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Embriagada pelos livros

Tailany Costa

Tailany Costa. Embriagada pelos livros, porém acordada pelo desejo de falar sobre eles (e escrevê-los).

Os literariamente mimados

Os "literariamente mimados" são aqueles que só leem um tipo de livro ou de gênero. Perdem a oportunidade de ler grandes obras pelo medo de sair da sua zona de conforto, enquanto poderiam ampliar o seu gosto e repertório literário. Para que ter medo de fazer descobertas, se a literatura tem tanto a nos oferecer?


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No meu blog literário, recebo inúmeros comentários do tipo:

“Nossa, que livro legal! Mas foge muito do meu estilo de leitura…”

Depois de tanta repetição dessas frases nos comentários ou até mesmo em conversas e com alguns estudos relacionados na universidade, essa é uma das minhas preocupações há um certo tempo: por que os leitores de hoje são literariamente mimados?

Quando começamos a nossa experiência leitora, geralmente estamos à procura de satisfação. Queremos ler algo que nos dê prazer, e que nos deixe, de alguma forma, felizes. Eu lembro bastante de leituras que eu julguei na adolescência como ruins, seja por causa de personagens que não me convenceram, de uma linguagem que eu julguei como difícil ou porque não era uma narrativa tão linear, entre outros motivos que agora me fogem à lembrança. Qualquer leitura que no nosso modo de ver não tenha essa facilidade de satisfazer, por estar fora da nossa zona de conforto, causa um certo estranhamento. E esse estranhamento é normal, pois é assim que geralmente se reage ao novo. A questão central é: o que se faz com ele? Apenas volta atrás na leitura, porque não é isso que costuma ler ou entrega-se a novas experiências?

Isso não é prerrogativa apenas da literatura: ser desafiado por novas experiências sempre amplia nosso conhecimento, e, claro, o nosso gosto. À medida que vamos conhecendo e experimentando situações, torna-se mais fácil saber o que nos agrada, o que não nos agrada e o que permanece como incógnita. E a literatura não fugiria disso. Temos um conhecimento limitado de acordo com os livros que lemos. Porém, quanto mais experiências literárias acumulamos, mais ampliamos nossa visão de mundo e das coisas.

É fato que existem livros que são uma delícia de ler, sem que se precise ter tanto trabalho com a linguagem. Isso não quer dizer que sejam leituras dispensáveis, até porque uma boa narrativa é importante para cultivar a nossa imaginação. O que não investem em forma, geralmente investem em ação, e esse tipo de leitura também é importante para formar novos leitores. Porém vale ressaltar que, para algumas pessoas, ler livros como esses não é rotina, e sim fuga da zona de conforto. E até nestas pode haver o estranhamento de não encontrar na leitura o prazer do desvendamento da linguagem, que se dá por interpretação e reflexão e não por leitura rápida.

Mas quando se lê um livro de narrativa nada linear, ou um poema com metáforas que a um primeiro olhar pareçam indecifráveis, ou um romance com personagens desconstruídos, ou de um gênero que você nunca leu antes (ou tudo isso junto), é preciso saber discernir muito mais coisas. Uma delas é que o estranhamento de que já falei é útil quando nos torna buscadores. Para gostar ou não gostar de um livro, é necessário conhecer, por isso tanto dizer sem ter lido que Cinquenta Tons de Cinza é péssimo como dizer que Machado de Assis é chato porque é clássico e tem linguagem rebuscada não se sustentam devido à própria ignorância da afirmação. Claro que haverá livros abandonados por nós, uma vez ou outra, antes de finalizada a leitura. Mas lembre-se de um livro que você, na adolescência, começou a ler entediado porque a professora pediu e acabou gostando. Pense no filme que assistiu e se emocionou tanto que correu para comprar o livro que o inspirou. Pense num clássico que foi pré-julgado como chato e, ao terminar de ler, você ficou tão eufórico que queria sair indicando pra todo mundo. Pense em todos os livros que normalmente, não escolheria de primeira. Sei que muitos já se enxergaram em tais situações enquanto leram essas frases. E os que porventura não se viram, costumam ser os mais resistentes a sair da zona de conforto.

Mas ninguém precisa se limitar a ser literariamente mimado. Até pode ser mimado em momentos de lazer, mas é interessante que o ato da leitura não seja resumido apenas a isso.

Ler algo diferente do que você normalmente lê amplia seu repertório de experiências. Atinar para aspectos da vida retratados pela ficção e nunca antes notados te faz ser um leitor cada vez mais atento às características humanas, organizações sociais, entre outras coisas. Ler poesia (que por si só, pede outro ritmo e outra atenção) te dá uma certa calma e reflexão de fazer inveja a qualquer desses livros de autoajuda com fórmulas prontas. E essas descobertas só se dão se você excluir a frase “Ah, eu só leio livros do tipo X” do seu repertório. Até porque você não precisa parar de ler o que gosta de verdade para que isso aconteça. Pode, inclusive, descobrir novos gostos e somar aos que já tinha. Garanto que é um caminho sem volta e agradabilíssimo.


Tailany Costa

Tailany Costa. Embriagada pelos livros, porém acordada pelo desejo de falar sobre eles (e escrevê-los). .
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