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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

Patética: uma recordação juvenil

"O que mais me interessa nessa peça é a parábola circense - os atores de circo que são atores de teatro, que fingem ser atores de circo, que representam uma peça de teatro, que é uma história verdadeira.” (Flávio Império)


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O ano era, se bem me lembro, 1980. E eu estava completamente apaixonado por aquela menina da Faculdade de Arquitetura. Mas, é claro, ela nunca ficou sabendo disso.

Todos os finais de semana, íamos ao cinema ou ao teatro, depois tomávamos algumas cervejas ou uma garrafa de vinho, às vezes jantávamos no Walter e, na manhã seguinte, caminhávamos pelas ruas do centro (que, naquela época, não se chamava de “histórico”), olhando para o alto dos prédios, descobrindo estátuas, cornijas e frontões.

Era o que de melhor podíamos fazer, então, naquela Porto Alegre provinciana e mormacenta. Isso em um tempo em que, por aqui, não elegíamos nem prefeito, nem governador, nem presidente. Eram tempos de medo, é claro, mas, em nossa inquieta juventude, eram também tempos de esperança. Nada dura para sempre! – costumava-se dizer, e a democracia (na verdade, nós só a conhecíamos de ouvir falar) logo haveria de chegar.

Então, naquela noite de sexta-feira, fomos assistir Patética, peça dirigida por Celso Nunes e com Bete Mendes atuando no papel de Clara, mulher do personagem Glauco Horowitz, no “falecido” Cine Teatro Presidente, onde hoje há um “descolado” (e, arquiteturalmente, duvidoso) empreendimento imobiliário.

Patética foi escrita em 1976 por João Ribeiro Chaves Neto, cunhado de Vladimir Herzog, jornalista torturado e morto, um ano antes, nos porões do DOI-CODI, em São Paulo. O texto, vencedor do VIII Concurso Nacional de Dramaturgia promovido pelo Serviço Nacional de Teatro em 1977 (não sem a tentativa de fazê-lo “desaparecer” da competição), foi imediatamente censurado. Finalmente liberada em 1979, no espírito da chamada “abertura lenta e gradual”, a peça foi encenada pela primeira vez em 1980.

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Uma trupe de artistas mambembes, prestes a ser despejada do terreno que ocupa, realiza uma última performance. Mas, deixando de lado as atrações habituais, os atores, conduzidos pela figura barulhenta do palhaço, contam a história da família Horowitz. Como em um espelho, um jornalista assiste ao espetáculo e torna-se, ele próprio, alvo de perseguição. Valendo-se dessa metáfora circense, João Ribeiro Chaves Neto narra a trajetória de Herzog (que na encenação ganha o nome de Glauco) até seus últimos dias da vida, e a luta da família para provar e denunciar o seu assassinato. Era esse o espetáculo que, sem saber de muita coisa, iríamos assistir.

E foi emocionante! Como em uma sucessão de socos na boca do estômago, nos sentíamos aturdidos pelo jogo de cena, pelo cenário, pelo desempenho brilhante dos atores, e atordoados, sobretudo, pelo horror daquela narrativa que, em outras circunstâncias, pareceria, talvez, inverossímil. Lembro dela (a menina por quem eu era apaixonado e para quem nunca revelei minha paixão) com lágrimas escorrendo pelo rosto pálido, olhos muito abertos, o pensamento vagando em torno daquela história verdadeira. Até que as luzes se acenderam, marcando o fim do espetáculo.

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Mas, no lugar dos atores reunidos para receber os aplausos emocionados da plateia, no palco surgiu apenas um homem. Dirigindo-se ao público, ele informou que o quarteirão do teatro estava cercado pela polícia (ou sabe-se lá por quais demônios). Todos os atores, então, voltaram ao palco e sentaram-se no proscênio, bem próximos às pessoas que, até minutos antes, os viam como personagens de uma peça teatral. Agora, eram pessoas reais.

Formou-se, assim, uma roda de conversa (ninguém da plateia se mexeu em direção à saída) que durou, não sei, minutos, horas… tempo bastante para que compreendêssemos que cada uma das pessoas ali reunidas, atores e público, não mais viviam, naquele momento, uma obra de ficção. Então aquele homem retornou, e informou que as ruas estavam livres e seguras, e que podíamos voltar para nossas casas. Mas demorou ainda um tempo, antes que o primeiro de nós se movesse de dentro de si mesmo.

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(Em tempo 1: para quem se interessou pela “verdadeira história de Glauco Horowitz”, Patética foi publicada pela Editora Civilização Brasileira; até onde sei, o livro está esgotado, mas é bem fácil consegui-lo em algum sebo) (Em tempo 2: há quem diga, e bem que pode ser verdade, que a “polícia lá fora” fazia parte da encenação. Mas eu prefiro acreditar na minha memória romântica) Imagens: acervo de Flávio Império (cenário, figurino e encenação); capa da edição do livro pela Editora Civilização Brasileira, 1978.


Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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