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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

A VIDA É UMA COISA ESTRANHA AO HOMEM E PENSAMENTOS AFINS: MANIFESTO IDIOTA SOBRE O TEMPO, A JUVENTUDE, A LITERATURA, A FILOSOFIA, A POLÍTICA, A GUERRA, A ESPERANÇA E A REVOLUÇÃO

Lá por volta de 1976, bem no meio da ditadura militar à brasileira, dois caras inquietos, questionadores, artistas que acreditavam em alguma forma de revolução através da arte, Julio Plaza e Régis Bonvicino, escreveram em uma placa de rua o seguinte: "A vida é uma coisa estranha ao homem". Quando conheci essa ideia, trinta anos depois de pensada, isso me pareceu uma coisa muito poderosa, e é uma ideia que me levou a muitos pensamentos, mas era só uma espécie de objeto "readymade" bacana criado por dois artistas que alguns achavam idiotas e ninguém deu muita atenção. Tanto que a placa, hoje, não está em uma praça pública ou em um museu mas na sala de um apartamento. Eu cá penso que um bom lugar seria o monumental átrio da mais alta corte de justiça, como lembrete aos acusadores, aos juízes, ao júri e aos julgados, porque entendo que eles estavam falando de uma coisa importante que toda a tal humanidade está precisando escutar.


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Um pobre ator que chega, agita a cena inteira, Diz seu papel e sai. E ninguém mais o nota. É um conto narrado aí por um idiota, Cheio de sons, de fúria e não dizendo nada. (Willian Shakespeare, Macbeth)

Deixa eu te dizer uma coisa: ser idiota não é nenhuma caixa de chocolate. As pessoas dão risadas de você, perdem a paciência. Dizem que as pessoas devem ser boas com os aflitos, mas escute o que eu te digo: nem sempre é assim. (Winston Groom, Forrest Gump)

Há razões sólidas, líquidas e gasosas para que tanta gente passe a vida na beira da vida. Levando a vida como em uma pose na paisagem: fotografia instantânea e a gente parado ao lado de um coqueiro. Vida de caroneiro à beira da estrada: a impossível dúvida quanto a direção e o sentido a seguir. Vida de vendedor de biscoito Globo na areia de Copacabana: na borda da beira da margem, mas cercado de centro por todos os lados. Enfim, vidas periféricas ao que realmente importa. Razões não faltam. O mundo está lotado de idiotas. Eu sou um deles, entre uns sete bilhões. E há poucas coisas que eu possa fazer em relação a isso. Escrever este manifesto é uma delas.

Há excelentes razões para que eu permaneça parado, idiotizado, olhando a chuva caindo numa manhã de domingo: primeiro violenta, mexida pelo vento, cara feia de manhã de tempestade; depois, lenta, carinhosa, titubeante, e a manhã, consequentemente, deixando filtrar um arco de luz difusa espalhada pelo espectro das cores visíveis. E invisíveis, também.

Enfim, há, de sobra, razões e desrazões: eu sou um idiota, e Forrest Gump não me deixa esquecer: ser idiota não é nenhuma caixa de chocolates.

Neste quadro domingueiro, a chuva quase parou. Agora são apenas uns pingos aqui e ali. Mas, não se engane, nada há de aleatório nesse gotejamento. Há um master plan por trás de tudo isso. Há mais tempestade programada ao longo do dia. Eu permaneço parado. Como se fosse um grito. Sou um grito parado no ar. Questão de temporalidades, mas também de dramaturgias. No caso, o teatro de Guarnieri: seis personagens em um palco e suas razões contra a opressão. Mas poderiam ser seis outros em busca de um autor, como imaginaria Pirandello: rejeitados, fictícios, querendo ser pessoas reais com vidas reais. Mas não é isso o que todos queremos? Não é o que verdadeiramente somos? Tão somente personagens idiotas a iludirem-se com a ficção da vida real?

Ao longo da manhã, o tempo passou e esgotou-se. E eu fiquei parado, vendo o tempo passar, enquanto as coisas aconteciam e eu deixava de acontecer.

Não sei quando foi que o tempo escorreu de mim. Não sei quando o tempo evaporou do espaço em que eu sou. Quando o prazo de validade expirou. Mas agora estou sem tempo para ficar aqui parado, esperando algum acontecimento para que eu faça algum movimento. A verdade é que não tenho mais tempo a perder diante dos fatos e dos contrafatos que andam por aí.

