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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

INSÔNIA

Ou quando a vigília se torna um ato político.


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O pior é quando não se consegue parar de pensar. A gente tenta, mas a cabeça teima em voltar àquele sempre mesmo lugar. A gente tenta dormir e não dorme, se mexe na cama, levanta, caminha pela casa, volta para a cama. E volta a pensar na mesma coisa.

Quando se perde um grande amor (quando se acha que perdeu um grande amor, ou quando se perdeu o que achava que era um grande amor) é assim, não é não?

Pois eu ando assim, sem conseguir parar de pensar. Volta e meia, perco o sono, fico andando pela casa. Volto para a cama, e o pensamento volta junto.

Como não tenho pílulas mágicas na gaveta do criado-mudo (que nome mais estapafúrdio e preconceituoso para a mesinha de cabeceira, mas isso já outro assunto), eu fico lá, revirando na cama, e lá pelas tantas, cansado de estar cansado, eu ligo a TV para ver uma reprise de uma série boboca.

Tenho andado assim. Mas não é, exatamente, porque perdi um grande amor. Ou, pensando bem, talvez seja exatamente isso: estou perdendo um grande amor! Estou perdendo o Brasil.

E eu amo esse país de merda!

Meu filho quer ir embora. A mulher que eu amo quer ir embora. Não por ela, simplesmente. mas porque pensa nos seu filhos. Filhos que também amo.

E eu resisto: não quero ir embora do Brasil. Sou um cagão geográfico. Sou um apegado compulsivo aos meus lugares, a minha casa, ao meu pequeno ateliê, a minha pequena biblioteca, ao meu Centro Histórico cada vez mais povoado por pessoas que não têm casa.

Minha casa (na verdade, um apartamento velho no Centro Histórico, térreo, com um ótimo pátio) não é lá a Mercedes das casas, sequer uma Brastemp das casas. Então, como arquiteto que ainda, teimosamente, sou, vivo pensando em reformas: pequenas e grandes, enquanto penso, compulsivamente, na casa dos meus sonhos, quando sonho acordado.

Voltando, então, à questão da razão que tem me feito perder o sono e, por consequência, perder o sonho, vou tentar, metaforicamente, explicar àqueles e aquelas que ainda não desistiram de ler este texto.

Há gente que mora em casas muito ruins, em barracos construídos do jeito que deu, onde deu, e que vive com medo, muito medo, cada vez mais medo.

Há gente que mora em casas ruins, compradas do jeito que deu, remando a dívida do jeito que dá, e que vive com medo, cada vez mais medo.

Há gente que vive em casas mais ou menos (este sou eu), compradas, também, do jeito que deu, mas que pode pagar pela casa-mercadoria e, então, é dono da casa: proprietário! Mas vive com medo, certos medos, menos medo, ainda assim, medo.

Há, claro, gente que vive "de aluguel": com medo, medo, medo, muito, muito, medo!

Há gente, por outro lado, que vive em palacetes, pequenos palácios, paraísos construídos para poucos. E importa pouco, aqui, como pagaram por suas mansões, embora eu desconfie que quase toda essa gente acredita que comprou por seu próprio mérito e por isso, diferente de mim, dorme bem.

E há, finalmente, mas não menos importante, ao contrário, em minha linha de pensamento, aquela gente que mora mas não tem casa, que mora onde os outros caminham, que mora na rua, nas calçadas onde a gente pisa e os cachorros dos que têm casa mijam (essa gente da qual faço parte que caminha onde outros moram).

Essas pessoas que moram sob marquises, pessoas que vivem sob os viadutos, que dormem em camas improvisadas e se cobrem com papelão, têm, surpreendentemente, um superpoder: eles são, quase sempre, invisíveis!

E quem de nós, dentro das nossas casas, mais ou menos quentinhas nesta noite fria, nunca sonhou em poder ser, às vezes, invisível?

Aos últimos leitores deste meu desabafo, eu conto a razão da minha insonia.

Com exceção destes últimos (os que moram nas ruas, porque há urgências imensamente maiores a pensar, coisas como simplesmente sobreviver até amanhã de manhã, por exemplo), todos os outros pensam, volta e meia, desejam, sonham, reformar suas casas. Todos desejam, naturalmente, morar um pouco melhor.

Os das casas muito ruins, quem sabe, construir um banheirinho, trocar tábuas velhas por tijolos. Os das casas ruins, quem sabe, o reboco ou o forro. Os que, como eu, vivem em casas mais ou menos, trocar o piso feio por um porcelanato bacana ou pintar as paredes pelas cores que estão em moda nas revistas. O pessoal dos palacetes, por outro lado, precisa mudar alguma coisa por mudar, nem que seja as polegadas do televisor, ou os tapetes por persas verdadeiros. Parte da multidão sem teto ainda sonha com ter casa, mesmo aquela casa muito ruim. Parte da multidão da rua, nem mais com isso sonha.

Mas quem tem casa, quando pensa em "reforma", pensa em tornar a casa melhor do que é. A vida um pouco melhor. O futuro menos incerto.

Ninguém "reforma" nada (casa, vida, futuro) para viver pior.

Deu para entender porque ando perdendo o sono, meu grande amor?

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Fotografias: ₢ do autor, 2014, 2019.


Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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