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percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

POSIÇÃO DE AVANÇO: VER AS COISAS QUE ESTÃO NO MUNDO

Afasto-me, nesta crônica, dos temas que comumente abordo, para falar sobre fotografia, e para abrir espaço às imagens reveladas por um ensaio que situa o olhar de uma jovem artista. A dificuldade começa, ou termina, em escolher as imagens a mostrar, e um título capaz de explicar o que vejo nesse olhar.


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Arquiteta e urbanista, com mestrado em Planejamento Urbano e Regional, Natália Alano, nascida em Criciúma mas criada em Nova Veneza (SC), ainda não completou trinta anos, mas traz para a fotografia brasileira um olhar de necessária e renovada sensibilidade.

Sua dissertação de mestrado, defendida na Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 2018, encarrega-se de apresentar este olhar peculiar sobre os processos, sempre difíceis, da produção da habitação social no Brasil. Processos que envolvem pessoas e sonhos, mais do que cimento e tijolos.

Acompanhando de perto a construção de um conjunto de casas na cidade de São Leopoldo (RS) , financiado pelo programa federal Minha Casa Minha Vida Entidades, ela desenvolveu – ou melhor, traduziu – uma narrativa, para além dos limites acadêmicos, marcada pela emoção das descobertas da solidariedade e dos conflitos de viver em comunidade, e das vivências doloridas do canteiro de obras.

Canteiro à brasileira, sul-americano, terceiro-mundista, isto é, precário e ameaçador. Comunidade do jeito que é, de verdade: modo de sobrevivência. Simples assim: nada de encobrimentos. Realidade, em duplo sentido, descoberta.

Enquanto acompanhava o desenrolar da construção das casas, ela foi mergulhando no cotidiano de incertezas daquelas pessoas. Muitos delas, dublês de construtores com a mão na massa, literalmente, e futuros moradores.

E, deste mergulho, nasceu, não apenas um texto que transborda verdade e emoção (emoção contida, é preciso dizer, pelos constrangimentos do formato acadêmico a que se destinava), mas um manifesto (ou um lugar a ocupar no mundo) que vai revelando ao leitor, mais do que uma arquiteta e urbanista, uma artista em emergência e com falas e imagens que merecem ser ouvidas e vistas por um público maior.

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O que me levou a escrever esta crônica foi a oportunidade, inesperada e privilegiada, de acompanhar parte deste processo, como professor universitário. Primeiro, recebendo-a como estagiária docente no ateliê de Projeto Urbano do qual faço parte, onde a vi enfrentar a timidez e a natural insegurança diante do desafio necessário quanto a escolher um caminho a percorrer. Depois, na tarefa, tão difícil quanto recompensadora, de integrar a banca encarregada de avaliar o trabalho concluído.

Já sabíamos, então, que um trabalho feito assim nunca está, de verdade, concluído.

Se tardei a escrever sobre seu trabalho fotográfico, incluído entre textos, é porque precisava encontrar a distância mais ou menos crítica. Ou porque, ao contrário, precisava estar seguro das minhas primeiras impressões. Na verdade, as duas coisas.

Minha crítica, pois, ao seu ensaio fotográfico, composto de capturas quase ao acaso, mais fruto da oportunidade do que do planejamento (isto é, sem um processo de produção que anteceda ao produto), busca fixar a potência das imagens como paisagem social que se autonomiza em relação ao seus objetivos primeiros, que eram o de registro de campo e o de ilustração para o texto escrito.

Livres do texto acadêmico, onde pontuam a documentação das etapas de pesquisa, tais imagens, isoladamente e, de modo mais evidente, formando um conjunto, ganham a visibilidade de documentos históricos e sociais. Retratam uma realidade de dupla face: uma que fixa o trabalho de canteiro no plano da opressão; outra, mutante, que explora o que a autora define como posição de avanço.

Se bem vejo o que deseja o olhar da artista, revela-se, no fio condutor das imagens, um retrato de condições sócio-técnicas onde, outra vez, reside uma dupla forma de resistência: a dos meios de fazer, submissos à opressão capitalista onde morar é mercadoria; a das maneiras de compreender, quando a esperança projetual surge desejante de se sobrepor às desigualdades, tanto como parte do trabalho dos operários da construção quanto na denúncia compreendida pela lente da pesquisadora.

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Mas há outros aspectos a considerar. O modo de composição, por exemplo, que parece sempre buscar uma tensão entre o que está vivo e o que é inerte. Uma estética “de cinema” que parece revelar certos apreços. Há, sempre, uma linha, mentalmente traçada, para conduzir o olho: ora horizontal, expressando a força da gravidade, ora diagonal, traduzindo vida e movimento. A primeira e a última, entre as fotografias que escolhi, ilustram o que acabei de dizer.

Mas há, também, e não menos significante, a exploração da luz e da sombra, como dispositivos para fechar e abrir, em tensões variáveis, a imagem capturada pela lente-máquina e a imagem revelada à lente-olho. Tudo isso, interpreto, como um feliz balanço entre acasos e intenções.

Se parecer exagero, me arrisco em exagerar, porque encontro, nas fotografias de Natália, uma “pegada” que me lembra Sebastião Salgado. Percebo, também (influência explicita das minhas recentes conversas com Alfredo Nicolaiewsky), um enquadramento que aproxima sua fotografia ao desenho. Abrindo, assim, uma possibilidade (revelando uma potência) para outro trabalho: um mise-em-abyme que talvez arranque da imagem fotográfica (como imagem técnica, no sentido dado por Flusser), tantas outras narrativas (imagens sensíveis brotantes de narrativas interiores).

Das coisas nascem coisas. Como dizia Bruno Munari.

Natália não gosta de se ver em fotografias, e proibiu-me de incluir, nesta crônica, uma foto que também a revelasse. Mas me conta que acha que verde lhe cai bem. Eu acho que lhe cai bem, também, continuar fotografando. Talvez, cedo ou tarde, nos brinde com um autorretrato.

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Fotografias: © Natália Alano, 2016-18 (publicadas com a permissão da autora)


Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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