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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

Oitenta Balas

Não vem que não tem! Eu te conheço faz muito. Eu te reconheço e tu a mim. Eu recomeço a luta a cada recomeço teu. Tu enganas, eu não me engano. Tu corrompes, eu resisto. Tu matas, eu semeio. E, aquilo que semeias, eu combato. Contra tuas balas, tenho meu escudo. Sempre que me matares, renascerei.


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A primeira bala foi no homem. A segunda foi no negro. A terceira foi no pobre. A quarta foi no filho. A quinta foi no pai. A sexta foi no índio. A sétima foi na mulher. A oitava foi no músico. A nona foi na família.

A décima foi no sem teto. A décima primeira foi no sem-terra. A décima segunda, no trabalhador. A décima terceira, foi num partido. A décima quarta mirou o coração partido. A décima quinta, no pulmão cansado. A décima sexta, na perna quebrada. A décima sétima, pegou no olho. A décima oitava enxergou o cego. A décima nona calou a boca.

A vigésima apontou no mudo. A vigésima primeira estampou no ouvido. A vigésima segunda surpreendeu o surdo. A vigésima terceira mirou na cabeça. A vigésima quarta calou o pensamento. A vigésima quinta acabou com o sonho. A vigésima sexta atordoou a esperança. A vigésima sétima fez tristeza da alegria. A vigésima oitava tirou tudo da criança. A vigésima nona tirou o quase nada do velho.

A trigésima bala foi na barriga. A trigésima primeira, no sexo. A trigésima segunda, na primeira namorada. A trigésima terceira, na primeira professora. A trigésima quarta, na primeira macarronada. A trigésima quinta foi no último almoço. A trigésima sexta, esperando o ônibus. A trigésima sétima, no silêncio do velório. A trigésima oitava, na fila da sopa. A trigésima nona foi sob a marquise.

A quadragésima bala foi no dia do trabalho. A quadragésima primeira, com carteira assinada. A quadragésima segunda foi o primeiro salário. A quadragésima terceira foi um beijo roubado. A quadragésima quarta, um quarto de hotel. A quadragésima quinta, uma casa comprada. A quadragésima sexta, um fogão. A quadragésima sétima, a geladeira. A quadragésima oitava, a televisão. A quadragésima nona, um colchão.

A quinquagésima bala foi em um dia na praia. A quinquagésima primeira foi o biquíni da nega. A quinquagésima segunda foi ao rolar na areia. A quinquagésima terceira, o cheiro dela na pele. A quinquagésima quarta bala foi a melhor coisa da vida A quinquagésima quinta, também. A quinquagésima sexta bala te alcançou nos rins. A quinquagésima sétima foi na beira do rio. A quinquagésima oitava foi na mata atlântica. A quinquagésima nona foi na floresta amazônica.

A sexagésima foi no cerrado. A sexagésima primeira foi no pampa. A sexagésima segunda o atingiu na cidade. A sexagésima terceira foi o tiro capital. A sexagésima quarta foi porque era estrangeiro. A sexagésima quinta, porque era paraguaio. A sexagésima sexta, senegalês. A sexagésima sétima, porque era boliviano. A sexagésima oitava, bateu no haitiano. A sexagésima nona bala buscava o pernambucano.

A septuagésima tinha um alvo mas errou. A septuagésima primeira bala quem disparou foi o soldado. Mandado! a septuagésima segunda, foi o cabo. Mandado! A septuagésima terceira quem disparou foi o sargento. Mandado! A septuagésima quarta, foi o tenente. Mandado! A septuagésima quinta bala não saiu do fuzil do capitão. A septuagésima sexta bala foi ordenada pelo general. A septuagésima sétima bala atingiu a república. A septuagésima oitava bala feriu a democracia. A septuagésima nona bala perguntou o que é verdade.

A octogésima bala matou um inocente. Não vem que não tem! Eu te conheço faz muito. Eu te reconheço e tu a mim. Eu recomeço a luta a cada recomeço teu. Tu enganas, eu não me engano. Tu corrompes, eu resisto. Tu matas, eu semeio. E, aquilo que semeias, eu combato. Contra tuas balas, tenho meu escudo. Sempre que me matares, renascerei. Não serão oitenta balas.

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Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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