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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

epitáfios não verbais

"Se minha vida durasse mais alguns anos, eu dedicaria cinquenta deles ao estudo do Livro do I, e então talvez eu me tornasse um homem sem grandes defeitos." (Confúcio, aos 70 anos de idade)

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SE UMA FOTOGRAFIA PUDESSE ME SERVIR DE EPITÁFIO, hoje seria esta imagem capturada quase por acaso, numa brecha do olhar, mas que, pelas circunstâncias de sua captura, termina que mexe comigo.

Fotografia não é nem nunca foi a minha praia. Boas fotografias, para mim, mesmo com todas as automações da fotografia digital, são um puro acaso; e muito raramente intenções. A oportunidade desta imagem foi um destes raríssimos momentos em que o acaso e a intenção se encontram. Isso no tempo curtíssimo entre a percepção da lua no céu e o disparo da câmera.

Simetria, assim, neste acaso, que aproxima o muito perto do muito distante, numa visada astronômica; simetria efêmera, que só existe num instante, instantâneo de um ponto de vista, e já não está lá; simetria que, transposta ao espaço gráfico, convida à exploração dos contrastes cromáticos. Implicando, por extensão, em humores variados.

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Mas não é qualquer valor compositivo ou estético ou gestáltico que torna esta fotografia aquela que, se fosse hoje aquele dia que é melhor não dar nome ou verbo, decoraria minha tumba. São razões muito particulares, neste diálogo inconsciente entre mente e coração. São questões que têm a ver com momento e o momento tem a ver com memória mas também com o próximo dia do resto da minha vida. Mas basta dizer que, naquele efêmero instante, eu estava feliz mas, um instante antes, como se o tempo fosse composto de quadros discretos, eu não estava feliz. E um instante depois eu estarei provavelmente feliz. E sobre este assunto vou parar por aqui. Ponto.

Se uma música pudesse me servir de epitáfio, hoje, seria Gigante, do Bixo da Seda, banda de rock porto-alegrense dos anos 1970 e que originalmente, nos sessenta ainda, se chamava, pasmem, Liverpool.

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Não sei se existe algum estudo acadêmico que se debruce sobre a questão quantas diferentes músicas, em média, uma pessoa ocidental urbana, no começo do século XXI, ouve, ao menos uma vez, ao longo de sua vida. Mas, intuitivamente ou por experiência, sabe-se que são muitas. Essa imprecisão não chega a atrapalhar o pensamento porque a questão de pesquisa é, provavelmente, penso eu, irrelevante para todos os fins.

Poderia ser porque, em um domingo muito distante, aos treze anos de idade, eu e aquele amigo, um tanto insurgentemente, resolvêssemos que iríamos assistir ao nosso primeiro show de rock na vida. E lá estavam os caras, no teatro mais bacana da cidade. Tudo – som, luz, pessoas, aromas novos aos narizes recém chegando à adolescência – era mágico. O que aprendemos é que show de rock não se assiste: se balança, se dança, se mistura na massa ao encontro da tribo. E vi o Bixo tocar mais uma meia dúzia de vezes, enquanto a banda durou.

Mas g i g a n t e  é pungente, na voz do Foguete Luz. São versos ingênuos. Uma ingenuidade ritual e necessária. Quando se é adolescente em uma cidade um pouco à margem. Quando se cruza essa cidade em noites sem outro objetivo a não ser andar pela cidade. Quando se vive uma ditadura e nem sabe o que está acontecendo, de verdade, la fora. Quando você se acha diferente dos seus amigos pois a vida com você brincou, e abriu o céu diante de você. Tudo o que você quer é tocar em uma banda de rock e deixar a vida fluir.

Eu sei o que você pensou (você que me conhece tão bem). Pensou que eu cairia na armadilha mental óbvia de escolher aquela canção melancólica do King Crimson, Epitaph, pelo verso do Peter Sinfield – confusion will be my epitafh – e esta seria uma boa escolha, certamente. Mas se fosse, não apenas uma música, mas um álbum inteiro? Então, In the Court of Crimson King continuaria sendo uma boa escolha, uma das mais prováveis, dado o tempo vivido que o disco representa ainda. Mas hoje, não. Hoje eu vou escolher Godbluff do estranhíssimo Van der Graaf Generator. Obviamente, por Undercover Man e seus versos que são enigmas. E ponto, não se fala mais nisso.

Se uma obra de arte pudesse me servir de epitáfio, seria algo de DE CHIRICO. Talvez, por hoje, O Enigma da Hora. Paisagem metafísica como forma arquitetural da cidade, neste caso, dominada pelo relógio que marca seis minutos para as três horas – imaginasse, pela luz, que seis para as três da tarde. Os cinco arcos, cinco passagens metáforas para entender as coisas entre o espaço iluminado da praça aberta e a sombra pétrea. A branca figura solitária em primeiro plano em frente aos arcos. Outras figuras fugidias que se adivinha entre o lado de dentro e o lado de fora.

