literarquiteturas

percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

TRÊS HISTÓRIAS BREVES SOBRE TRÊS TEMPOS TRISTES

Acho que Deus Nosso Senhor fez o mundo e fez também as contradições e depois, como não sabia onde as havia de meter, é que inventou o homem.
(José Saramago, 1984)


silêncio do homem comum Vobvius.jpg

BREVE E FABULADA LIÇÃO DE HISTÓRIA

Em priscas eras, no começo do século XIII, ao tempo de Gengis Kahn, os mongóis avançaram, do sul ao norte, e para o oeste, com sanha assassina, e conquistaram o mais vasto império jamais conhecido. Um território maior, até mesmo, que o insaciável Império Romano. Os mongóis, como nos ensina a História, faziam pouco de deuses e demônios. Talvez por isso, nada temiam em seu caminho.

Os chineses bem conheciam os guerreiros mongóis, de modo a amuralharem suas cidades e concentrarem suas defesas nos baluartes ao norte, direção de onde, presumivelmente, viria o vento da morte. Mas as muralhas eram derrubadas pelo vento sanguinário e impiedoso dos mongóis como se fossem de papel. E os chineses sucumbiram, pela lâmina das espadas curtas, pela ponta das flechas certeiras, ou pisoteados pelas patas dos cavalos baixos mas robustos dos hábeis ginetes. No avanço das hordas mongóis, os muçulmanos eram abatidos como moscas, e o Islã parecia fadado a ser varrido da superfície do planeta.

Em outras terras, então, os cristãos europeus batiam palmas. Afinal, os mongóis estavam cumprindo a missão a qual eles haviam fragorosamente fracassado.

E os mongóis, sem resistência, se aproximavam da Europa cada vez mais, já dominando o território em que hoje se situam as fronteiras da Hungria.

Não percebiam, esses cristãos, que os mongóis não faziam diferença entre Cristo ou Maomé. Desejavam, simplesmente, conquistar e untar com sangue os caminhos para entintar as patas de seus cavalos.

Entre mitos e verdades, sabe-se, no entanto, que a violência alimenta a violência; o ódio alimenta o ódio; o abismo invoca o abismo.

Uma lição, ao que parece, a que não é dada, aos homens, a faculdade de aprender.

Mas, a certo tempo, em algum dia de agosto do ano de 1227, seja por obra de Allah ou pela Santíssima Trindade, o Grande Kahn, o lobo que engoliria o mundo, morreu após uma febre repentina. Os mongóis desmontaram seus acampamentos e voltaram para casa. Um novo período de prosperidade e sabedoria os aguardava.

BREVE RELATO DE UMA ELEIÇÃO ALHURES

Éramos umas doze pessoas, reunidas em torno da longa mesa em um restaurante em Manhattan. O ano era 2004. Maria, nome fictício, e eu, professores universitários brasileiros, da UnB e da UFRGS, respectivamente. Todos os outros, professores universitários estadunidenses, da Penn State e da SUNY. Falávamos de eleições presidenciais. Eram vésperas da votação que escolheria entre John Kerry, candidato democrata, e George Bush, filho, republicano que buscava seu segundo mandato.

Poucos dias antes, se não me falha a memória (o tempo, como se sabe, ao tempo em que o tempo passa, achata o tempo das coisas em um tempo plano que é a memória dos homens velhos), Lula da Silva, presidente brasileiro, estivera em Nova Iorque para a abertura da Assembleia Geral das Nações Unidas. Lula da Silva estava na moda. Um presidente pop como nunca antes na História do nosso país! Mais pop até que JK! Ganhara manchetes de capa no New York Times. Um caderno cultural inteiro dedicado a ele e ao Brasil. O Brasil estava na moda também. Eu, brasileiro em terras norte-americanas, me sentia quase em casa, apesar da sombra permanente do september-eleven que faziam de mim, estrangeiro, pasmem, uma ameaça irracional.

Agora, passados todos esses anos, todos sabem o que aconteceu. Todos sabem quem foi o vencedor. Todos lembram dos rumores de fraude. Todos sabem que a vida continuou, como sempre continua. Todos sabem, também, o que isso significou na História do planeta, pelos anos seguintes, até os dias de hoje. Mas naquele meio-dia de outono, todos os que estavam reunidos em torno daquela mesa comprida pensavam que seria diferente.

Todos não! Uma única mulher, afro-american-woman, como fazia questão de se identificar, via a coisa toda com outros olhos.

Ergueu-se um brinde à vitória do democrata e aos bons ventos da mudança que soprariam agitando listras brancas e vermelhas. Como se sabe, se as coisas estão bem para os EUA, estão bem para o mundo que se apresenta como “civilizado”.

Mas Caju, nome fictício, a mulher afro-americana, professora na Penn State, com seu “cabelo ruim” pintado de vermelho, com seu delicioso sotaque negro-nova-iorquino que se ouve nos filmes, tomou a palavra para dizer o seguinte:

– Mr. Bush vai ganhar a eleição, dear friends. Sorry, but Mr. Bush vai vencer essa porra!

Breve silêncio. A indignação visível nas caras vermelhas dos outros oito ou nove professores brancos norte-americanos continentais e de um inquieto porto-riquenho. E Maria e eu, meio confusos, um pouco divertidos até. Serenamente, Caju completou seu pensamento:

– Nós vivemos nessa nossa bolha universitária, people! Bullshit! O mundo real is fuckin’ different!

