literarquiteturas

percursos de espaços & narrativas insurgentes

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!

Sessentar (ou mais um manifesto autoindulgente)

Sobre essa mania incontornável de, ano após ano, fazer aniversário, para ser honesto, aniversários sempre foram, para mim, coisas meio fora de órbita. E, sempre que possível, eu me esmero em uma boa desculpa para esquecer, desaparecer, ou me tornar invisível.


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Então é assim que acontece. Não era inesperado, mas chegou subitamente. Você está consciente, no curso do acontecimento, mas não pode fazer nada para mudar o rumo ou o alvo. Você está montado na flecha do tempo enquanto ela atravessa o espaço entre o começo e o fim. Irreversivelmente. Contingentemente. É assim que acontece: nenhuma dor, alguma dor, dor beirando ao insuportável. Você não é sujeito. É o objeto do jogo de dados de Deus. Você não joga: é jogado a esmo. Você se pergunta quanto ao tempo que falta para a flecha atingir o alvo. Está consciente de sua precisão, e sabe que o tempo que resta é menor que o tempo transcorrido na trajetória até aqui. Nesta equação, você é a constante e todo o resto (a vida) são variáveis.

É assim que acontece, e está acontecendo agora, e você pode ou não acomodar o acontecido entre seus propósitos e aproveitar o que resta do seu projeto/trajeto.

Pois é, “sessentei”! Tornei-me, de repente, sexagenário! Irreversivelmente! Eu e minhas circunstâncias! Em tempos da covid-19, aniversários deveriam estar suspensos até tudo isso passar. Se passar. Não é justo. Simplesmente não é justo. Mas ninguém prometeu que seria justo.

Precisei de alguns dias para escrever as cento e trinta e duas palavras que formam as oito linhas de um primeiro parágrafo. A perplexidade deu uma trégua. Lembro-me do verso final de um poema: a calma brota da impotência. Recordo o primeiro verso de um delírio: há febre e não há trégua.

Hoje é segunda-feira, primeiro de fevereiro do ano que não terminou. É o dia depois de ontem, o dia antes de amanhã. O dia que a gente vive porque vive um dia de cada vez. Dia após dia, um dia novo espera o amanhecer. A pandemia faz seus próprios clichês.

Há paradoxos à vista. Por um lado, lhe arrancam um pedaço gordo da autoestima; por outro, o botão do foda-se nunca esteve tão ao alcance do cérebro. De um lado, tem um alemão batendo na sua porta; de outro, você nunca enxergou as coisas com tanta clareza. Bem, permitam-me a dramaticidade e a autoindulgência. Imagino que sejam esses os privilégios de que falam os outros.

Mas não faz muito tempo – um tempo que era, também, de incerteza – eu escrevi uma outra crônica (chamo meus textos de crônicas, às vezes, por preguiça de pensar o que são) em que listava, na deriva do pensamento, epitáfios não verbais (e esse texto também está nas Literarquiteturas): uma pintura, uma música, uma receita, uma viagem, etecetera.

Então, bem sei que a alternativa à condição sexagenária é pior, e tão irreversível quanto. A menos que você enxergue, ou acredite, em espíritos, o que é perfeitamente normal, e, correntemente, algo perfeitamente razoável, em tempos de escassez de razoabilidade.

Eu não enxergo, nem acredito. Embora já tenha presenciado e sentido coisas estranhas que mexeram com meu sossego.

Mas, quando isso acontece, converso com meus botões comunistas. Tenho grande confiança em suas ponderações, geralmente políticas, mas, eventualmente, existenciais.

Não, eu não acho estranho conversar com botões. Nem que os meus sejam comunistas. Compartilhamos muitas coisas em comum. Como o desejo de conhecer Havana (eu, particularmente, quero comprovar que não se parece em nada com a Little Havana de Miami) e Ulan Bator (… uma fantasia pode evoluir para um sonho que pode evoluir para um pensamento que pode evoluir para uma ação que muda uma certa realidade). A clareza de estarmos ao lado dos que escolheram o socialismo (reconhecemo-nos como proletariado!) A tendência para viver à flor da pele (até as lembranças do Facebook nos fazem chorar). A teimosia radical em gostar de poesia (poesia para quem precisa de poesia!). E a convicção absoluta no bordão Fora Bo#@*%$*#$#ro!

Um grito parado no ar – penso, porque a vida segue e, na cacotopia à brasileira, tudo transcorre causando-nos intransferível vergonha. Junte tudo isso num vinte e seis de janeiro, multiplique por sessenta, e é você vivendo aquele dia de cada vez, sem filtro e sem paraquedas.

Para ser honesto, para mim, aniversários sempre foram coisas meio fora de órbita. Na infância, é claro, havia a isca dos doces e presentes. E meus pais eram, digamos, “leibnizianos”, logo, eu sabia que vivíamos na melhor cidade do melhor país do melhor mundo possível e, de ditadura (e tudo o que isso viria representar mais tarde em minha consciência), por exemplo, nunca ouvimos falar.

