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Embriagada pelos livros

Tailany Costa

Tailany Costa. Embriagada pelos livros, porém acordada pelo desejo de falar sobre eles (e escrevê-los).

Venenos de deus, remédios do diabo

A narrativa espetacular do romance "Venenos de Deus, remédios do diabo" do moçambicano Mia Couto reflete sobre o racismo, a solidão e as incertezas na vida do ser humano. E é mais, muito mais.


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"Venenos de deus, remédios do diabo", do escritor Mia Couto, foi tão impactante para mim que tive de esperar algum tempo após a sua leitura para resenhá-lo.

Sidónio Rosa é um médico português que viaja para Vila Cacimba, em Moçambique, para supostamente curar o vilarejo de uma epidemia. Mas na verdade, ele está à procura de Deolinda, uma mulata pela qual se apaixonou durante uma viagem que ela fizera a Lisboa. Porém ela está desaparecida, e como quisesse ter de alguma forma a sua presença, o médico passa a cuidar do pai de Deolinda, Bartolomeu, ex-mecânico naval e doente terminal, que nunca sai de casa. O velho tem o espírito pessimista de quem morreu já bem antes mesmo de a alma sair de dentro do corpo, e um ar misterioso que percorre toda a narrativa. Vive com Dona Munda, sua esposa e principal alvo de seus resmungos, personagem de uma força tal que só atesta o quanto Mia Couto sabe traçar perfis femininos inigualáveis.

Ao mesmo tempo que é observador, Sidónio pensa em seus momentos de amor com Deolinda e ansia reencontrá-la. Porém, ele se enreda cada vez mais nas explicações que Dona Munda dá sobre o assunto. Esse mistério é levado por meio da incansável prosa poética do Mia, que nos diz muito sem necessitar de descrições longas, encerrando na poesia o sentido último de sua narrativa - entendendo poesia aqui não como gênero, mas como forma de narrar.

"Sidónio sabe da rotina de Bartolomeu: domingo é dia de janela. A meio da manhã, ele se desamarra do reumatismo, ergue-se arrastoso e se encosta na luz, a contemplar a rua. Meio oculto entre os cortinados, não vê muito, quase que não escuta. Melhor assim: os sons desfocados já não o convocam. Apesar de tudo, vai acenando. De que vale estar à janela se não é para dizer adeus?"

A história de Bartolomeu, um negro que viu na navegação uma oportunidade de mudar um pouco a sua vida, por vezes romantizando suas perspectivas, era um chiste para o administrador da Vila, Suacelência. Essa autoridade, que não parece lhe impor medo, dizia que "esses colonos precisavam de um preto decorativo", o que enchia Bartolomeu de revolta.

Além do amor, da solidão advinda da velhice e das doenças, nesse romance há reflexões sobre racismo - inclusive fala-se sobre o complicado relacionamento entre negros e mulatos. Há também muito sobre incerteza, pois tanto quanto o discurso, que é feito para encantar, a realidade parece, por vezes, forjada. De fato é uma obra que nos tira o chão, o conforto, mas ao mesmo tempo nos traz experiência e emoção tais que os venenos e remédios se fundem. Como é comum em suas obras, o fantástico e o real se cruzam, se tornando praticamente a mesma substância, pois como o próprio autor já disse em uma das edições da Fliporto (Festa Literária Internacional de Pernambuco) não há grandes separações entre esses aspectos na realidade africana.

Esta é uma obra surpreendente e, mesmo assim, traz características já observadas em minhas leituras anteriores de outros livros do autor - a saber: o romance A confissão da leoa, o livro de contos O fio das missangas e o conto Olhos nus: olhos (inspirado na música Olhos nos olhos, de Chico Buarque). De fato, não há como fazer nenhuma leitura de Mia Couto sem vivenciar aprendizados sublimes.


Tailany Costa

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