos mais saudáveis, o arbusto não estaria sempre disponível, sem falar que a aplicação do método é bem mais demorada e, como disse e repito, não tenho tempo a perder.

Muito bem. O método das três moedas consiste simplesmente em jogar três moedas seis vezes em sequência, de modo que cada jogada gera uma linha do hexagrama e isso leva uns poucos minutos. Eu costumava jogar, quando jovem, amiúde, o I-Ching, usando três moedas antigas e sempre me parecia bem. Jogava mais eventual do que regularmente, de modo que não se podia falar em hábito mas, mais precisamente, em acidente ou circunstância ou, ainda, simplesmente, passatempo. Mas isso foi antes porque agora o propósito exige habituar-me.

Muito sim. Asseverei-me de revisar o protocolo e procedi com calma os seis lançamentos. A composição do hexagrama foi sendo relevada linha por linha. Uns poucos minutos e já ali estava um desígnio que haveria de orientar meu primeiro de maio. O conjunto das seis linhas formou o Shi, ou seja, a Multidão, sobre o qual, no resumo que guarda a decisão, Huang me disse: seja perseverante e reto / para uma pessoa de espírito nobre / boa fortuna / nenhuma culpa.

Sim, sim. Bastante apropriado, tomando-se em conta o dia, o clima e as circunstâncias da minha vida então, que, assim no mais, não estão para passatempo ou acidentes. No comentário em verso, muito apropriadamente, Huang foi bastante mais minucioso sobre o sentido de Shi. Transcrevo suas palavras, melhores que as minhas, pois precisão é aqui um fator a ser levado em muita conta.

shi blue inksmall.jpg

Shi é multidão. A persistência leva à Justiça. Aquele que consegue liderar a multidão para persistir na justiça é capaz de trazer paz ao mundo. Firme e central, ele obtém uma resposta. Correndo o risco de empreender uma ação perigosa, não enfrenta nenhum obstáculo. Para confiar nisto, mantém a ordem pública, e o povo o segue. Boa fortuna. Que erro haveria?

Ah, com que claridade me sinto orientado com este propósito para as minhas ações do dia. E é primeiro de maio. Que erro haveria? Exceto que cai essa garoa fina e fria que parece que vai congelar os ossos a qualquer momento, penso. Mas Shi está bem. Foi uma boa jogada, afinal.

Por volta do meio da manhã, recebo a mensagem de Paola, desmarcando incondicionalmente nosso encontro da tarde, quando pretendíamos caminhar pela orla do rio, primeiramente para o Sul e retornando ao Norte quando estivéssemos satisfeitos com a trilha de pegadas que deixaríamos na areia.

Eu tento pensar numa resposta, ainda que a incondicionalidade da mensagem signifique um obstáculo. Chego a rascunhar: – Pena este dia cinza e esta garoa fina e fria. Mas eu sou aquele que acredita em mudanças e milagres, sobretudo quando é primeiro de maio.

Mas, em tempo, dou-me conta da incoerência da minha reação de lufa-lufa (expressão quase em desuso que nada tem a ver com Harry e significa algo como corre-corre). Eu poria tudo a perder. Quebraria o propósito. Para trazer paz ao mundo e garantir boa fortuna, não devo correr o risco de uma ação perigosa. Eis, pois, que a persistência leva à justiça. Combino com Paola uma próxima oportunidade. Dependerá, é claro, de como as moedas forem lançadas por meu coração prudente. E blá. stairs.jpg

Com amor, para Luís Inácio. Outono de 2018.

Ilustrações: Leandro Andrade, 2018.


Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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