Na juventude, aniversários eram acompanhados de certo pensamento mágico: algo de extraordinário haveria de acontecer. Aprendi, então, que acasos ou intenções pouco ou nada afetam o desfecho dos aniversários. Logo os vinte e seis dos janeiros se tornaram mera contabilidade burocrática. E, preciso deixar claro: quando os aniversários são dos outros (a única exceção a esta regra são os aniversários do filho), sempre que possível, me esmero em uma boa desculpa para esquecer, desaparecer, ou me tornar invisível.

E assim passaram os vinte, os trinta, os quarenta, os cinquenta episódios anuais: coleção de anos que formam uma boa vida, afinal. Suponho que, fora um ou outro ponto fora da curva, muito acima da média da espécie humana, em geral. O diabo – resmungo para meus botões – é que há um tipo de espaço entre, uma forma de não-diálogo que separa o que você parece ser, no seu lado de fora, e o que você pensa que é, do lado de dentro, isto é, em sua consciência, isto é, quando você é puramente sujeito e deixou todos os objetos em suspensão.

Mas, então, reviravoltamente, aconteceu o que aconteceu e ficou acontecido. Parecido com o que aconteceu com aquelas crianças em Strange things, foi como se fossemos todos jogados em um mundo invertido, mas aquilo era televisão e já não somos crianças e é aqui e agora que estamos, eu e meus botões, e percebo, numa quase epifania, que tendo a repetir o leibnizianismo dos meus pais, e habitamos, pois, o melhor entre os mundos possíveis, não porque seja um bom mundo para se viver, mas porque é consistente com o modelo imperfeito que, como espécie, alienígenas que somos em nosso próprio planeta, vimos construindo desde que espiamos, pela primeira vez, o que havia fora da caverna.

Um vírus é só uma variação que surge no campo infinito dos mundos possíveis, um incidente que atualiza o modelo que simula e seleciona o melhor dos mundos. E completar sessenta anos é apenas uma consequência matemática banal do algoritmo e, pois, muito obrigado, valeu pelo peixe!

Ao fim e ao cabo, os tais sessenta representam simplesmente um incidente íntimo de espaço-tempo em uma sopa cósmica de tempos-espaços feita de memórias e profecias.

A memória é a coisa mais parecida com uma máquina do tempo que dispomos. Permite a reversibilidade do pensamento, enganando, em certa medida. o riscar irreversível da flecha do tempo. Memória é igual à inteligência, dizia Jean Piaget, se não me falha a memória. Quando se vai perdendo a memória, efeito colateral do passo dos anos, tornamo-nos menos inteligentes.

Já a profecia, parece ser um engenhoso mecanismo de autoengano. Mas, vez por outra, acerta precisamente “na mosca”. Eu até diria que a prática da profecia é a mais necessária das pseudociências, e não abro mão de consultar meu I Ching, vez por outra, sobretudo em tempos oblíquos e contingentes, ou seja, justamente, agora.

A vida é uma coisa estranha ao homem – não sei bem o porquê, mas lembro muito desta frase de Julio Plaza e Régis Bonvicino, escrita em uma placa de rua que é, indo além das aparências, uma obra de arte, e, aos sessenta, para além das aparências, você começa a pensar mais em “conceitos” como legado e herança e, então, compreende que é melhor zapear entre suas memórias e profecias, e encontrar algum lugar confortável para passar esta noite. Eu, meus botões comunistas, e minhas insônias. Mas, afinal, o dia do aniversário foi apenas mais outro dia, e é preciso “sobreviver ao viver... superviver”, como dizia Guimarães Rosa, se não me falha a memória. E um dia de cada vez.

Tendo a me alongar-me, a alargar-me em adjetivos desnecessários, quando, quase sempre, os nomes das coisas são por si só suficientes para que as reconheçamos como parte de uma certa classe de coisas. Talvez, aos sessenta, eu possa começar a cultivar alguma objetividade e deixar um pouco de lado minha adição oulipiana por excessos linguísticos. Já não sem tempo! – ecoam meus botões comunistas, enfadados de tantas palavras desperdiçadas.

Assim, eis, em suma e sem mais rodeios, o que eu queria realmente dizer é que: sessenta é bom (face à alternativa de não chegar lá) mas não é bom (você acredita que existe uma marca de fralda geriátrica chamada “plenitude”?). Melhor idade é sua vó torta numa corrida de andador! Mas faço minhas as palavras do Nei Lisboa, que já passou por isso:

– Eu quero morrer bem velhinho, assim, sozinho, ali, bebendo um vinho, e olhando a bunda de alguém.

Pena que esqueci quem era ela. Só que não… ainda não!

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Imagens: Memoscape #1 | Memoscape #2 | Colagens digitais | ₢ Leandro Andrade, 2021

Leandro Andrade

Quando eu nasci veio um anjo me dizer: - Vai, guri, ser quase na vida... E eu achei bacana e fui... pois quasar é quase estrela ... o que pouca coisa não é!.
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