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Uma vez, um dos meus professores de desenho disse que algumas coisas que eu fazia lembravam De Chirico. Eu me senti nas nuvens. Então, se, para me servir de epitáfio, eu fosse escolher um desenho que eu mesmo desenhei, eu escolheria este que chamei, alguma vez e por alguma razão, Júlia na margem.

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Hoje eu o chamaria entre margens. Os motivos de um ou outro nome são, penso, contingentes. Mas sei que gosto de como se compõe. Gosto de que tenha um cais. Gosto que tenha um balão. Gosto das cores primárias como pedacinhos de MONDRIAN. São como papeizinhos juninos colados à sorte do acaso. Gosto que se limite pelo azul do céu e da água. Um mesmo azul me serve ao céu e à água.

Se este desenho fosse um guá, se chamaria Kan – escuridão – e seria água sobre água e traria o seguinte alerta: caindo em um poço dentro de outro. Mise em abyme: trata-se precisamente de como lidar com situações difíceis e perigosas. Entre margens: penso que faz sentido. 

Se um livro (e apenas um) pudesse me servir como epitáfio, seria Tortilla Flat, de JOHN STEINBECK. Certo, precisamente. Parece haver uma incongruência com o enunciado do texto. Livros, afinal, são verbais. Quase sempre são. Mas, no caso presente, não se trata do que o livro trata. Não se trata de seu conteúdo formal, digamos assim. Trata-se do objeto e suas qualidades objetivas mas, sobretudo, aquelas subjetivas. Refiro-me ao modo como o livro se encaixa entre as mãos no ato da leitura. Ao cheiro de livro novo ou de livro guardado na biblioteca. À textura das páginas. À gramatura do papel. Ao desenho da capa. Ao modo intangível como aquele livro, exatamente, àquela hora exatamente de sua vida, insinuou-se e penetrou em seu coração.

Lembro aqui da casa talismã de Danny. De como ele e seus amigos levavam a vida. De como os acontecimentos sucediam-se entre êxitos e fracassos, tal e qual as canecas de vinho barato bebidas ao léu. De como toda a sorte de boas sortes e desgraças podiam se abater sobre Danny e seus amigos e tudo se celebrava e se perdoava com uma caneca de vinho barato bebido sob o céu. Lembro, também, como, ao final, contou Steinbeck, o talismã se desfez na errância de viver. E quase esqueço de dizer que o livrinho foi comprado em um sebo em Buenos Aires por volta de 1990.

(se fosse apenas um conto, então seria, indubitavelmente, INTANGÍVEIS INC., de Brian Aldiss, porque fala de propósitos, e porque ensina uma esposa a enganar o marido por cinquenta anos usando apenas um espanador de pó.)

E SE FOSSE UM PRATO? Uma receita para levar para o túmulo, com perdão do humor negro, parece bem coerente com esses tempos modernos, nessa era de gourmetização ilimitada. Mas não um item de cardápio de restaurante de fim de semana. Algo que você mesmo preparasse, em ocasiões especiais ou nem tanto. Algo que viesse de sua herança, de suas lembranças de infância, de família feliz reunida. Enfim, algo que despertaria saudades ou água na boca a quem quer que visitasse sua lápide.

Algumas opções me vêm à mente, mas uma se impõe, lógica e soberana. Cresci com aquela imagem pouco comum, mesmo para os então mais ricos, de um bacalhau seco e salgado pendurado na lavanderia (sim, lugar deveras pitoresco para se pendurar um bacalhau), esperando o momento em que viraria uma das sete maravilhas da cozinha de minha mãe. A primeira vez em que me atrevi, eu mesmo, a preparar o bacalhau, segui uma pulsão que era pura memória brotando do coração. Para espanto geral, ficou tão bom que o atrevimento se tornou relativamente comum. É a primeira vez que tento equacionar a receita com palavras. Mas seria algo assim:

Ingredientes

Mais ou menos meio quilo de bacalhau do mercado público. Uma cebola grande. Meio pimentão (cor conforme a preferência). 4 dentes de alho. 4 batatas médias. 3 tomates pelados. Um punhado de azeitonas verdes graúdas. Óleo de oliva português sem moderação. Sal e pimenta a gosto. O ingrediente secreto.

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Modo de preparo

Dessalgue o bacalhau por 24 horas, trocando constantemente a água. Antes de começar a lida culinária, certifique-se que eliminou quase todo o sal. Pique a cebola, o alho e o pimentão. Amasse os tomates até ficarem um purezinho. Corte as batatas em pedaços grandes. Corte o bacalhau em bocados generosos. Escolha uma panela grande o suficiente. Dê aquela fritadinha básica no alho, na cebola e nos pimentões em óleo de oliva. Acrescente mais óleo e os bocados do bacalhau e, em seguida, as batatas. Misture tudo e deixe fritar por uns três minutos. Acrescente o sal (com moderação) e a pimenta (nem tanto). Mexa. Acrescente os tomates e, se for o caso, um pouquinho mais de óleo. Lance as azeitonas sobre a mistura e misture. Deixe cozinhar por uns momentos e cubra com água (não exagere). Deixe cozinhar, em fogo médio. Mexa. Prove. Deixe cozinhar um pouco mais. Prove. Mexa. Cozinhe mais uns minutinhos. Prove. Sirva com arroz e mais alguma coisa a seu gosto. Não esqueça do ingrediente secreto. Sugestões de sobremesa: ambrosia ou pêssegos em calda. Serve duas pessoas com folga.