O tempo é um lugar dentro da gente. De maneira que não há como se esconder. Há pessoas que morrem jovens, não importa quanto tempo vivam. E há aquelas que já nascem velhas, e a morte é só questão de tempo, das circunstâncias, ou de oportunidade e coragem.

Estou parado, cercado de pessoas velhas nascidas no século XXI. Estou cercado de jovens exageradamente pacatos para meu modo de ser (minha visão de mundo, isto é, ideologia) de homem nascido no século XX, em um país periférico eternamente emergente, eternamente decadente. Uma juventude irritantemente apática enquanto a vida, o país, o planeta e tudo mais ao redor está indo pelo ralo. Onde anda aquela vontade de fazer revolução que é o espírito flamante da juventude? Eu queria muito ser, outra vez, um jovem revolucionário. Pena que todos, quase todos, o tempo todo ou quase, me digam e não me deixem esquecer jamais que já não sou jovem e sou apenas um idiota a mais nesta terra povoada de idiotas.

A vida é um conto contado por um idiota, cheio de som e fúria, significando nada! Shakespeare talvez fosse um idiota. Faulkner talvez fosse um idiota. Os dois, Williams, talvez não por acaso: talvez haja um plano por trás disso. Eu sou um leitor que quase nunca se cansa de ler: sou um idiota cercado de livros, significando nada ou muito pouco. Muito pouco é muito melhor do que nada mas o bom leitor é, à exceção do próprio hábito da leitura, um procrastinador idiota. Foi por isso que o tempo passou. Contra tal fato, não há argumentos.

Veja-se: alguns dos melhores momentos da minha vida, alguns dos meus maiores amores, as mais excitantes aventuras, eu não os vivi verdadeiramente: alguém os escreveu para mim. Em troca, entreguei meu tempo.

Maio de 1968, por exemplo. Eu não estava em Paris. Eu tinha apenas seis anos de idade e era uma criança feliz. Mais tarde, vivi intensamente tudo aquilo. Lendo em livros, é claro. E Ludmilla? Apaixonei-me imediatamente quando li, pela primeira vez, o seu nome nas páginas iniciais de O Livro de Manuel. Difícil acreditar que ela não exista, quadridimensionalmente, andando por aí, digamos assim. Ela só existe porque existiu na imaginação de Julio Cortázar. Ele a pensou e a escreveu, simplesmente. Entretanto, quando se fala de confusão, o que quase sempre há são confusos. Saber disso não impediu que eu me apaixonasse por Ludmilla. Perdidamente! Uma paixão revolucionária!

Isso é algo que os livros fazem pelo leitor, por exemplo. Esta é a história de vida de um idiota que lê. E já que falei em História, o que se sabe da História é que não se aprende nada com a História. Por isso, como se sabe, leitores e historiadores e professores de História são redondos idiotas, eis que a História, inexoravelmente, ironicamente, hipocritamente, se repete e se repete e se repete, e não há farsa ou tragédia que ensine a lição aos historiadores, professores e aos atores protagonistas dessa comédia tragicamente humana.

Hoje, penso: por isso, nunca levei verdadeiramente a sério, por exemplo, a ideia de me candidatar (e, eventualmente, vencer, por que não?) às eleições, seja para prefeito, governador ou presidente da República. Porque eu sou um idiota! E isso seria uma grande idiotice, penso, satisfeito por nunca ter levado esse pensamento muito a sério.

Entretanto, se eu sou um idiota, aqui auto-representado, assumido, até acostumado e bem acomodado com essa condição, há outros idiotas, triunfantes, auto-extáticos e indulgentes, patibulares e escatológicos, vilipendiosos e corruptíveis, que levaram esse pensamento a sério e acreditaram que, para ser prefeito, governador ou presidente, bastaria ser um idiota seguido por uma multidão de idiotas. De forma espetacular, as urnas lhes deram razão recentemente: somos, pois, governados por idiotas bem mais idiotas do que seria capaz de sonhar esta minha inútil filosofia.

Entrementes, instaura-se, assim, democraticamente, como se viu, uma situação incômoda na qual estamos submetidos ao governo da idiotia. A democracia, essa tão idealizada invenção grega que foi, logo depois, magistralmente corrompida pelos romanos, define o estatuto e o estamento do poder. Hoje, se sabe claramente: é muito perigoso empoderar os idiotas. Mas aí está outra lição da História que não iremos aprender.