– As coisas são assim… – ela continuou, pedagogicamente – Um terço dos eleitores votarão em Kerry, porque querem mudanças. Um terço votará no Bush, porque querem que as coisas continuem exatamente como estão. O último terço é formado pelos que votam com medo. E são eles que decidirão a eleição.

As we know now, Caju estava com a razão. Mas, naquele almoço, meio festivo, meio nervoso, celebramos a democracia, com o vinho jovem californiano que Miguel, nome fictício, o de sangue latino, recomendara.

E logo veio mais uma guerra. E outra. E mais outra.

BREVE MEMÓRIA DE UMA TRAGÉDIA MIL VEZES REPETIDA

Nesta história, não há nomes fictícios, porque não há nomes. Eu queria que fosse só uma história inventada, ou um sonho triste que eu jamais contaria a ninguém. Mas aconteceu de verdade. Faz muito tempo, e o tempo tratou de apagar os detalhes. Talvez porque fosse necessário esquecer e continuar a vida, e fingir, com eles, com a família destroçada pela tragédia, que tudo voltaria ao normal, e que não era culpa de ninguém.

Era uma manhã que seria diferente de todas as outras manhãs desde então. Fui acordado pela Bete, nome fictício, com olhos assustados, com voz nervosa. Bete me acordava, naquele tempo, quase sempre com um sorriso e carinhos embaixo das cobertas. Bete que era, então, uma das razões, uma das poucas, para que eu saísse da cama a cada manhã.

Um menino de dezesseis anos, um menino bonito, menino que, pensávamos, era feliz, filho dos nossos vizinhos mais próximos, filho de pai e mãe amorosos, que vivia rodeado de amigos, que tinha tudo o que queria, filho daquela classe média abastada meio suburbana, arrogante, esclarecida, culta, elegante, estudante do melhor, ou mais caro, colégio da cidade, matou-se com um tiro na cabeça.

Encontrara a arma no guarda-roupa do pai. Se bem ou mal lembro, deixou um bilhete, como costumam deixar os suicidas, desculpando-se pelo que faria minutos depois. Como costuma acontecer, em tragédias como esta, a culpa não era de ninguém. Ninguém percebera nenhuma mudança no comportamento calmo do rapaz. Tudo estava, até alguns minutos antes, perfeitamente normal. No entanto, havia um revólver no armário do pai. Havia um instrumento mortal a espera de uma razão irracional para ser usado uma única vez. Mas culpados não havia. Nunca é culpa de ninguém, sempre se diz em casos como esse.

Quantas milhares de vezes, antes e depois, em outras casas, com outras famílias, em outras vizinhanças, essa tragédia se repetiu com a vibração de um único e definitivo estampido, dissimulado pelos ruídos da cidade, ou pela música ritualmente escolhida para dar coragem? Apertar o gatilho é o último ato. Há uma história vivida que trouxe a vida a este desfecho, história que a memória logo trata de acomodar, justificar, esquecer. E não há, nunca há, culpados. Assim, o delegado encerra o caso. A vida deve voltar ao normal. Nunca se soube, nunca se saberá a razão da desrazão. Mas há alguém que sabe, e esconde, e guarda para si toda a culpa.

A lembrança terminaria por aqui, a recordação da morte do menino, dia após dia, sendo substituída por novas lembranças de novos acontecimentos porque é assim que a vida continua, e a vida precisa voltar ao normal, e no normal da vida cabe tudo, até a morte de um jovem sem razão para matar-se.

Mas não, a história não termina apenas porque a vida do jovem terminou assim. A história segue porque a vida de todos segue, e a minha também.

Muitos anos depois, eu leio, e me atinge como se outro tiro fosse disparado, um artigo em um jornal da capital. O autor é o pai do jovem morto. Passaram-se, talvez, vinte anos. O pai, nas palavras impressas no jornal, defende o direito dos homens de bem às armas que servem para proteger as famílias desses homens de bem. Defende o direito de matar para defender-se da barbárie que, diz, tomou conta das ruas da cidade e do país. Não percebe, o pobre homem de bem, que a única barbárie que o ameaça está dentro de si, e o instrumento de sua barbárie privada talvez ainda esteja guardado no mesmo armário onde, vinte anos antes, um menino o encontrou.

O que leva um homem que perdeu um filho amado a defender que os homens devam se armar e ter o direito de matar outros homens?

Revivi, então, e muitas vezes depois, a tragédia do menino morto. Talvez a dor desse homem seja tamanha que ele deseje que todos os homens sintam a mesma dor. Talvez ele acredite que sua dor se acalma com a dor de outros pais, de outras famílias, de outros vizinhos, diante de um cadáver, o do filho de outro homem que ele jamais conhecerá. Ou talvez ele seja um monstro que se alimenta da dor e da culpa que as mortes sem sentido fazem brotar em todos nós. Ou talvez sejamos nós, todos, as partes de um monstro que deseja, de nós, escapar. Isso eu não sei, mas o quê e a quem isso importa?

silêncio do homem comum sem cabeça VObvious.jpg

Ilustrações: Silêncio do homem comum. Outono, 2018. Silêncio do homem comum sem cabeça. Outono, 2018. ₢DoAutor.


Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
Saiba como escrever na obvious.
version 2/s/recortes// @obvious, @obvioushp //Leandro Andrade