Mas se fosse para escolher uma viagem, hoje, eu não escolheria nenhuma longa viagem, nenhuma lembrança de férias, nenhuma recordação de praia, nada de saudades da vida provisória que uma viagem representa. Nada de muitas emoções, nada de muita aventura, nada de muitas descobertas. Ao menos quanto a lugares ou paisagens ou pessoas.

Escolheria aquela viagem de uma noite apenas – mais propriamente uma noite costurada de muitas noites que se juntam em uma só na memória – naquela cidade pequena e fria, quando sozinho em um quarto pequeno e aquecido no Hotel San Carlos, quando lá fora a temperatura beirava zero, quando todo o peso havia sido deixado em uma casa naquela outra cidade. Uma noite inteira apenas ficando junto à janela e olhando a cidade de seu ponto mais alto. A cidade silenciosa, como se parada no tempo, sem vivalma nas ruas. Fazia frio. A cidade movia-se no espaço.

E então, na medida em que os ouvidos iam se acostumando ao silêncio, de bem longe, baixinho, a melodia ponteada da gaita vinha como por mágica, insinuando-se por uma frestinha da janela. Fazia muito frio mas eu me sentia aquecido. Caía em uma espécie de transe e logo já amanhecia.

Se, para ilustrar o continente de uma vida, uma casa, entre as casas que desenhei, pudesse ser este epitáfio, seria aquela casa outra, aquela jamais construída.

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Uma casa para ser habitada pelos deuses domésticos, como pensou Bachelard. Retida entre os alvéolos do tempo, como refletiu o filósofo. Casa que deve abrigar a imensidão íntima dos pensamentos sequer pensados em voz alta na mente. E mais, creio, não preciso dizer.

Eis que, se este epitáfio tomasse a forma e o sentido de um guá, eu haveria de lançar, por seis vezes, as três moedas de cobre, e ver as linhas do augúrio sendo descobertas uma a uma para formar a figura que contém vento sobre vento.

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Xun: prosseguir humildemente. Confúcio comenta sobre a decisão.

O símbolo do vento está duplicado. É como repetir a ordem mais uma vez. O firme prossegue humildemente até a posição central e correta. Sua vontade pode se realizar. Os maleáveis submetem-se aos firmes. Há apenas pequena prosperidade e tranquilidade. É favorável ter para onde ir. É favorável ver um grande homem.

Mas talvez o epitáfio mais permanente e adequado para a minha vida, ou qualquer vida que fosse, devesse buscar a imagem de uma biblioteca. Como aquela do Borges. Infinita e meio inimaginável. Construída como um labirinto cuja resolução está sempre a um passo, o próximo passo, e outro, e outro. Como na Utopia de Galeano. Vidas são pouco mais que caminhar.

E se, como no caso de certas ações e reações que a ciência não explica por suas leis, o epitáfio a ser gravado em mármore se tornasse um mistério, seria o mistério da fé. E sendo mistério, permaneceria inacabado no entendimento humano. Aberto, portanto, às interpretações sobre o que seja verdade.

Porque, se pensar epitáfios não-verbais barganhados com um vendedor de intangíveis virasse um propósito diário, amanhã eu escreveria uma lista de coisas e acontecimentos toda diferente.

Quanto a este texto, o clichê da baixa literatura e dos filmes B apontariam para um desfecho em que eu deveria dizer dramaticamente (diria, anedoticamente) que hoje é um dia tão bom quanto qualquer outro para morrer. Mas a verdade é que hoje seria um dia péssimo e eu estou com Confúcio e nos próximos cinquenta anos espero estar bem ocupado com minhas mutações. Costumo dizer aos amigos que isso de envelhecer e morrer é coisa de vocês, não me envolvam nisso não!

Porque muito o que fazer. Ontem, amanhã e hoje. Depois, a gente vê. Um dia de cada vez. Tempo de apaixonar-se, viver um grande amor, e perde-lo ao cair do sol ou no raiar do dia seguinte ou quando o ônibus para o oeste extremo parte da Estação Central. E um dia pode durar um mês ou um ano ou um século, conforme a escala da intensidade das coisas vividas. E o que eu consigo entender disso tudo é que uma vida (minha vida, no caso, e mal dou conta) não cabe em nenhum epitáfio. Nem mesmo se inspirado nas mais altas filosofias.

E se, em uma frase (apenas uma; um epitáfio verbal, portanto), buscasse resumir todo o percurso, seria aquela que Giorgio de Chirico, em 1911, escreveu em latim sob seu primeiro autorretrato: E o que hei de amar, senão o enigma?

E ponto. Até, pois, amanhã, e valeu o peixe.

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Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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