Desde meu ponto de vista, há, portanto, enfileiradas razões para que não se confie no governo. Para com estes governos vigentes, aqui e agora, municipal, estadual, federal, planetário, solar, galáctico, cada qual fornecedor de particulares e abundantes motivações para as minhas razões niilistas idióticas, é preciso estabelecer um distanciamento estoico, ou, de maneira mais precisa, um enfrentamento cínico, no sentido que Diógenes, um grego nascido em Sinope no século IV A.C, mas cidadão do cosmos, explicaria mais ou menos assim: deixemos que outros idiotas tomem café da manhã com César; eu tomarei meu café quando me der vontade.

Só para lembrar, Diógenes era aquele grande idiota que morava em um barril e andava pela antiga Atenas com uma lanterna acesa à luz do dia e, a quem perguntasse o que estava fazendo, respondia que procurava por um homem verdadeiro.

Mas é preciso que se diga em alto e bom som: ser idiota é uma atitude política. Andar com uma lanterna acesa à luz do dia é um ato político. Todo idiota é, pois, um ser político. Como idiota, eu tenho direito a exercer minha condição política. Todo idiota tem direito, por exemplo, à manifestação de suas ideias políticas. Por mais idiotas que possam vir a parecer tais pensamentos.

Alguns idiotas juntos podem até fundar um partido. E declarar uma república, por exemplo. Ou encenar uma monarquia de mentirinha para o Idiota rei. E podem, até mesmo, derrubar o rei, e reis se autoproclamarem, por que não? Democracia, ao que parece, não é coisa fácil de se entender quando se é simplesmente um idiota.

Eis que quanta coisa idiota se faz e se diz por aí, justificando versões idiotas da democracia inventada por alguns gregos narcisistas que se achavam amigos da sabedoria. Os gregos também inventaram Narciso que se afogou em si mesmo, cabe aqui lembrar, além de inventarem as sábias ideias do pudor e da justiça, qualidades que deveriam estar distribuídas igualmente entre todos os homens, justamente como condição à democracia. Porque, onde não há pudor e justiça, os homens despedaçam uns aos outros. A vida, definitivamente, não é uma caixa de bombons Garoto.

E tem mais: este raciocínio, de caráter geral, é perfeitamente aplicável para incontáveis situações particulares. Como hipótese, eu diria até que estamos diante de uma espécie de lei que, em certa medida, governa o caos que é aquilo que costumamos chamar de vida.

Por exemplo: eu tenho cá minhas boas razões para afirmar que nunca comprarei um automóvel. Não outra vez! Eu dirigi e possuí automóveis dos dezoito aos quarenta e poucos anos. Diariamente: em quase todos os meus deslocamentos pela cidade, eu estava dirigindo um automóvel. E a cada vez me sentindo menos feliz com a ideia de possuir e dirigir um automóvel. Então, certo dia, roubaram meu automóvel e foi assim que muita coisa mudou. Eu mudei até mesmo de endereço para poder caminhar pela cidade e ir ligando, através do ato político da caminhada, a maioria dos lugares do meu dia-a-dia, organizando, assim, minha vida cotidiana que me serve muito bem. E fiz, inclusive, cálculos que me convenceram que eu passei a economizar bastante dinheiro com as caminhadas. E, então, calculei a quantidade de dióxido de carbono que deixarei de espalhar na atmosfera do planeta, caso eu viva, digamos, até os oitenta anos de idade. E pode parecer excêntrico para muita gente, mas, para deslocamentos mais longos, eu gosto mesmo é de andar de ônibus e não de Uber.

No entanto, eis a questão: muitas pessoas me acham um grandessíssimo idiota justamente por não ser proprietário de um automóvel e gostar de caminhar e de andar de ônibus. Em certas ocasiões, quando estou atrasado ou quando chove, por exemplo, eu quase me convenço de que essas pessoas têm razão. Então, o ônibus encosta no ponto e me safo da ideia idiota que seria possuir um automóvel outra vez.

Um outro exemplo breve, ao modo de parábola, sobre a aplicação da lei: um idiota perdeu um dente, quando voltava do trabalho alegremente comendo um caramelo. Ele sentiu-se profundamente mal, porque havia perdido uma parte de si mesmo. Tempos depois, perdeu um segundo dente. Sentindo-se mal outra vez, ele pensou no que poderia fazer a respeito, mas nada fez. Quando perdeu o terceiro, importou-se um pouco menos. E lá pela quinta vez, importou-se muito pouco, e na sexta, isso já não lhe importava mais nada. O idiota resolveu, então, continuar a levar sua vidinha como sempre levara. Uma vida cheia de muitos pensamentos, que, afinal, eram as coisas que sempre haviam verdadeiramente lhe importado. Mas percebeu, então, que, na inversa medida em que se importava menos com seus dentes, eles pareciam importar cada vez mais aos idiotas ao seu redor. Um idiota vale mais pelos seus dentes do que por seus pensamentos, é o que se pode concluir da anedota. Foi quando o idiota encomendou, na Internet, uma dentadura de diamantes. Isso, talvez, lhe devolvesse seu valor. E, em meio a tão penosos acontecimentos, o idiota compreendeu que tudo isso era parte de sua existência política.

Finalmente, um exemplo que, acredito, esclarecerá precisamente o espírito da presumida lei. Há uma excelente razão para que eu nunca na vida vá comprar uma arma: pois eu sou um idiota!. Coloque uma arma na mão de um idiota e, cedo ou tarde, ele vai usá-la. Questão de tempo, circunstância e oportunidade. Ou tédio, ou diversão, ou pura maldade, quem sabe? Posso ser um idiota, mas não quero, nesta vida, a circunstância ou a oportunidade de morrer ou matar com uma arma na mão.

Mas basta que se junte um milhar ou um milhão de idiotas com armas e logo se tem um exército. E, hoje em dia, é fácil juntar uma multidão de idiotas armados. E um exército só faz sentido quanto se engendra uma guerra. E a guerra, e isso se sabe pela boca de Platão, que, aliás, também era grego, é um capítulo da política que, em geral, os idiotas não leem, ou só leem quando já é tarde demais. Assim, toda guerra é uma invenção dos homens contra outros homens, logo, uma forma de ficção sobre o poder. Matéria da arte, Guernica deveria ser apenas um delírio cubista. Mas é, antes, implicado àquilo que torna a pintura de Picasso uma obra de arte, um manifesto político.

No entanto, a guerra é uma força que nos dá sentido, escreveu o jornalista estadunidense Chris Hedges, que sabia muito bem do que estava falando porque viu e viveu para contar sobre muitas guerras de verdade nos quatro cantos do mundo. Ele viu pessoas despedaçadas em cidades destruídas de verdade a troco de nada e escreveu sobre isso e, quando um idiota como eu lê o que ele escreveu, pensa que a humanidade e o amor dos homens sobrevivem a todas as batalhas como uma forma de compaixão. Mas, depois que se lê e os pensamentos se soltam da leitura, é como se humanidade e amor tenham um lado nas guerras, que é sempre o de quem vence a guerra mas não antes de muito sofrimento. E isso pode fazer mesmo sentido quando se é idiota. A menos que se esteja do outro lado.

Então, deixa eu aqui contar mais uma coisa sobre uma guerra imaginária.

Quando se travou a última guerra, os últimos soldados que chegaram ao front não encontraram sequer um inimigo de carne, sangue e ossos contra o qual lutar. O teatro da derradeira batalha estava vazio. Não havia mais nada: nem o som ou a fúria a dar sentido para que o nada pudesse ser contado em um conto a ser narrado por um idiota. Salvo pelas almas errantes, em busca dos corpos perdidos, o tempo estava parado como um grito sufocado: um grito sem ar, portanto grito abortado no peito, eis que o som não se propaga no vácuo e não há vida, condição para que exista fúria, sem que haja ar. Somente os mortos viram o fim da guerra, e isso quem diz é Platão.

Toda guerra é uma coisa completamente inútil. Tão inútil quanto uma pomba da paz pintada em um quadro na parede em um apartamento com vista para o mar em Copacabana.

Como pensa aquele outro filósofo, um simpaticíssimo italiano chamado Nuccio Ordine, é importante compreender a utilidade das coisas inúteis. Também é importante, penso, compreender porque as guerras matam pessoas em nome de coisas inúteis e de circunstâncias inventadas por idiotas.

Mas, sejamos realistas. Uma arma na mão de um idiota mexe com seu ego e o torna um idiota mortal. Imagina se o ego em questão for o do Idiota rei. Mas, por outro lado, o mundo precisa de petróleo para gerar energia. E é preciso energia para fabricar armas, por exemplo. E para vender armas, nada como uma guerra. Logo, faz sentido travar uma guerra por petróleo.

Mas, se o mundo usasse o vento e o sol para gerar energia, o petróleo, então, seria inútil para certos propósitos e não faria sentido fazer guerras por causa disso. Poder-se-ia, então, usar petróleo para fazer outras coisas inúteis: engenharia reversa, por exemplo, e recriar os dinossauros.

E já que cheguei aos dinossauros, lembrei de outra parábola, inventada por outro filósofo, o argentino Tomás Maldonado, que era também um designer incrível e morreu faz pouco tempo. Ele dizia mais ou menos o seguinte: os dinossauros foram extintos, não simplesmente em razão do impacto de um gigantesco meteoro com a Terra, mas porque eram inteligentes e pessimistas. O pessimismo, aliás, é algo que só é possível quando se é inteligente (Hemingway dizia, por exemplo, que a felicidade é uma coisa rara entre pessoas inteligentes). Pois bem: tomados pelo pessimismo, ao perceberem a aproximação do meteoro, os dinossauros nada fizeram para mudar seu destino. Poderiam ter projetado alguma coisa para tentar impedir sua aniquilação (bombas atômicas, por exemplo) mas ficaram paralisados e, então, sessenta e cinco milhões de anos depois, para diversão de alguns, os humanos inventaram a paleontologia.

O pessimismo anula a esperança, é o que queria nos mostrar o filósofo. Diferente dos dinossauros, os homens, quando não são idiotas, e quando conseguem ultrapassar o pessimismo, são movidos por uma condição que ele chamou de esperança projetual. É o que Maldonado tentava nos explicar.

Por isso, este manifesto lança, aqui, a ideia para uma singela revolução, movida por essa esperança, que almejaria simplesmente trazer de volta à moda os esquecidos valores gregos do pudor e da justiça, distribuindo-os igualmente entre todos e todas, para que os homens não continuem a despedaçar uns aos outros.

O momento é gravíssimo: o abismo é real! E abismos levam a outros abismos ainda mais profundos, como se sabe, em uma cadeia de autodestruição. Tudo terá um fim, cedo ou tarde. Mas nenhum idiota ou nenhum pessimista, por mais idiota ou pessimista que sejam, irá gostar do que vai ver no final. Talvez seja tarde demais. Talvez já tenhamos atravessado o Rubicão, comandados pelo rei Idiota cercado de seus ministros e generais sobejamente idiotas e uma plebe idiotamente contente.

A menos que, nos últimos suspiros da última que morre, um idiota, talvez o mais idiota entre todos os idiotas, erga a voz mais alto do que o coro da idiotia e diga que o rei está completamente louco. E que outros idiotas aprendam a escutar.

De fato, tudo isso me lembra muito a fábula dos alfaiates espertalhões que venderam a certo vaidoso rei idiota um extraordinário traje real que só podia ser visto por pessoas inteligentes. Em um reino povoado por idiotas, a admiração pelo déspota vaidoso beirava ao delírio mitômano. Todos achavam-se, pois, muitíssimo inteligentes diante da esplendorosa visão do rei tão bem trajado. Ainda que o tesouro nacional tivesse sido saqueado até o último vintém para pagar a fabulosa vestimenta real, a roupa nova do rei deixava mesmerizados a todos que observavam tamanha beleza e elegância. Em meio ao aplauso geral dos súditos idiotizados, um só olhar pôde enxergar a constrangedora nudez imperial.

Na fábula original, é uma criança que primeiro vê que o rei está nu no centro da multidão e o desmascara com alegria e esperança revolucionária. Grande vergonha passou aquele rei cuja coroa dissolveu-se no pó da mediocridade. Mas grande vergonha passaram também todos os habitantes do reino que, até então, faziam-se passar por prestantes cidadãos de bem. A mais vistosa e sedutora das aparências, como acontece com as falsas notícias e as sentenças dos maus juízes, a certa altura, perde seu poder de enganação. E, cedo ou tarde, se sabe, a vergonha não poupa nenhum idiota sobre a terra.

Ilustração: Julio Plaza e Régis Bonvicino. Placa de rua, 1976.


Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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